Não há idade para fazer perguntas sobre sexo. A maternidade Alfredo da Costa, em Lisboa, esclarece alunos do 9º ao 12º anos.
Aos 15 anos o amor é uma urgência. "Já tive uma primeira tentativa, que não correu bem, com a minha namorada de há 5 meses. Não consegui meter o preservativo. Tinha informação só que... olhe, foi falha técnica. E depois, estava gente em casa dela e não deu mais". Falar de sexualidade é uma forma de desabafo, informação, descoberta. A Maternidade Alfredo da Costa (MAC), em Lisboa, convida turmas do 9º ao 12º anos de escolaridade para esclarecerem dúvidas. Para ouvir confissões como esta. Ou para fazerem perguntas. "Pode--se usar dois preservativos sobrepostos?" – interpela um dos adolescentes, antes de perceber que não. "O que é o clímax?" e "O que é a ejaculação precoce?" – questionam colegas.
Numa sala da MAC contrastam dos cinco rapazes, mais espevitados, duas ou três raparigas (entre 14), com o queixo repousado na mão, mais impávidas. Como se falar de sexo ainda lhes estivesse longe do pensamento. "O que é a sexualidade?", incitam os psicólogos Sara Sereno, Susana Faustino e Gonçalo Branco. Cada adolescente responde uma palavra: Clímax, masturbação, ponto G, gravidez, tesão, aborto, amor, Viagra, rejeição, prazer, sexo, pénis, vagina. E muitas outras. Mas não serão palavras soltas, ainda vão explicar o que representa cada uma e agrupá-las numa vertente física da sexualidade, ou nos aspectos negativos ou nos afectos. E nisto, pelo meio, surgem sempre perguntas: "Por que é que se diz que estamos com as hormonas aos saltos?" – pergunta um dos alunos. "Na puberdade há uma alteração brutal hormonal. Ficam mais despertos para a sexualidade" – é a resposta.
Carlos Miezi Nsingi é um dos alunos de 15 anos da Escola Secundária D. Luísa de Gusmão, Lisboa. Os seus melhores amigos (de 17 e 18 anos) já se iniciaram sexualmente. Mas ele continua com dúvidas. "Se formos ambos virgens, é especial. Agora, se um de nós não for, é diferente. Porque para quem é virgem este momento fica marcado". É por isso que ele tem ainda mais dúvidas. "Se for uma má experiência com uma rapariga que não seja virgem ficas a pensar: ‘Falhei e agora ela vai contar às amigas.’ Já se ambos formos virgens, isso não vai ser notório". Carlos não desabafa com os pais porque acredita que por serem religiosos – cristãos protestantes – não vão gostar da ideia de que o filho pense em sexo.
NEM TUDO É SEXO
Entretanto, na sessão na MAC, os alunos já perceberam que sexualidade não é só sexo. Abrange um lado físico e outro sentimental, sob o ponto de vista social. Acontece que é preciso ainda conhecer as doenças sexualmente transmissíveis e contraceptivos. "Eu acho que hoje em dia só engravida quem quer" – diz uma aluna. E logo se levanta um burburinho na sala. Mas ao falarem da contracepção prova-se que esta afirmação não é verdade. A maioria desconhece as consequências, por exemplo, do esquecimento de tomar a pílula uma vez que seja. É preciso reforçar a ideia da dupla contracepção (pílula e preservativo).
Carlos voluntaria-se para colocar um preservativo num pénis de borracha. Tatiana Martins, 17 anos, vai ajudá-lo. O rapaz tem a lição tão bem estudada que parece ter decorado as instruções. O que não o impediu de falhar: Esqueceu-se se tirar o ar do reservatório. "Isso poderia levar o preservativo a romper" – explica uma das psicólogas, e acrescenta: "Então!? Continuam a achar que só engravida quem quer?"
Tatiana não hesita neste aspecto. Já está informada. Tem é medo da rejeição, diz. "Os rapazes conseguem ser cruéis, trair as raparigas, ou fazer tudo para que elas gostem deles só para se aproveitarem". Daí que só queira iniciar-se sexualmente quando tiver um relacionamento estável. Aos 15, 16 anos muitas colegas perdem a virgindade, mas a maioria não o faz sem conversar com as amigas sobre "as dores da primeira vez" e o que fazer para não engravidar. À mãe, Tatiana já perguntou como é uma relação sexual – e nenhuma se sentiu embaraçada.
