Cada português nasceu sempre numa manjedoura de palhas secas.” Há-de ser a atávica secura que fez Miguel Torga aborrecer-se da paisagem verdejante, a ressumar água, do Minho – “o pesadelo verde”, escreve em ‘Portugal’, obra de 1950 agora reeditada pela Dom Quixote. É lá, no Minho, hoje bem menos verde do que então, que começa a viagem.
Estações de lirismo e esperança, apeadeiros de desengano e repulsa. De tudo isto se faz ‘Portugal’. Também, e ainda a propósito do Minho, de humor inesperado. É que há folhedo por todo o lado, “... antolhos de parra a impedirem o aceno a qualquer horizonte”. O leitor vislumbra o homem alto e seco de carnes a quem “apetecia mais do que ruminar” lutando contra a gloriosa clorofila. Quando Miguel Torga – o apelido significa urze, que brota em terreno seco – toma o caminho de Guimarães, chega a considerar “uma tolice rematada ir visitar a célula da nacionalidade com tanta folha nos sentidos.”
Braga surge como uma “pequena e banal cidade de santeiros e seminaristas”. Mesmo assim, o autor acredita que “pode haver lugar para um poeta”. Engano e desilusão, que justificam um implacável remate: “Muita ciência de Deus no ritual, nas estantes e na ordem pública, mas onde não se descortinava a mais pequena faísca de imaginação.”
Opoeta anima-se, ganha alma, quando pressente as serras da Peneda e do Soajo. Por ali a relva dá “finalmente lugar à terra nua que, parda como o burel, tinha ossos e chagas”. Lá a paisagem identifica-se com o “panorama humano” – cobre “pudicamente a dor do frio e da fome”.
Em Trás-os-Montes, “um mar de pedras”, a alma do poeta sente-se em casa. No meio de “vagas e vagas sideradas, hirtas e hostis, contidas na sua força desmedida pela mão inexorável de um Deus criador e dominador”. Diante daquele oceano petrificado apenas se move e ouve o coração no peito.
Mais uma vez celebra-se a identidade entre a paisagem física e humana. Porque em Trás-os-Montes os homens são de “uma peça só, inteiriços, altos e espadaúdos e têm no rosto as mesmas rugas do chão”. Tal como as fragas, “dentro ou fora do seu dólmen (maneira que eu tenho de chamar aos buracos onde vive a maioria) estes homens não têm medo senão da pequenez”.
Não temem sequer a morte. Lavam com sangue a honra. Em domingo de romaria, carregam o andor da santa padroeira até ao cimo da serra, à ermida, mas não esquecem o inimigo – quando descem, vêm esfaqueados. Há os que, aos 20 anos, partem em busca de vida melhor e voltam mais tarde, “aos sessenta, de corrente ao peito, cachucho no dedo e a mesma quimera numa mala de couro”. Os que ficam “cavam a vida inteira. E quando se cansam deitam-se no caixão com a serenidade de quem chega honradamente ao fim de um dia de trabalho”. Esperam que “a lei da terra os transforme em ciprestes e granito”. É a consumação da identidade substancial entre os homens e a natureza. Eles rudes. Ela agreste.
Nem o Douro escapa à luta. “Nenhum outro caudal corre em leito mais duro, encontra obstáculos mais encarniçados, peleja mais arduamente em todo o caminho.” Desengane-se quem pensa que a dureza, nos homens ou na paisagem, eclipsa a doçura. ODouro forçado a encrespar-se é também o “rio de oiro, crucificado entre o calor do céu que de cima o bebe e a sede do leito que de baixo o seca”, em cujas margens se erguem os “muros do milagre”.
Nos íngremes socalcos “crescem as cepas como os manjericos às janelas”. Em Setembro, “os homens deixam as eiras da Terra Fria e descem, em rogas, a escadaria do lagar de xisto. Cantam, dançam e trabalham. Depois sobem. E daí a pouco há sol engarrafado a embebedar os quatro cantos do Mundo”.
CIDADE DO PORTO
O Porto não é Roma, que ao contrário se lê “amor”, mas Miguel Torga declara-se-lhe com todas as letras da palavra ‘amo-o’. Da cidade diz que é “para dentro” como Lisboa é para fora. “O próprio mar, que sempre se lhe negou, mantendo-se renitentemente indócil a todas as solicitações, afastando a cidade da grande epopeia de Lisboa, a tornou mais nossa, mais nacional, agrária e comercial no terroso e íntimo destino que nos esperava.” E ao ‘tripeiro’ beliscado na auto-estima bairrista aconselha-se vivamente a leitura das páginas dedicadas à Invicta dos anos 50. Fique por agora a saber-se que o cidadão do Porto é “o homem português mais livre, mais progressivo e mais responsável que a pátria nos deu.”
Já ao homem da Beira – à beira da Serra da Estrela, pois claro – “não é o brilho que o impõe, nem a honradez, nem a inteligência nem outras qualidades que o português não tenha. É uma obstinação de caruncho, muda, modesta, inflexível, incapaz da piedade de ceder ao seu próprio cansaço”.
COIMBRA
Não é que Torga desgoste de Coimbra. O que ele renega é a “tradição parola” que lhe colou “um rabo-leva atroz e fútil”. O que ele rejeita é o “sentimentalismo de meia-tijela” que educou os olhos do viajante para que nela veja “uma odalisca reclinada molemente na sua verdejante colina”, palavras de Eça na boca do conselheiro Acácio.
