Neste bairro lisboeta, fala-se um código com mais de cem anos, que os de fora não entendem
É provável que tenha passado despercebida a palavra ‘badousi’ na letra da marcha com que Alfama desceu este ano a avenida, nos Santos Populares, a todos quantos não nasceram no bairro, nem nele se movimentam. ‘O qu’importa meu amor, o qu’importa/Sou daqui, Badousi, Badousi’. Até porque quem circula neste que é o bairro mais antigo de Lisboa cruza-se com todo o tipo de línguas (os turistas são agora mais do que os residentes) mas nem imagina que os moradores também têm o seu próprio código, a que se convencionou chamar ‘o calão de Alfama’. Um código em que são tão fluentes que até os portugueses ficam de olhos em bico quando ouvem este ‘alfamês’.
"‘Badousi’ não está em nenhum dicionário e, aparentemente, não significa nada. Mas, para os ha- bitantes de Alfama, significa sou. Sou é uma palavra monossilábica e a regra deste dialeto implica tirar a primeira letra, colocá-la no fim e acrescentar um i. A dada altura houve uma prefixação ainda mais complexa. Em vez de ficar ‘ousi’ começou a acrescentar-se o prefixo bad – assim surge o ‘badousi’. Alfama ficaria ‘badamalfi’ por exemplo. O desenvolvimento desta linguagem aconteceu nesta zona da cidade, mas com a evolução e o alargar do dialeto a outros bairros houve uma necessidade de aprimorar ainda mais o dialeto daqui, para ser mais nosso. Por isso, esta é a regra, mas há variações", explica Ricardo Gonçalves Dias, um dos letristas da marcha de Alfama – bairro onde nasceu e cresceu – e que aprendeu o ‘alfamês’ na adolescência.
"Era muito complicado alguém que fosse jovem nos anos 80 ter um pai a explicar-lhe calão, porque havia aquela questão de quem fala calão querer esconder alguma coisa, havia esta mística. Na minha geração, não tendo precisado de utilizar o calão para esconder alguma coisa, utilizo mais como vaidade. Eu aprendi com a geração mais velha que eu. Quando tinha 12 aprendi com os de 20 e tais. Acho que sou da última geração com a herança do calão. Contudo, como é que aprendi? Nós aqui temos uma coisa que era da praxe, como andar de elétrico à pendura, aprender o calão é um processo de crescimento, quase como uma necessidade. É uma procura tão orgânica e tão natural que, quando damos por ela, já estamos a falar. Não me lembro do meu pai sequer me ter ensinado uma palavra. Ainda hoje, há muito pouca bibliografia académica sobre isto e não há um dicionário, nem existe um manual que ensine a falar", acrescenta Ricardo.
Fugir à polícia
Numa janela apinhada de turistas, Tininha, filha do bairro, vende ginjinha sem precisar de sair de casa. "Então, pois claro que sei falar calão, isso já vem dos nossos antepassados". Uma vizinha junta-se à conversa: "Tu sabes falar, Tininha?". "Eu nunca soube. É muito difícil. O meu marido falava tão bem e agora não sabe. Falava ele e os colegas, e eu não percebia nada do que eles diziam. Mas sei que quando jogavam todos à bola, em vez de gritarem ‘Vem o chui’ diziam em calão.
"O meu pai quando falava assim com os amigos, eu ficava logo de orelha guiada. A minha mãe dizia logo: ‘já estás com as antenas em pé, não é?’ A minha mãe não gostava nada que eu aprendesse. Dizia que era coisas de homens, que os estivadores é que falavam calão. Naquela altura… então, ela não gostava. Mas comecei a aprender por mim própria. O meu filho também sabe falar e até a minha neta de 12 anos me pede: ‘Oh avó, ensina-me a falar como tu falas com o pai, eu gosto tanto de te ouvir falar’. Há muita gente que acha que só dá para a asneira, mas pode-se ter conversas perfeitamente sérias. Ainda ontem de manhã estava a ter uma conversa sobre um assunto muito delicado com a minha irmã em calão e de repente, fiz-lhe sinal para ela se calar porque o rapaz do andar de cima também sabe e podia descobrir sobre o que estávamos a falar. O calão também dava para a maroteira, asneiras e tudo. Tanto que quando queremos falar mal de uma pessoa falamos em calão, que a pessoa não percebe", conta Ti-ninha, 64 anos, que já puseram a mesa em restaurantes, colocaram tetos falsos e fizeram limpezas antes do reumático a levar a vender ginjinha a um euro o copo na janela da casa onde vive e onde todos os guias turísticos param para levar os fregueses a brindar.
