José Castro fica na história por chamar a depor um familiar direto do rei de Espanha
Em Maiorca, na casa com vista sobre o Mediterrâneo, é comum ver a luz acesa pela madrugada dentro. O juiz José Castro, que vai ficar para a história por ter sido o primeiro a chamar à Justiça um membro da família real espanhola, é também conhecido pelas insónias que o assaltam há mais de duas décadas. É pela calada da noite que este homem de 67 anos, divorciado, pai de três filhos, costuma despachar processos e terá sido numa dessas noitadas que tomou a decisão de incluir o nome de Cristina Frederica de Borbón e Grécia, filha mais nova do rei Juan Carlos, no processo do Instituto Nóos.
A infanta deveria prestar declarações em tribunal no dia 27 de abril, mas o recurso apresentado pelo procurador Pedro Horach levou à suspensão da audição. Para já, fica o pronunciamento de Cristina de Borbón, constituída arguida por suspeita de envolvimento na rede de enriquecimento ilícito, que implica o seu marido Iñaki Urdangarín e o ex-sócio Diego Torres.
Justiça para todos
O caso Nóos há muito que ocupa as manchetes dos jornais em Espanha. Mas só no início deste mês tocou diretamente a família real, quando os indícios e forte pressão popular levaram o juiz a constituir a infanta como arguida. No auto, em que, tal como todos os que assina, usa linguagem simples e eloquente, Castro explica a decisão: “Deixar que a incógnita se perpetue seria um passo em falso para o descrédito da máxima de que a Justiça é igual para todos.”
José Castro tropeçou no caso, que o próprio classificou como o mais labiríntico da sua carreira, quando investigava o custo excessivo do velódromo de Palma. Instituição sem fins lucrativos, o Instituto Nóos iniciou atividade em 2003, para promover turismo, cultura e desporto. Com Urdangarín na presidência, beneficiou de contratos milionários com os governos das ilhas Baleares e a Comunidade Valenciana. As suspeitas surgiram quando parte dos cerca de seis milhões de euros captados aos cofres públicos foram depositados em contas bancárias de empresas detidas por Urdangarín e Torres. Uma série de mensagens eletrónicas envolve também Cristina de Borbón, que integrava os órgãos dirigentes do Nóos. Em março de 2012 foram consideradas “inconsistentes”. Em abril de 2013 valeram conclusão contrária.
Discreto e vaidoso
Sem mudar um passo na rotina diária que mantém desde que em 1985 aterrou na cidade de Palma de Maiorca, o juiz Castro já alterou o rumo da monarquia. A chamada da infanta Cristina a um processo judicial cai como pedra num charco, no momento em que a popularidade do rei Juan Carlos é pela primeira vez negativa e em que as manifestações a favor da República se sucedem nas várias regiões de Espanha. Segundo a imprensa espanhola, o juiz terá hesitado bastante antes de chamar Urdangarín e mais ainda com a infanta Cristina. No entanto, não queria reformar-se com esse peso no colo.
Apesar da grandiosidade do caso, Castro continua a usar autocarro para chegar ao tribunal, onde mantém um gabinete de 15 metros quadrados. Na pacata cidade, mais dedicada ao veraneio, é elogiado por nunca se ter deixado subjugar aos ricos e poderosos.
Quando, em 1991, Sebastián Ginart, dono de uma editora que o juiz acusara num caso de faturas falsas, ficou em liberdade graças a um volte-face do processo, Castro teve uma reação explosiva e deu a mesma liberdade a todos os que cumpriam penas por crimes semelhantes. Nessa altura, os guarda-costas dos visados não o atemorizaram, tal como hoje as indicações do Palácio da Zarzuela não o limitam. Para os seus detratores, a faceta de justiceiro mais não é do que um ato teatral, criado para fazer brilhar o homem cuja maior ambição foi sempre vestir a toga de juiz e deixar no epitáfio a marca de que foi capaz de lutar contra a corrupção.
O bom e o vilão
Discreto, solitário, vaidoso e conquistador, José Castro mistura em si facetas de bom e de vilão. Dotado de enorme capacidade de trabalho, que o leva a marcar julgamentos aos sábados – como aconteceu com Iñaki Urdangarín e deveria ocorrer com a infanta Cristina, se fosse depor dia 27 como inicialmente previsto –, a assinar despachos pela madrugada e a fazer exercício às 06h00, é descrito como “incansável”. Ao ‘El Mundo’, o filho mais velho, Daniel, advogado de 37 anos, classifica-o como alguém “capaz de trabalhar 14 horas, sair de bicicleta para fazer compras num supermercado e voltar a trabalhar”.
