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Do bairro social de Chelas até ao principado do Mónaco foi um salto. Hoje, no FC Porto e na selecção, é o homem dos golos decisivos. A história de um menino que teve de mentir ao pai para poder jogar futebol.
Era um sábado como outro qualquer. Francisco Costa regressava a casa depois de passar nove horas no trânsito de Lisboa. Um inferno. A vida de taxista tem estas contrariedades. Quando ligou o televisor nem queria acreditar. O FC Porto tinha perdido por duas bolas a zero contra o modesto Gil Vicente. “Tenho um amuleto. Quando não vejo os jogos do meu filho sentado no sofá da sala a equipa dele perde. Ah! Se tivesse ficado em casa…”, suspira o angolano de 56 anos, que nem é muito dado a superstições.
Em frente da praça de táxis de Entrecampos, as artérias estão entupidas como é habitual à hora de almoço. Buzinadelas, travagens bruscas e impropérios são a música de fundo diária para ‘Costinha’, nome pelo qual é conhecido entre os colegas de profissão. O taxista abana a cabeça conformado. “Está a ver? Os carros nesta cidade não andam”, desabafa enquanto nos mostra o seu bloco de notas. “Esta manhã tive apenas quatro serviços e em nenhum deles ganhei mais de cinco euros. Com o dinheiro que gasto no gasóleo quase nem compensa.” É o período de maior crise de 21 anos de profissão.
Como a lamúria não é o seu forte, a conversa desvia-se para os bons tempos passados ao volante do seu táxi. Francisco Costa considera-se um bom ouvinte e por vezes até faz de psicólogo de serviço com os passageiros menos apressados. “Já obriguei um casal a fazer as pazes, depois de uma discussão acalorada no meu carro. E dei conselhos a uma estudante universitária que se fartou de chorar depois de uma descompostura do namorado.”
Também levou ‘banhadas’, gíria usada entre taxistas para serviços em que por artes mágicas o cliente desaparece sem pagar. Mas até essa história é contada entre duas gargalhadas. “Um homem saíra para trocar uma nota de cinco contos depois de uma viagem até Campo de Ourique. Após uma longa espera uma senhora bateu-me no vidro e avisou-me que aquele indivíduo usava o mesmo estratagema com todos os taxistas. Arranquei e fui-me embora. O que podia fazer?”
O pai do médio defensivo dos dragões concorda que nem todos têm a sua postura perante as adversidades na estrada: “Antes éramos uma família. Hoje há muito egoísmo entre colegas. Há quem ultrapasse só para buscar um cliente. Outros nem param para ajudar quando há um furo.”
ENGANAR O PAI
Em Angola era Francisco Costa quem driblava adversários com perícia de artista. Tinha jeito para a bola aquele catraio de Lucala que sonhava em tornar-se num craque dos relvados. O destino, porém, trocou-lhe as voltas. Aos 17 anos viajava para Portugal à procura de uma oportunidade. “Vim com um casal de portugueses para quem fui trabalhar como motorista.” Mas nos tempos livres não resistia a uma boa ‘peladinha’ com os amigos “Até de canto marcava golos”, recorda.
O seu tecnicismo atraiu dirigentes do Sporting Clube Pombal e do Penafiel só que aquele extremo-direito prodigioso tinha receio de partir uma perna e ficar desamparado e sem emprego. Por isso, continuou a trabalhar na casa dos seus patrões, um palacete senhorial situado nos arredores de Lisboa, onde conheceu Emília, a mulher da sua vida. “Trinta anos depois, ainda continuamos apaixonados.”
Do casamento, nasceram três filhos: Francisco, o mais velho, Maria Luísa e Mafalda. “Em bebé o Francisco só queria brincar com a bola. Fazia malabarismos com os pés.” Saía ao pai, diziam os familiares. Ninguém se admirou que aos doze anos ingressasse no Oriental.
Nessa altura, também Luís Carlos jogava nos iniciados do clube lisboeta. “Quando éramos miúdos, o Costinha não parava de dizer que iria longe no futebol. Queria ser um jogador famoso. Ele era uma pessoa de convicções”, conta o atleta que já vestiu a camisola do Benfica e hoje joga no Estoril-Praia.
Francisco Costa levava o seu menino a quase todos os treinos e, quando podia, assistia aos jogos de domingo. Estava orgulhoso, mas não queria que o rapaz descurasse os estudos. “Um dia, ele disse-me que queria deixar a escola e dedicar-se ao futebol a tempo inteiro. Eu avisei-o que isso só poderia acontecer se completasse o 11.º ano.” Resposta pronta do alfacinha de 17 anos: “Isso é canja!”
Pouco tempo depois, o rapaz chegava a casa radiante com o exame na mão. A caneta vermelha estava escrito ‘88 %’. Sorridentes, os dois dirigiram-se ao Estádio Eng. Carlos Salema para Costinha poder assinar o contrato de profissional. Só uma década depois é que o pai descobriu que o filho havia modificado meticulosamente o número três por um oito. “Ele tivera afinal 38 %”, revela Francisco Costa: “Enganou-me bem!”