Coimbra é apenas “uma linda cidade, cheia de sentido nacional”, não uma oleogravura de bordel. Opoeta não se vai dali sem um reparo crítico à Universidade, defendida “com unhas e dentes de toda a originalidade, de todo o pensamento subversivo”.
Esta é uma viagem do Norte para o Sul e, neste momento, segue rente ao mar. “O litoral português devia formar uma província à parte, esguia, fresca e alegre, só de areia e espuma.” É uma visão luminosa, poeticamente ideal. Insustentável. O que está diante dos olhos de Miguel Torga “é sempre a mesma praia imensa, estéril e fustigada, onde as mulheres, Cassandras eternamente de luto, rezam e profetizam”.
Depois da Estremadura, “coutada do nosso lirismo”, das Berlengas – “de todas as nossas terras ultramarinas ... o aceno mais familiar e significativo” – e do Ribatejo com os seus campinos, eis que surge Lisboa. Bonita. Merecedora da “visita calma e demorada dum grande curso de água” – a “toalha límpida” do Tejo. É, contudo, “sempre com um sentimento de frustração que o país regressa de cada visita que faz a Lisboa. Em 1950 como agora, a nação não morre de amores pela capital – “O país não é o Terreiro do Paço!” – e o desamor paga-o ela na mesma moeda.
AS PROVÍNCIAS
“Em Portugal há duas coisas grandes, pela força e pelo tamanho: Trás-os-Montes e o Alentejo.”São províncias irmãs – a primeira ímpeto, a outra extensão. “O Alentejo é na verdade o máximo e o mínimo a que podemos aspirar: o descampado de um sonho infinito e a realidade de um solo exausto.” De novo sai da pena do poeta a palavra amor – à terra alentejana e ao homem, que a terra não degradou, “proibindo--o de falar com alguém de chapéu na mão”. Se Trás-os-Montes é o “reino maravilhoso”, o Alentejo é “o sésamo que se abre” diante de alguém que “leve consigo a capacidade emotiva e compreensiva de um verdadeiro curioso”.
Entre os dedos restam poucas páginas não lidas, sinal de que viagem está aproximar-se do fim, já perto do Algarve que, em 1950, é “a miragem dum céu deste Mundo, sem nenhum dos atavios que alvitam a condição dum céu.” É o “paraíso terrestre.” E, finalmente, surge Sagres, rocha branca de onde um dia, “num mergulho de alcatrazes”, nos atirámos “ao abismo azul”. É dentro do mar que acaba a viagem.
COIMBRA: DEMASIADO PRÓXIMA PARA O LOUVOR
Miguel Torga sempre combateu as praxes e tradições académicas. À capa e batina chamou ‘farda’. Ainda assim, estranha-se que, em ‘Portugal’, não dedique uma linha à Sé Velha ou às ruas da Baixa coimbrã. Tendo estudado e exercido medicina na cidade, é provável que sofresse o efeito de desvalorização do que está próximo.
O HOMEM PARA ALÉM DOS LIVROS QUE ESCREVEU
Nasceu a 12 de Agosto de 1907, faz hoje precisamente cem anos, em S. Martinho da Anta, distrito de Vila Real, em pleno “reino maravilhoso”, como havia de chamar a Trás-os-Montes. Nasceu Adolfo Rocha. Fez-se Miguel Torga. Filho de uma família pobre, não teve infância fácil. Trabalhou no campo e talvez por isso, enquanto escritor, nunca tenha sentido a tentação do bucolismo. Passou pelo seminário de Lamego. Aos 13 anos emigrou para o Brasil. De regresso terminou o liceu e ingressou na Universidade de Coimbra. Licenciou-se em Medicina, com especialização em Otorrinolaringologia. Não é fácil de definir politicamente Miguel Torga. Foi seguramente oposicionista ao Estado Novo. Encerrado no Aljube. Viu algumas obras apreendidas. Depois do 25 de Abril, o PS tentou uma aproximação. Sem sucesso. Torga também nunca foi europeísta. Dizia-lhe mais a Ibéria.
LITORAL
Sobre o Litoral escreve Miguel Torga que “é sempre a mesma praia, imensa, estéril e fustigada, onde as mulheres, Cassandras eternamente de luto, rezam e profetizam”. O poder das mulheres descobre-o contudo no Minho, onde “sobre cada coração verdadeiro cintila um de filigrana”.
OBRA POÉTICA
Todos os poemas de Torga, sem esquecer os publicados nos ‘Diários’. Edição especial da obra poética completa de Miguel Torga, que inclui também os poemas publicados nos ‘Diários’. Obra em dois volumes com caixa para a edição comemorativa do primeiro centenário do nascimento do escritor.
DIÁRIOS
Um livro reúne os primeiros oito volumes e o outro os oito seguintes. Miguel Torga deixou dezasseis volumes dos seus ‘Diários’, que foram editados entre 1941 e 1993 e traduzidos entretanto em várias línguas. Esta edição é da Dom Quixote.
'BICHOS'
Um livro de contos, onde a luta dos animais é igual à dos homens. O gato da dona Sância, gordo e acomodado, esquecido da sua natureza felina; o touro Miura, que luta sem sucesso por vislumbrar quem o ataca atrás de um pano vermelho, o galo Tenório e tantos mais são os ‘Bichos’.
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