Nascido em Córdova, no seio de uma família de agricultores, que acabou falida, José Castro Arágon destacou-se nos bancos da escola pela eloquência. Iniciou carreira como funcionário das prisões e percorreu o país (Barcelona, Sevilha, Lanzarote) até chegar a Palma de Maiorca. Obsessivo na profissão e na vida pessoal, não frequenta a elitista sociedade local e nunca perde um jogo do Real Madrid. Divorciado há 20 anos, vive sozinho, apesar de ter companheira, e gosta de elogiar as colegas de trabalho. Usa casacos de cabedal, de corte clássico, que favorecem a imagem de apoiante da ‘esquerda moderada’ e não ostenta riqueza. Vive do salário de quatro mil euros, em moradia num bairro discreto, possui uma motorizada V-Max 1200 e um BMW Z3 descapotável, comprado em segunda mão.
O genro que manchou o prestígio baço da Casa Real
Inicialmente, era apenas o nome de Iñaki Urdangarín, 45 anos, casado com a infanta Cristina, que manchava a realeza espanhola. Histórias de infidelidades e favorecimentos sempre andaram ao lado do rei Juan Carlos, mas não bastavam para que os espanhóis questionassem o seu monarca. Foi quando Urdangarín, antigo jogador olímpico de andebol, se tornou suspeito de ter desviado milhões de euros de fundos públicos através do Instituto Nóos (sociedade de patrocínios à qual presidiu entre 2004 e 2006), que começaram as pressões. Diego Torres, ex-sócio, implicou Cristina de Borbón nos negócios do Nóos, ao entregar em tribunal correio eletrónico e documentos que, alegadamente, referem o rei. Urdangarín negou o envolvimento da Casa Real. Esta reagiu ‘com surpresa’ ao pronunciamento da infanta.
Tem sugestões ou notícias para partilhar com o CM?
Envie para geral@cmjornal.pt
o que achou desta notícia?
concordam consigo
A redação do CM irá fazer uma avaliação e remover o comentário caso não respeite as Regras desta Comunidade.
O seu comentário contem palavras ou expressões que não cumprem as regras definidas para este espaço. Por favor reescreva o seu comentário.
O CM relembra a proibição de comentários de cariz obsceno, ofensivo, difamatório gerador de responsabilidade civil ou de comentários com conteúdo comercial.
O Correio da Manhã incentiva todos os Leitores a interagirem através de comentários às notícias publicadas no seu site, de uma maneira respeitadora com o cumprimento dos princípios legais e constitucionais. Assim são totalmente ilegítimos comentários de cariz ofensivo e indevidos/inadequados. Promovemos o pluralismo, a ética, a independência, a liberdade, a democracia, a coragem, a inquietude e a proximidade.
Ao comentar, o Leitor está a declarar que é o único e exclusivo titular dos direitos associados a esse conteúdo, e como tal é o único e exclusivo responsável por esses mesmos conteúdos, e que autoriza expressamente o Correio da Manhã a difundir o referido conteúdo, para todos e em quaisquer suportes ou formatos actualmente existentes ou que venham a existir.
O propósito da Política de Comentários do Correio da Manhã é apoiar o leitor, oferecendo uma plataforma de debate, seguindo as seguintes regras:
Recomendações:
- Os comentários não são uma carta. Não devem ser utilizadas cortesias nem agradecimentos;
Sanções:
- Se algum leitor não respeitar as regras referidas anteriormente (pontos 1 a 11), está automaticamente sujeito às seguintes sanções:
- O Correio da Manhã tem o direito de bloquear ou remover a conta de qualquer utilizador, ou qualquer comentário, a seu exclusivo critério, sempre que este viole, de algum modo, as regras previstas na presente Política de Comentários do Correio da Manhã, a Lei, a Constituição da República Portuguesa, ou que destabilize a comunidade;
- A existência de uma assinatura não justifica nem serve de fundamento para a quebra de alguma regra prevista na presente Política de Comentários do Correio da Manhã, da Lei ou da Constituição da República Portuguesa, seguindo a sanção referida no ponto anterior;
- O Correio da Manhã reserva-se na disponibilidade de monitorizar ou pré-visualizar os comentários antes de serem publicados.