Carmelinda também vende ginja e também conhece o ‘alfamês’ embora já não pratique há mais tempo do que se lembra. "Ai, filha, eu também já soube falar mas já me esqueceu. Não eram os pais, a gente é que via os outros a falar e punha-se também a falar. Naquela altura era fácil, mas agora parece difícil. Eu vou fazer 84 anos. Vim para aqui de pequena, vim para aqui de mama. E daqui já não saí mais, fiquei sempre aqui", conta enquanto ajeita o avental.
"Durante meio século perdurou este dialeto como um instrumento identitário, como podia ser uma bandeira, um limite demográfico ou um dado estatístico. Mas estou convencido de que pertenço à última geração que sabe falar o calão de Alfama", lamenta Ricardo Dias.
"Isto não se esquece. Mesmo que passe dias e meses sem falar, não me esqueço. Dava jeito saber uma língua que outros não percebiam. Na estiva, falávamos este código no nosso trabalho diário", conta Basílio Almeida, 82 anos, que assiste a uma jogatana de cartas ao lado do Museu do Fado, tão longe vai o tempo que o trabalho de estivador lhe ocupava os dias e as mãos.
"Acredito que este dialeto é uma consequência da República e aparece antes do Estado Novo. No final da primeira década do século XX, já se falava. Muito provavelmente não seria o calão que chega aos nossos dias, mas já havia uma narrativa no sentido de poderem falar entre eles, os nativos de Alfama, sem serem reconhecidos", adianta o antropólogo Rui Alberto Coelho, investigador da área. "Também não parece haver muita dúvida que ele nasce dos trabalhos portuários, não exclusivamente da estiva, mas lembremo-nos da entrada da cidade e de que tudo o que entrava por água, entrava por Alfama. Podia ser o ter um linguajar paralelo, de forma a que quem chega de fora fala uma língua que os habitantes de Alfama não dominam, e poderem também comunicar entre eles sem serem entendidos. Eles não entendiam quem vinha de fora, mas assim os outros também não os entendiam a eles. E o desdobrar para dentro do bairro está muito associado às vendas paralelas, não digo de candonga, mas as compras sub-reptícias, tudo o que eram bens, eram práticas regulares dos portos. Tudo o que entra de novo é valorizado e colocado em mercado paralelo. Era uma forma de contar uma história e de enganar alguém, sem esse alguém se aperceber de que está a ser enganado. Depois disso, arrisco-me a dizer que, nas últimas duas décadas, os locais onde se ouvia mais calão eram os carteiristas, uma forma de poder ter códigos sem serem reconhecidos. No tempo do Estado Novo, também era muito utilizado para poder falar sem que a PIDE soubesse o que se dizia", acrescenta o antropólogo a quem um ‘informante’ – numa altura em que fazia um trabalho académico sobre este dialeto – chegou a dizer: o calão agora vai-se automutilando, para haver defesa. "Este dialeto é muito aberto, precisamente pela necessidade de continuar a preservá-lo. É dinâmico".
"Tanto que um habitante de Alfama tem orgulho no calão mas não pretende desmontá-lo" - acredita ainda Rui Coelho - "aquilo que faz com que ele seja tão próprio e rodeado de misticismo e secretismo é o facto de não ser acessível a todos. Se for desvendado, acabamos por estar a subverter o linguajar".
Já o escritor de Sernancelhe, Aquilino Ribeiro, escrevera sobre este particular linguajar: "O calão, a meu ver, começou por ser uma linguagem de defesa do fraco contra o poderoso, do preso contra o carcereiro e algoz, do conspirador contra o juiz e o tirano", num resumo que serve muito bem o fim deste texto. E que as gentes de Alfama (ou ‘Badamalfi’) decerto subscrevem. As que ainda falam o calão (Badoncali) e as que há tanto não falam, que há muito já se esqueceram.
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