No periclitante xadrez da Banca, António Horta Osório salvou as poupanças de muitos ingleses. Aos 44 anos, o presidente executivo do banco Abbey National, filial do Santander, é um persistente compulsivo. Até no ténis. Quando partiu o pulso direito, baixou o braço. Mas ergueu o outro e aprendeu a jogar com a mão esquerda.
Um manjar regado com chianti ou a vizinhança de Naomi Campbell na mesa do lado são duas hipóteses seguras no badalado Cipriani. Em Londres, onde vive desde há dois anos, o restaurante do amigo Flavio Briatore é um dos preferidos do banqueiro António Horta Osório. Em Portugal, é na ‘cantina’ mais famosa do Algarve, que em tudo ombreia com os padrões gastronómicos e desfile de celebridades, que se delicia com a ilustre frugalidade de 'umas amêijoas'. Em Julho, não fugiu à regra e gozou férias da terra de Sua Majestade na não menos soberana Quinta do Lago.
'Gosta de tudo o que sejam frutos do mar. Há pessoas que em 15 ou 20 dias de férias se cansam do peixe e pedem um bife mas a ele nunca o vi comer carne', conta Bernardo Reino, ou o anfitrião ‘Gigi’, o rosto e a alma de uma casa preferida pela alta-finança, presidentes e administradores executivos de multinacionais, membros da realeza, com quem partilha assento na mesa e muitos dedos de cavaqueira estival. 'Somos grandes amigos. Conhecemo-nos desde 86/87. Vem cá, e depois viaja para fazer mergulho. Em férias, é muito dedicado à família.' De resto, a caça submarina é uma das paixões antigas. Com 15 anos, as férias saboreadas em Armação de Pêra prenunciavam o futuro. A bordo do barco de borracha oferecido pelo pai, António mergulhava durante o dia em busca de peixe e marisco. O nome de baptismo da embarcação pode ter sido escolhido por acaso. Mas a decisão navegou por águas acertadas: ‘Intrépido’.
Numa semana em que a Banca europeia se mostrou mais titubeante do que qualquer pedra num tabuleiro de xadrez, outro dos vícios salutares de Horta Osório, coleccionador destes quebra--cabeças, os governos de cinco dos mais ricos países da Europa foram obrigados a intervir para evitar o xeque-mate. O presidente executivo do banco Abbey National, filial do Banco Santander, salvou as poupanças de milhões de ingleses, clientes do Bradford & Bingley, nacionalizado pelo Tesouro Britânico – mais de 25 mil milhões de euros. Ficou na berlinda. Nada de novo.
Em 2000, com 36 anos, tornou-se no mais jovem presidente de uma instituição bancária portuguesa quando assumiu a liderança do Banco Totta & Açores, para onde entrara em 1997. Nomeado presidente executivo do Abbey National em 2006, está à frente de um dos maiores bancos do Reino Unido, cargo que acumula com o de director- -geral do Santander Espanha e com o de presidente do conselho de administração do Banco Santander Totta, S.A. e presidente do conselho de administração do Banco Santander de Negócios Portugal. O acumular de cargos não bole com a 'enorme tranquilidade'.
'É completamente natural, sem exibições. Ninguém diria que é, de facto, o maior banqueiro português. Pelo menos para mim!'
Não será apenas a opinião de ‘Gigi’. Aos 44 anos, Horta Osório é por muitos apelidado de ‘a face moderna’ – e charmosa – da banca portuguesa, apesar de quem com ele se cruzava nos corredores do Santander duvidar de que seja cioso em excesso com a imagem. 'Parece vaidoso mas não deve ligar muito à roupa', deixam escapar. Modas de executivo à parte, o banqueiro é um dos favoritos de Emilio Botín, presidente do grupo. Não é para menos. No que toca à presença em Londres, em apenas quatro anos, com a aquisição do Abbey, o banco espanhol passou de perfeito desconhecido a residente de peso em plena ‘high street’.
'Com a sua idade é normal estar onde está. Conheço o António social há pelo menos uns 15 anos. É um dos grandes gestores consolidados em Portugal. Tem muitos anos de experiência em primeiríssimo nível', considera Rafael Mora, director da consultora de gestão Heidrick & Struggles, que augura um futuro (ainda mais) risonho para o banqueiro. 'Não tenho dúvidas de que terá um papel importante dentro do Banco Santander. É esperado que Emilio Botín deixe o seu lugar à filha mas ele poderá chegar ao número dois, uma posição elevadíssima.'
