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O MIÚDO DO TRICICLO

‘Os Pastilhas’ não o puderam manter, o Benfica dispensou-o por ser pequenino e o Sporting acabou por ganhar de mão beijada um fora de série - Luís Figo, o miúdo que anos antes andava de triciclo nas ruas da Cova da Piedade

06 de junho de 2004 às 00:00

Na década de 70, Luís Filipe Madeira Caeiro Figo passava os fins de semana agarrado ao pai, benfiquista dos sete costados, que não perdia pitada dos acontecimentos no Estádio da Luz. O hóquei em patins, o basquetebol e o futebol, entre outras modalidades, empurravam a família Figo para Lisboa, onde assistia ao desenrolar dos encontros da formação encarnada.

Luís era uma criança, mas não enjeitava a oportunidade de ver ao vivo e a cores os seus ídolos. Por essa altura, a paixão pela bola dividia-se com a de pedalar um triciclo com o qual palmilhava de cima a baixo uma rua da Cova da Piedade onde os pais tinham uma mercearia.

Ironia do destino, apesar da clubite e da dedicação, nunca vestiu a camisola da águia. No Verão de 1985, depois de ter abandonado ‘Os Pastilhas’ devido ao encerramento da secção de futebol, Luís Figo chegou a integrar os treinos de captação dos encarnados, mas foi traído pelo físico. Baixinho, não caiu no goto dos responsáveis benfiquistas, que acabaram por dispensá-lo. O futuro haveria de sorrir no eterno rival da Segunda Circular: o Sporting.

João Barnabé foi o primeiro treinador do petiz em Alvalade, o principal responsável pela sua formação futebolística. Ainda hoje o técnico lembra o treino inicial do menino franzino cheio de talento. “Quando vi um tipo pequenino no meio de centenas de miúdos muito maiores, onde o centímetro e a grama desequilibravam, fiquei perplexo. Havia qualquer coisa de estranho, de genial, naquela figurinha que sobressaia das demais.”

Para não errar na avaliação final do atleta, João demorou dois meses a avalizar o vínculo de Luís Figo (ver caixa). O miúdo andava nervoso, enquanto os pais encaravam a situação com tranquilidade. A relação de João Barnabé com os familiares seguiu sempre uma base de cordialidade, até porque, ao contrário do que muitas vezes acontece nos escalões de formação, nunca interferiram na progressão do filho. “O único objectivo do António e da Maria Joana era que o Luís cumprisse na escola, sabendo de antemão que não andava por maus caminhos. Foram de uma correcção extraordinária e sempre reconheceram o meu trabalho. Isso é reconfortante, não há nada que pague.”

CASEIRO E BOM RAPAZ

Quando em 2001 a FIFA considerou Figo como o melhor jogador do Mundo, João Barnabé foi entrevistado por mais de 30 televisões e repetiu-se 500 vezes. Todos queriam saber como se faz um galáctico.

Segundo o director da Foot Escola, academia de futebol onde jogam crianças desde os quatro anos, a fórmula é simples e visível no seu mais famoso pupilo: “Além do talento inato, o Luís soube desenvolver as suas capacidades, acatando o que lhe foi ensinado ao longo dos anos. E teve uma estabilidade emocional muito grande, algo fundamental, em especial quando os pais e os verdadeiros amigos ajudam.”

Figo retribuiu o apoio dos pais com disciplina, e nunca deu grande trabalho aos progenitores. Genoveva Madeira, 65 anos, fala com um carinho especial do sobrinho: “O Luís foi sempre uma criança muito humilde, obediente, pacata e calada.” Traquinices não faziam parte da rotina. A única paixão era a bola, e por causa dela aterrava muitas vezes em casa com as botas cheias de areia, de tanto jogar.

Não fosse o desporto, provavelmente teria sido uma verdadeira flor de estufa, pois o dia-a-dia era passado na rotina entre a casa e a escola. Nunca se mostrou um ‘puto’ de andar perdido, longe das vistas dos pais, e não estava habituado a frequentar a casa de amigos sem avisar que chegaria mais tarde. Preferia a pacatez do lar.

Caseiro e humilde, em criança fechava-se muitas vezes no quarto, e ali ficava, horas a fio, entretido com um mundo só seu. Genoveva lembra-se de entrar em casa da irmã, que visitava com regularidade, e questioná-lo: “Então Luís, não dizes nada?” O sobrinho encolhia os ombros, olhava para a tia com um sorriso nos lábios e soltava, sereno: “Então, não tenho nada para dizer. O que é que eu vou falar?” Ainda perguntava pelo tio e pela madrinha (filha de Genoveva), mas se a tia não puxasse conversa ele era capaz de não abrir a boca até ela se ir embora.

No momento da despedida mandava cumprimentos e pouco mais, porque manifestações de grande contentamento, como pulos ou outras exuberâncias, nunca lhe foram habituais. Mas era carinhoso, um sentimento que mostrava com maior evidência quando se agarrava à mãe para lhe dar beijinhos.