Quanto mais novos os adolescentes, mais convictos estão de que sabem muito. Mas não. Eles fazem muitas perguntas sobre a primeira vez, explica a psicóloga Sara Sereno, da equipa da Unidade de Adolescência da MAC. Os alunos do 11º e 12º anos já abordam estas questões "como se falassem por experiência". Só depois de acabarem as sessões na MAC é que alguns dos alunos procuram os psicólogos para falarem dos seus casos pessoais – uma possível gravidez, dúvidas sobre aborto, contracepção.
A QUESTÃO HOMOSSEXUAL
Aos 17 anos, o amor é a razão da existência humana. "Há muita gente que quer curtir, só estão ali o tempo que o filme de cinema durar" – afirma uma aluna do 12º ano da Escola Secundária Passos Manuel, em Lisboa.
Com esta idade ainda há muito para descobrir. O mais curioso é que as primeiras perguntas feitas são sobre a orientação sexual. "Será que um rapaz, por brincar com bonecas, vai desenvolver uma variante homossexual?", e "quando eu digo que uma rapariga é bonita, é porque sinto atracção?", pergunta uma das adolescentes num grupo de 13 raparigas com um único rapaz, Frederico Peres. Diz ele que as perguntas já as fez em casa. "O meu pai explicou-me o que é a masturbação. Aqueles assuntos mais de rapaz".
Esta turma aprende na MAC a dar formação aos colegas do 8º ano, que ainda fazem perguntas cândidas: "O que é o sexo oral?"
Com a idade aprende-se a encarar o sexo com normalidade. "A partir do momento em que estamos a descobrir a sexualidade, é bom falarmos com namorados", conta Jennifer Yamazoe, 17 anos. "As primeiras dúvidas das raparigas são sobre as relações sexuais, não sobre namoros. É sobre isso que falamos entre nós". Por outro lado, Maria Salomé Apolónia, 18, afirma que os pais são também importantes na educação sexual. "É engraçado que com este projecto da MAC aprendi a ter atenção à procura de informação".
Nesta sessão da MAC os alunos debateram as razões que levam as pessoas a formarem casais. "Porque a vida parece mais alegre e sem problemas", é a primeira resposta. "Não é que estar sozinho não seja bom, mas estar com alguém é sempre melhor".
É verdade. Mas nenhuma responde à dimensão da pergunta. "A necessidade de partilhar quem somos com alguém faz com que as pessoas se juntem", sintetiza a psicóloga Susana Faustino. "O vazio afectivo pode levar a pouca saúde mental".
Mas o que pensam estes adolescentes sobre as diversas expressões da intimidade nas três fases da vida? Dizem eles que a adolescência é a fase das descobertas, da necessidade de conhecer o sexo oposto, do primeiro amor, imaturidade, paixão intensa e desilusão intensa; na idade adulta vem a maturidade, confiança, estabilidade, casamento, construção da família, relações sexuais, tolerância; e na terceira idade vem alguma ausência da componente sexual, carinho, respeito, não há uma necessidade física de beijos, rotina, comodismo. Será assim? Ou será que vão descobrir a sexualidade todos os dias, para o resto das suas vidas?
"AULAS DE EDUCAÇÃO SEXUAL NÃO TERIAM DE EXISTIR NO CURRÍCULO"
Ana Cristina Monteiro, professora na Escola D. Luísa de Gusmão (directora de turma das alunas Amanda Costa e Marlene Germano), não assistiu à sessão na MAC. A docente, tal como os psicólogos, acredita que os alunos falam mais à-vontade sem a presença de uma pessoa conhecida. Diz ainda "que não teriam necessariamente de existir" aulas de Educação Sexual. "No currículo escolar existem várias formas de abordar a sexualidade".
MÉTODOS CONTRACEPTIVOS SÃO A MAIOR DÚVIDA
Os métodos contraceptivos e as doenças sexualmente transmissíveis são as principais dúvidas dos adolescentes. A maioria só conhece a pílula e o preservativo masculino. Ficaram a saber ainda que é através do preservativo que evitam a transmissão de doenças e não só as gravidezes indesejáveis.
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