Tal como o pai tinha a mania da bola, “vida fácil” que trocou pela dureza do selim. Valeu a pena, o rapaz tímido de Manique trouxe para a ventosa freguesia de Cascais uma medalha de prata
“Onde fica a vivenda Paulinho?” A freguesia de Manique nasceu no alto de um morro do concelho de Cascais, para o interior. Ao longe, entre o impossível labirinto de casas, avista-se o mar. “Eu levo-os lá”, diz-nos decididamente o homem que entra para a carrinha branca, guina na primeira à esquerda, depois à direita e aponta para uma vivenda.
É um edifício de rés-do-chão e primeiro andar, tem uma bandeira portuguesa empoleirada no telhado – resta do Euro’2004 – e duas águias de calcário de asas abertas de cada lado do portão de entrada. É ali que mora o herói – Sérgio Paulinho, medalha de prata na prova de estrada nos Jogos Olímpicos de Atenas. Cresceu naquela terra e deu as suas primeiras pedaladas naquelas ruas onde descer era demasiado fácil. Subir, ao contrário, uma prova de força nas pernas.
O pai Jacinto, homem de 51 anos que criou a família à conta de profissão com nome peculiar, carpinteiro de limpos, soube medir-lhe o jeito desde pequeno. Sérgio Paulinho, bebé preguiçoso para andar, só aos 15 meses deu o primeiro passo. E ganhou asas com a primeira bicicleta.
“Ele tinha aí uns cinco , estávamos a construir a casa e ele punha-se a pedalar aqui à frente. Lembro-me do João Marta, que me estava a ajudar na construção, dizer: ‘Olha-me aquele estilo!’.”
Estilo que só podia ser herdado, os três rapazes da família Paulinho saem todos ao pai Jacinto, ciclista em 15 Voltas a Portugal por 11 equipas, entre as quais o Louletano e o Cantanhede. Pedalava de Agosto a Janeiro e depois o resto do ano trabalhava no duro, mas sem bicicleta, para sustentar a família. Além de Sérgio, o mais velho, Ana Maria teve ainda mais dois rapazes, Cláudio, agora com 22 anos, que pedala pelo Grupo Desportivo de Cabanas e Pedro, 14, pelo Lousa.
ENTRE A BICICLETA E BOLA
Ana Maria trabalhou em fábricas, antes de se dedicar a profissão mais trabalhosa – dona de casa. Foi mais fácil ter Sérgio Paulinho a 26 de Março de 1980, na maternidade de Oeiras, do que vê-lo pedalar no dia 14 em Atenas. “Estava a ver mas às tantas levantei-me e fui-me embora. Se eu me enervo a ver os outros portugueses, ainda mais ele, que é meu filho!”
Depois, quando era claro que o seu Sérgio subia ao pódio, voltou para chorar como uma Madalena a alegria de tamanho feito. “Falei com ele ainda naquele dia, mas não me lembro da conversa. Foi muito rápido. Não tinha dormido na véspera da prova, não dormi nesse dia. E ainda não estou em mim”, diz Ana Maria, senhora tímida sentada à mesa da sala, frente ao quatro da ‘Última Ceia’. Por cima da lareira, atrás dos candelabros, estão fotos recentes – a do seu filho com coroa de louros, medalha de prata ao peito, em Atenas. Sérgio Paulino foi bebé fácil, com a mesma calma que ainda hoje se lhe reconhece nos modos. “Onde o punha, ele ficava”, diz a mãe.
Só para escola não teve talento ou paciência – desistiu no oitavo ano, queria a bicicleta ou a bola. Conta o pai Jacinto que dias houve em que a fama do futebolista -–“carreira bem mais fácil do que a da bicicleta” – luziu a Sérgio com mais brilho. “Era muito bruto a jogar”, confessa o vice-campeão, como se fosse possível imaginar que este rapaz, que nem de sair à noite gosta, pudesse arrumar outro à moda de Sá Pinto.
Largou a bola. O pai Jacinto não se incomodou – também ele tinha driblado na terceira regional e largado os passes pelo pedal.
É claro que Jacinto nunca poderia ter adivinhado o brilharete em Atenas, mesmo que tivesse topado o talento de Sérgio na adolescência. “A primeira vez que o vi correr aos 11 anos, percebi que ele se fazia. O Sérgio tomou conta do pelotão, trabalhou para o colega da equipa ganhar ao sprint. Quando faltava duas voltas caiu, levantou-se e encostou-se à beira a pedalar. Mostrou o que um ciclista deve ser.”
Jacinto treinou o filho no Matodeirinhos, Alcobaça e Vila do Conde, até entrar para o LA Pecol, equipa pela qual correu este ano a Volta, alcançando o sexto lugar na geral.
Anabela Vieira está enterrada no sofá da futura sogra, frente à televisão onde passa a telenovela da tarde. Tem 19 anos, concluiu um curso técnico-profissional e anda à procura de emprego. Mora em Alcobaça, onde Sérgio a conheceu, corria para a equipa do pai dela.
O namoro só atou depois de ciclista ir correr para outro lado, no caso Vila do Conde. “Achava que ele era bom ciclista mas a gente só nos íamos vendo e falando, nada mais.” Anabela não lhe deu trela enquanto ele andou por Alcobaça, Sérgio teve de penar através de telefone e SMS. O namoro à distância continua, cada um vive em casa paterna. Casamento, só daqui a dois anos.
Foi em Alcobaça, em frente à TV com a mãe e a avó, que Anabela viu o namorado ganhar a prata. “Não estávamos à espera mas depois houve a fuga. Fartei--me de pular!”
Sérgio Paulinho estava a equipar-se para a Volta a Portugal, quando Américo Silva director da LA Pecol Bombarral lhe disse que tinha bilhete de avião para a Grécia. Falou à noite com a namorada para lhe dizer, simplesmente “vou a Atenas”. Aterrou em solo grego, mas dele quase nada viu. “Não fomos sequer à cerimónia de abertura, porque corríamos no dia seguinte e tínhamos de descansar. No dia da corrida estava muito nervoso, estava ali com os melhores ciclistas do mundo.” Lembra-se de ver bandeiras portuguesas agitarem-se ao longo do percurso, jura que ouviu o nome dele. Diz que a seguir à última subida, com 40 segundos sobre o pelotão, percebeu que seria possível, aos 24 anos, no segundo ano de profissional.
DO AEROPORTO PARA A FAMA
De regresso a Portugal, passou as quase três horas de voo aflito, a pensar no que iria encontrar no aeroporto no primeiro passo para a fama. “Depois de levantar as bagagens e sair, levei logo com uma série de ‘flashadas’ das câmaras fotográficas. Estavam para aí umas 500 pessoas à minha espera e ainda as televisões. Foi estranho e ainda é. Agora treino na estrada e já se metem comigo. No sábado passado estava com a Anabela no Campera e ouvi dizerem: ‘Olha, está ali o medalhado’.”
Sérgio Paulinho continua o rapaz sossegado que a mãe Ana Maria aponta nas fotografias antigas, o seu “bebé loiro e gordinho”. A mesa da sala está cheia de álbuns, e procura a foto da primeira bicicleta de Sérgio. Ela sabe que na próxima época o filho já não correrá em Portugal. O medalha de prata vai para Espanha, para a Liberty Seguros. Jacinto Paulinho diz que o filho tinha já dado a palavra à equipa antes de fazer as malas para Atenas. E palavra dada não se retira.
Pode estar mais perto o dia em que cortará em cima de uma bicicleta os Champs Elisées: “O que eu gostava mesmo, era de correr uma Volta a França”, diz o herói de Manique.
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