Num monte alentejano, bem longe das livrarias, Afonso Cruz cria sem parar. ‘Para Onde Vão os Guarda-Chuvas' é o seu romance mais recente.
Se Afonso Cruz quiser comprar o seu último romance, ‘Para Onde Vão os Guarda-Chuvas', que será posto à venda nesta quinta-feira, terá de entrar no automóvel e fazer 60 quilómetros até Évora, onde fica a livraria mais próxima. Para o escritor, ilustrador e músico português, de 42 anos, que nos últimos seis fez livros premiados como ‘Jesus Cristo Bebia Cerveja' e ‘O Pintor Debaixo do Lava-loiças', este é um efeito secundário da decisão tomada há pouco mais de cinco anos, quando trocou "um dos sítios mais cosmopolitas de Lisboa", como descreve a avenida Almirante Reis, por um monte alentejano inserido na reserva agrícola nacional.
É numa casa de 200 metros quadrados, junto a uma aldeia cujos habitantes cumprimentam desconhecidos na rua, homónima do edifício que serve de residência a Barack Obama, que Afonso Cruz passa os dias, "sem grande fronteira entre trabalho e ócio", frente ao computador. Devido à falta de incidentes fronteiriços naquele monte junto a uma estrada municipal - o que o leva a dar coordenadas de GPS em vez de endereço aos visitantes -, só neste ano publicou mais quatro livros, incluindo a peça de teatro ‘O Cultivo de Flores de Plástico' e os infantojuvenis ‘O Livro do Ano' e ‘Assim, Mas Sem Ser Assim'.
Só começou a escrever quando já tinha 35 anos, após realizar filmes de animação e de juntar as suas ilustrações a textos de outros autores. "Não me arrependo de nada. Sempre gostei muito de ler, mas nunca pensei ser escritor. Também acho que a escrita - tal como a ilustração - corresponde a uma necessidade. A partir de certa altura, tornou-se natural. Como um copo que se foi enchendo e depois, sem nenhuma razão, transbordou", recorda o pai de dois filhos, que por vezes se queixam do barulho dos pássaros.
Naquela zona do concelho de Sousel, onde o sol ainda queima incautos em outubro, há muitas aves, incluindo de rapina, presumíveis culpadas do sumiço de uma gata. É o que indiciam as marcas de garras que Afonso encontrou no pêlo do outro felino da família, "um gatarrão com oito quilos e tal", demasiado robusto para outra morte que não a de velhice. É também devido aos estragos que os ninhos dos pássaros causam que uma vizinha atira para o telhado todas as cobras que consegue apanhar.
ORIENTE EFABULADO
Longe do multiculturalismo que encontraria à porta de casa, frente à Igreja dos Anjos e ao lado da Sopa dos Pobres, se tivesse continuado na Almirante Reis, é nesta paisagem, dominada "por um céu maravilhoso", que escreveu ‘Para Onde Vão os Guarda-Chuvas', ambicioso romance com mais de 600 páginas que a Alfaguara vai publicar. Para trás ficaram três anos de trabalho, em que o livro foi ultrapassado várias vezes por outras obras, qual candidato a tio solteiro que vê irmãos mais novos saírem primeiro de casa.
A primeira inspiração veio de Gandhi, que terá dito a um hindu destroçado pela morte do filho para adotar uma criança muçulmana. "Não sei se a história é verdadeira e também não me preocupo com isso. O que é importante numa história é o seu conteúdo, a sua mensagem, e não o ser ou não verdadeira", explica à Domingo o escritor, que transpôs a premissa para os nossos dias, num "Oriente efabulado", habitado por um fabricante de tapetes, uma adúltera camuflada com uma burca, um mulá inflexível e um ex-general soviético capaz de tudo. Todos eles num Paquistão que não chega a ser nomeado.
"Convinha que fosse um país com maioria muçulmana, que tivesse alguma intervenção dos EUA, ou em que, pelo menos, houvesse algum ódio recíproco, e que tivesse trabalho infantil industrializado - porque trabalho infantil há em todo o lado. E também não podia ser muito longe do Irão, por causa dos fragmentos persas", explica, antecipando um dos segredos do romance. Ao longo das páginas, e num apêndice, juntou-lhe frases, alegadamente escritas por um anónimo, como "os homens deveriam olhar para os outros como se eles fossem uma nuvem ou um terramoto".