Mesmo em relação ao futebol, as conversas tinham curta duração. Por volta dos 12 anos, quando chegava a casa amuado por causa de uma derrota costumava ser reconfortado pelo pai: “Olha, antes isso que partires uma perna.” Luís vociferava qualquer coisa para com os seus botões, acabando por esquecer depressa o resultado menos feliz. “Não tinha mau perder, e era capaz de sofrer para dentro”, confidencia Genoveva Madeira.

Saudosa, a sexagenária só lamenta não estar com o sobrinho mais tempo, já que Figo costuma fazer viagens relâmpago a Portugal, sem sequer conseguir visitar os pais – fica num hotel em Lisboa, onde recebe os familiares. O corrupio das obrigações profissionais não dá para mais.

COMEÇAR A PERDER

Hoje sobra a Luís Figo pouco tempo para respirar, dado ter interesses que se estendem muito para lá dos relvados por onde continua a espalhar classe e talento. Está transformado numa máquina ao serviço da publicidade, tem uma fundação com o seu nome e uma família (mulher e dois filhos) que lhe ocupa o pouco tempo livre que lhe resta.

Há duas décadas, a história era bem diferente. A entrada no União Futebol Clube ‘Os Pastilhas’, da Cova da Piedade, ao qual chegara depois de revelar habilidade e perícia em jogos de rua e em pequenos torneios da região de Almada, revelou-se dramática.

Aos 12 anos, após ultrapassada a resistência por parte da mãe, que não queria vê-lo abandonar os estudos, foi inscrito como federado, jogou pouco mais de seis meses naquele clube e conheceu a vitória… por uma vez. O descontrolo da equipa era tão grande no plano desportivo quanto no económico, e no final da época 1984/85 a secção de futebol foi desactivada. Figo só chegou a jogar uns meses perto de casa, mas deixou boas recordações. Tal como acontece com João Barnabé, também salta à memória de José Silva a pouca estatura do miúdo. “Era o mais pequeno. Mas no domínio de bola, na finta, era como hoje. E desequilibrava, embora não desse para vencermos, porque tínhamos uma equipa toda nova.”

José foi o primeiro treinador do menino com personalidade adulta, já então habituado a escapar às brincadeiras dos mais irrequietos. “O Luís nunca precisou de ser controlado, ele mesmo colocava-se fora das caldeiradas. No fim dos jogos chegava à sede, comia uma sandes, um pacote de batatas fritas e bebia um sumo. Depois ficava numa mesa a brincar com um ou outro colega, mas nada de exageros.”

Em vésperas do Euro 2004, são muitas as saudades do jogador, que tem andado desaparecido. A última vez que esteve n‘Os Pastilhas’ aconteceu há cinco anos, quando lhe fizeram a terceira festa de homenagem. A partir de então nunca mais o viram, apesar das várias tentativas de contacto. “Atravessamos problemas económicos e até já lhe pedimos ajuda material (camisolas, ‘t-shirts’, etc.), mas dele nem uma palavra. O silêncio tem sido arrasador, é algo que me afecta muito, e até duvido que a informação lhe esteja a chegar.”

Apesar de trazer a tristeza estampada no rosto, José Silva acompanha a carreira de Figo pela televisão. Esta época não perdeu um único jogo do Real Madrid para ver o seu ex-atleta, que continua a catalogar como melhor do Mundo. “Qual Zidane qual quê. Para mim o maior continua a ser o Figo.”

Na outra margem do Tejo, João Barnabé treina futuros craques dos relvados e partilha a mesma opinião: “Ao Luís só falta o Prémio Nobel, que não há no desporto. Ele merecia-o, não só porque faz uma finta, ou marca golos, mas porque sempre soube estar, no desporto e na vida. Os milhões e a adoração dos fãs não lhe subiram à cabeça. E com a bola nos pés é um artista.”

Nome: Luís Filipe Madeira Caeiro Figo

Data de nascimento: 4/11/1972

Posição: médio

Clube actual: Real Madrid

Altura: 1,80 m

Peso: 75 quilos

“ENTÃO, ‘MISTER’, FICO OU NÃO FICO?”

Passados dois meses de treinos exaustivos no Sporting, Luís Figo estava cansado de andar de cacilheiro de um lado para o outro sem saber se ficava no clube. Brazão, seu amigo e jogador dos ‘leões’, até já tinha questionado o treinador: “‘Mister’ o que é que acha ali do Figo?” João Barnabé percebia onde ele queria chegar com a pergunta, mas decidia utilizar o humor para fazê-los sofrer mais um bocado: “Qual Figo, pá? Figo é fruto.”

Hoje a situação até tem piada, mas na altura os miúdos não achavam graça ao que estava a acontecer. Farto de esperar pela resposta, o ‘puto’ franzino da Cova da Piedade decidiu pôr-se em bicos de pés e interpelar o treinador: “Então, fico ou não fico?” Barnabé fez-se difícil, armou cara feia e acabou por responder a muito custo: “Vá, vá lá dizer ao senhor Ferrão que pode por seu nome no papel que se entrega na associação.” Figo ficou feliz, mas não exuberante, até porque já estava a entrar em brasa com tanto ‘suspense’.

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