O movimento Barefoot tem centenas de entusiastas portugueses
Que têm em comum uma varina saloia multada por um polícia em Lisboa, a intérprete inglesa Sandie Shaw a ganhar o Festival da Canção com 'Puppett on a String' e o maratonista etíope Abebe Bikila a bater o recorde mundial nos Jogos Olímpicos de Roma? Na década de 1960, por pobreza, excentricidade ou costume, todos ficaram célebres por causa dos pés descalços. E, agora, inserido numa tendência global do retorno às origens, o que está na moda é o movimento Barefoot Runing – a corrida descalça.
Mas esta forma de correr é radicalmente diferente da tradicional – e não apenas porque aquilo que se perde em velocidade se ganha na variedade de sensações. Altera-se, mesmo, a postura física: eliminado o golpe duro do calcanhar, característico das provas, o contacto com o chão faz-se com a parte da frente (a bola do pé); os joelhos ficam mais dobrados, instintivamente, para amortecerem cada pisadela; a posição do corpo, para se observar melhor o terreno, é ligeiramente inclinada para a frente. Assim, os passos são mais curtos, rápidos e suaves.
A ‘Bíblia’ de McDougall
O lisboeta Luís Virote, de 42 anos, licenciado em Arquitetura e a trabalhar na Autoridade Nacional de Emergência e Proteção Civil, dá nas vistas entre os amadores que treinam no complexo do Jamor, pois é o único descalço nas pistas. Ainda militar, quando se preparava para os ‘trails’ e as ultramaratonas, descobriu ‘Born to Run’ (‘Nascido para Correr’), do jornalista americano Christopher McDougall – um bestseller, quatro meses no top do ‘The New York Times’, em 2009, e mais de três milhões de exemplares vendidos. A obra compara "a melhor raça que o Mundo viu" – a quase desconhecida tribo mexicana Tarahumara, composta por ‘superatletas’ que, numas sandálias de sola fina (‘huaraches’), correm distâncias superiores a 150 quilómetros e a grande velocidade – com os praticantes americanos, que, desde 1972, passaram a usar as sapatilhas modernas.
Depois de ler aquela ‘Bíblia’ para o Barefoot (e de passar a seguir o blogue ‘Riding the Wind’, de Anton Kupricka), Luís Virote foi testar este estilo alternativo de corrida e sentir a vasta gama de impressões na sola do pé: o áspero e o suave, o fresco e o quente, o terreno firme e o piso oscilante. Embora não se envolva nas teorias que exploram uma filosofia sensorial – há quem descreva os "fluxos de energia natural internos" – , reconhece que, "além deste contacto com a natureza nos relaxar e de termos maior consciência do nosso corpo, ao dispensar o uso dos ténis há uma relação entre a mente e o tato, que é diferente se se corre sobre areia ou terra, lama ou pedras, se o piso é pontiagudo ou está molhado". Nas corridas em que participou, nunca viu ninguém descalço; apenas encontrou alguns concorrentes com Vibram FiveFingers – um tipo de calçado de matéria fina e flexível, tão anatómico que é publicitado como uma ‘luva’ para os pés.
Tarzan na maratona
Muito antes de McDougall escrever a sua obra fundamental, já João Soares se tinha iniciado nesta prática, numa época em que estava entusiasmado com os conceitos sobre uma existência simples no meio da natureza, após ter lido o clássico ‘A Vida nos Bosques’, de Henry David Thoureau (1817-1862, cujo título mais conhecido é ‘Desobediência Civil’). Em 1986, este professor de Biologia, que mora na Maia e tem agora 53 anos, numas férias na Figueira da Foz, conheceu dois austríacos ativistas das corridas descalças e estreou-se numas salinas. Depois, enquanto estudante universitário, fez vários percursos, nomeadamente na serra de Arga, onde começou por sentir que o solo era granito duro, mas, com a continuidade da marcha e a concentração, a certa altura, já lhe parecia um revestimento mais brando.
Apesar de ser um dos 335 membros da página do Facebook ‘Barefoot Portugal / Correr Descalço Portugal’, criada em 2013, quando começou a trabalhar e a constituir família, abandonou essas experiências. Mas ainda recorda, como "inspiradora, a maravilha das sensações que [teve] ao correr descalço – das texturas às temperaturas".
Em Portugal há, pois, algumas centenas de praticantes, uma vez que existem vários grupos nas redes sociais, nos media digitais ou mesmo associados em organizações que promovem este estilo de vida. E há hotéis, da serra da Estrela à ilha da Madeira, que têm os seus próprios circuitos, onde se pisam areias ou calhaus, ervas ou ramos, folhas de louro ou cascas de pinheiro, pequenas pinhas ou bagas de eucalipto.
Nas grandes maratonas, de Paris a Nova Iorque, onde há apenas um pequeno grupo de atletas profissionais entre a multidão de participantes, também surgem, evidentemente, adeptos do Barefoot. Na edição de 2014 da Meia Maratona de Lisboa, o "francês dos pés descalços" (como é conhecido em Vila Nova de Milfontes, onde fixou residência), Sylvain Griot, provocou uma onda de hilaridade quando surgiu com o traje de Tarzan e correu, obviamente, com os pés nus – repetindo a proeza, três anos depois, disfarçado de Tom Sawyer.
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