Rafael Mora distingue ainda a 'simpatia' do banqueiro, bem como o seu 'brilhante percurso académico'. A receita do sucesso passa ainda pela 'cultura' e pelas qualidades como 'líder de equipa'. O resultado é uma equação nem sempre amistosa: 'Sacrificou muito da sua vida para chegar aonde chegou. Muito trabalho significa pouco tempo para si e para a sua família.' A forma metódica como organiza o tempo livre é preciosa.
Casado desde os 23 anos com a empresária Ana, têm três filhos, duas raparigas e um rapaz. Há dois anos, trocou a residência em Santa Catarina e os encantos da proximidade com o Tejo pela cosmopolita Londres. As deslocações a Portugal são regulares. O casal não dispensa as sessões de jogging nos inúmeros parques da capital londrina. O espírito recebe outros mimos. Horta Osório colecciona antiguidades e gosta de livros da especialidade, além de revistas técnicas. É fã de relíquias da expansão portuguesa na Ásia e move-se com destreza nos salões dos célebres leiloeiros Sotheby’s e Christie’s.
António Mota de Sousa Horta Osório nasceu em Lisboa a 28 de Janeiro de 1964. Aluno do Colégio São João de Brito, quebrou a tradição familiar da advocacia. 'Sempre foi muito inteligente e organizado desde miúdo. O avô paterno era jurista e fez a dissertação de doutoramento em Matemática Pura. Imagine o que é!', justifica o primo, o advogado José Diogo Horta Osório.
António licenciou-se em Gestão e Administração de Empresas na Universidade Católica. Foi o melhor aluno nesse ano de 1987. Em Maio de 2008, foi distinguido pela faculdade com o Prémio Carreira. Para António, que preside ao conselho fiscal da Alumni Católica – Associação de Antigos Alunos, o percurso foi uma bola de neve.
Em 2006, no mesmo ano em que integrou a comissão de honra da candidatura de Cavaco Silva às eleições presidenciais, o Santander foi intermediário da operação de financiamento da oferta pública de aquisição da Sonae sobre a Portugal Telecom. Noutras linhas, em Fevereiro desse ano, apoiou a lista à presidência dos verdes e brancos de Soares Franco. 'Vibra bastante pelo Sporting. Em Inglaterra, segue o Chelsea. Talvez por morar nesse bairro. E como estava lá o Mourinho...', revela fonte do Santander.
Assíduo espectador dos grandes torneios de ténis, fã do campeão Rafael Nadal, pratica a modalidade duas vezes por semana. 'É muito perseverante. Quando, há um ano, partiu o pulso direito, aprendeu a jogar com a mão esquerda, para não parar', lembra João Lagos, fiel companheiro na modalidade.
Nos courts há sempre lugar para mais um oponente. Filipe Soares Franco rendeu-se à superioridade do banqueiro. 'Jogámos num torneio. Ele ganhou. Era muito melhor. Tem um espírito muito competitivo!' Se a crise financeira não chegasse para o confirmar, eis a prova. Horta Osório não deixa os créditos por mãos alheias.
À PESCA DE DESAFIOS NO MUNDO DA BANCA
Aos 15 anos, em Armação de Pêra, a tenacidade estava ao serviço do mergulho e da caça submarina. O esforço de Horta Osório veio a ‘nadar’ também pela área da Banca. Estreou-se no Citybank enquanto cumpria funções de assistente na Universidade Católica. Quatro anos volvidos, um caçador de cabeças talentosas ‘resgatou-o’ da Goldman Sachs, em Londres. Então com 28 anos e um MBA na melhor escola europeia de Gestão, o INSEAD, aceitou a missão de criar um banco de investimento em Portugal. Doze anos depois era presidente da comissão executiva do Grupo Totta, adquirido pelos espanhóis a António Champalimaud. Três anos mais tarde mudou-se para São Paulo, para gerir o banco em terras de Vera Cruz. O Santander é hoje o terceiro banco privado do Brasil e o maior grupo financeiro latino.
ANA HORTA OSÓRIO
Zelosa da vida familiar, a empresária Ana Horta Osório prefere mantê-la 'confidencial'. Na esfera pública, tem um spa no centro de Lisboa e dedica o seu tempo a 'projectos em que tento participar e motivar outras pessoas para que também participem'. A 2 de Novembro, vai voltar a correr a Maratona de Nova Iorque, para recolher fundos a favor de crianças com leucemia. Na foto, com o marido, na última edição do Estoril Open.
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