Se surgir alguma dúvida não hesite a contactar-nos internetgeral@medialivre.pt ou para 210 494 000
O Correio da Manhã oferece nos seus artigos um espaço de comentário, que considera essencial para reflexão, debate e livre veiculação de opiniões e ideias e apela aos Leitores que sigam as regras básicas de uma convivência sã e de respeito pelos outros, promovendo um ambiente de respeito e fair-play.
Só após a atenta leitura das regras abaixo e posterior aceitação expressa será possível efectuar comentários às notícias publicados no Correio da Manhã.
A possibilidade de efetuar comentários neste espaço está limitada a Leitores registados e Leitores assinantes do Correio da Manhã Premium (“Leitor”).
Ao comentar, o Leitor está a declarar que é o único e exclusivo titular dos direitos associados a esse conteúdo, e como tal é o único e exclusivo responsável por esses mesmos conteúdos, e que autoriza o Correio da Manhã a difundir o referido conteúdo, para todos e em quaisquer suportes disponíveis.
O Leitor permanecerá o proprietário dos conteúdos que submeta ao Correio da Manhã e ao enviar tais conteúdos concede ao Correio da Manhã uma licença, gratuita, irrevogável, transmissível, exclusiva e perpétua para a utilização dos referidos conteúdos, em qualquer suporte ou formato atualmente existente no mercado ou que venha a surgir.
O Leitor obriga-se a garantir que os conteúdos que submete nos espaços de comentários do Correio da Manhã não são obscenos, ofensivos ou geradores de responsabilidade civil ou criminal e não violam o direito de propriedade intelectual de terceiros. O Leitor compromete-se, nomeadamente, a não utilizar os espaços de comentários do Correio da Manhã para: (i) fins comerciais, nomeadamente, difundindo mensagens publicitárias nos comentários ou em outros espaços, fora daqueles especificamente destinados à publicidade contratada nos termos adequados; (ii) difundir conteúdos de ódio, racismo, xenofobia ou discriminação ou que, de um modo geral, incentivem a violência ou a prática de atos ilícitos; (iii) difundir conteúdos que, de forma direta ou indireta, explícita ou implícita, tenham como objetivo, finalidade, resultado, consequência ou intenção, humilhar, denegrir ou atingir o bom-nome e reputação de terceiros.
O Leitor reconhece expressamente que é exclusivamente responsável pelo pagamento de quaisquer coimas, custas, encargos, multas, penalizações, indemnizações ou outros montantes que advenham da publicação dos seus comentários nos espaços de comentários do Correio da Manhã.
O Leitor reconhece que o Correio da Manhã não está obrigado a monitorizar, editar ou pré-visualizar os conteúdos ou comentários que são partilhados pelos Leitores nos seus espaços de comentário. No entanto, a redação do Correio da Manhã, reserva-se o direito de fazer uma pré-avaliação e não publicar comentários que não respeitem as presentes Regras.
Todos os comentários ou conteúdos que venham a ser partilhados pelo Leitor nos espaços de comentários do Correio da Manhã constituem a opinião exclusiva e única do seu autor, que só a este vincula e não refletem a opinião ou posição do Correio da Manhã ou de terceiros. O facto de um conteúdo ter sido difundido por um Leitor nos espaços de comentários do Correio da Manhã não pressupõe, de forma direta ou indireta, explícita ou implícita, que o Correio da Manhã teve qualquer conhecimento prévio do mesmo e muito menos que concorde, valide ou suporte o seu conteúdo.
ComportamentoO Correio da Manhã pode, em caso de violação das presentes Regras, suspender por tempo determinado, indeterminado ou mesmo proibir permanentemente a possibilidade de comentar, independentemente de ser assinante do Correio da Manhã Premium ou da sua classificação.
O Correio da Manhã reserva-se ao direito de apagar de imediato e sem qualquer aviso ou notificação prévia os comentários dos Leitores que não cumpram estas regras.
O Correio da Manhã ocultará de forma automática todos os comentários uma semana após a publicação dos mesmos.
Para usar esta funcionalidade deverá efetuar login.
Caso não esteja registado no site do Correio da Manhã, efetue o seu registo gratuito.
Escrever um comentário no CM é um convite ao respeito mútuo e à civilidade. Nunca censuramos posições políticas, mas somos inflexiveis com quaisquer agressões. Conheça as
Inicie sessão ou registe-se para comentar.