Apesar de ter visitado mais de meia centena de países, Afonso nunca foi ao Paquistão. "O mais próximo foram as vizinhas China e Índia. Conheço alguns países do Médio Oriente e do Norte de África, e conheço a religião devido às minhas leituras", afirma, admitindo que os fragmentos persas "poderão ser um pouco heréticos". Embora a religião não seja o tema principal de ‘Para Onde Vão os Guarda-Chuvas'.
LICENÇA AGRÍCOLA
De igual forma, a mudança para o Alentejo não aconteceu só em função da literatura. "Eu não escrevo debaixo de um sobreiro, mas sim em frente ao computador. Nesse sentido, é igual ao que se passava em Lisboa. Só quando não estou a trabalhar é que a paisagem é diferente", refere, sentado no sofá de uma espaçosa sala quadrada, rodeada de estantes cheias de livros, que serve de local de trabalho para si e para a mulher, uma designer gráfica especializada em livros.
A recuperação do monte alentejano, edificado no século XIX, trouxe-lhes problemas quase surreais. Para acrescentar cinco metros quadrados à casa, inserida na reserva agrícola nacional, foi preciso seguir a dica de um burocrata, que aconselhou o aproveitamento de um pequeno rebordo de cimento à volta da casa para somar a área necessária. Para os automóveis não ficarem atolados em lama no caminho entre o portão e a residência é preciso ter uma licença que implica ser agricultor. E o próprio portão está numa espécie de limbo: "A câmara considera que não está na reserva agrícola, e por isso não precisei de pedir licença. Por outro lado, não podia construí-lo na via pública, pelo que consideram que fica no meu terreno."
Conhecido por fabricar a sua própria cerveja, o que faz num anexo da casa, Afonso permite que um vizinho cultive o terreno, embora ainda tenha pensado em apostar nos laticínios. "Quando cheguei aqui tinha vontade de fazer queijo. O problema é que não consigo comprar leite cru nesta zona e, por incrível que pareça, o leite de pacote, pasteurizado, não coalha. É possível coalhar leite com comprimidos de cálcio, mas fazer queijo com leite industrial e comprimidos já seria demasiado estranho", lamenta.
A MAIOR DOR QUE EXISTE
Bizarra é a solução que Elahi, o protagonista de ‘Para Onde Vão os Guarda-Chuvas', encontra para minorar a dor da morte do seu único filho. Um indiano pobre, mais tarde convertido ao Islão por amor a uma muçulmana, impele-o a adotar uma criança norte-americana. Assim acontecerá, embora não da forma mais expectável, e com consequências imprevisíveis.
"Perder um filho é um dos maiores pânicos de ser pai. Será a dor mais dolorosa que podemos imaginar. E eu próprio me emociono...", admite o escritor, que já tem a meio um novo romance e mais um volume da sua ‘Enciclopédia da Estória Universal', que já lhe valeu o Grande Prémio do Conto Camilo Castelo Branco.
Ao contrário dos terrenos da reserva agrícola em que se encontra, não vê necessidade de pousio. "Como gosto de escrever e de ilustrar, vou tendo ideias, que procuro concretizar o mais depressa possível. Estou sempre a trabalhar", garante, dias antes de ver chegar às livrarias um romance que pode alterar a ideia que os leitores fazem dos guarda-chuvas, tal como lhe aconteceu quando um amigo lhe disse que esses utensílios não deviam pertencer a ninguém, ficando à disposição de quem necessitasse.
Afonso Cruz reconhece hoje alguma metafísica aos guarda-chuvas: "Por acaso têm algumas características engraçadas. Termos uma coisa por cima de nós, e que nos protege, tem a ver com o divino." E para onde é que eles vão? A resposta fica para quem ler o romance, mas a verdade é que, na hora de tirar as fotografias para a Domingo, ninguém conseguiu encontrar um.
ÚLTIMOS LANÇAMENTOS DE UM HOMEM DAS OBRAS
Além de ‘Para Onde Vão os Guarda-Chuvas', que esteve para ser três livros diferentes (e cujo primeiro capítulo continua a ser um conto de Natal ‘sui generis', ilustrado pelo autor), Afonso Cruz lançou recentemente o texto da peça de teatro ‘O Cultivo de Flores de Plástico', também editado pela Alfaguara, e o livro infantojuvenil ‘Assim, Mas Sem Ser Assim' (Caminho). "Nunca tenho muita coisa na gaveta. Vou escrevendo e vou publicando", diz à Domingo
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