BAILINHO DA MADEIRA
Ainda como júnior, impôs-se na equipa principal, pela mão do professor José Moniz. Pedro Gomes, o seu sucessor no banco do Oriental, continuou a apostar naquele jogador “tacticamente perfeito, polivalente, de grande impulsão e pulmão forte”. O treinador, hoje no desemprego, lembra-se que Costinha tinha também a vantagem de ser um ‘bom jogador de cabines’: “Era brincalhão, contava anedotas e moralizava a equipa.”
A opinião é corroborada pelo ex-colega João Mendes, que o ia buscar todos os dias de carro a Chelas antes dos treinos. “Ele vivia num bairro complicado mas conseguiu crescer sem problemas e tornar-se numa excelente pessoa.” Este futebolista que continua a jogar no Oriental recorda-se duma característica marcante do internacional português: “Ele queria ganhar sempre. Até nos treinos. Mas confesso que nunca julguei que pusesse chegar tão longe.”
Do Oriental saltou para o Monchique e depois para o Nacional, clube onde se voltou a cruzar com Luís Carlos. Na Madeira, os dois amigos andavam sempre juntos. “Saíamos bastante à noite, sozinhos ou com as nossas namoradas (que viriam a ser as respectivas mulheres)”, recorda.
O Nacional terminou a época com vinte pontos de avanço e subiu para a Divisão de Honra. Costinha, no entanto, tinha outros planos: o estrangeiro.
O FUTURO PRÍNCIPE
Depois de passar, sem muito êxito, pelo Valência de Jorge Valdano, decidiu arriscar e durante uma semana esteve à experiência no Mónaco. Quando se preparava para impressionar o treinador, logo por azar lesionou-se na virilha no primeiro dia do treino. O jogador teve de engolir o comentário mordaz dos futebolistas Bernabia e John Collins que passaram por ele no centro de recuperação: “Português, turista.”
Mesmo com dores, Costinha encheu-se de ganas e voltou para o relvado. No dia seguinte, já treinava outra vez. Acabaria por assinar um contrato por quatro anos com o clube monegasco, no meio de grande secretismo.
“Só no dia anterior à notícia sair nos jornais é que ele me ligou a dizer que jogava no clube francês. Respondi-lhe chateado: ‘Só agora é que me dizes?’ Um dia estava no Valência, no outro no Mónaco…Era duro não saber do paradeiro do meu único filho homem.”
No principado, a sua vida começa a ter finalmente algum ‘glamour’. É desse período que Costinha ganha o gosto por fatos de alta-costura. “Ele adora vestir-se bem e sempre que vem a Lisboa leva o pai a um alfaiate para comprar mais um fato”, revela um taxista, amigo do senhor Costa que preferiu não se identificar. O angolano confirma a história com um sorriso. “É verdade. Já tenho uma colecção de ternos no armário. Mas há dois ou três anos que não me oferece um novo.”
Costinha torna-se no patrão do meio-campo do Mónaco, é convocado para a selecção nacional e mais tarde para o Euro’2000 da Holanda/Bélgica. Os jornais desportivos apelidavam-no de ‘Príncipe do Mónaco’. As suas ambições de criança vão-se materializando.
O CORAÇÃO SERÁ MESMO AZUL?
O jogador de 1,81 m vive o seu momento histórico num jogo de qualificação contra a Roménia, em Bucareste quando salta do banco para marcar um golo de cabeça, após um livre milimétrico de Figo. “Ficámos eufóricos. O Costinha fazia o tento da vitória aos noventa minutos”, exulta o taxista que vira a partida sentado no seu sofá talismã, na companhia de uma equipa de repórteres de TV.
Como sportinguista ferrenho ficou menos feliz quando o filho, já com a camisola do FC Porto, marcou um golo em Alvalade na época passada. “Perguntei-lhe como é que ele podia ter feito aquilo. Ele encolheu os ombros e disse-me simplesmente: ‘trabalho é trabalho’.”
Embora seja um segredo mal guardado, o senhor Costa prefere não revelar o emblema de coração do filho: “É do Oriental”, garante com pouca convicção. Fontes bem informadas asseguram que o seu clube é outro. O que veste de verde-e-branco e joga em Alvalade. Numa entrevista recente o atleta admitiu: “Sou do Sporting, mas, se calhar, já não sou tão ferrenho.”
Sempre que pode, o comunicativo taxista viaja até ao norte para assistir aos jogos do FC Porto na bancada do Estádio do Dragão e aproveita para ver o seu neto, o Hugo. “Estou à espera do segundo neto do Costinha e da Carla (a sua mulher) mas ainda não sei se é rapaz ou rapariga”, revela com a voz emocionada. Francisco Costa assume sem complexos a sua costela de pai e de avô galinha. “Gosto de ter os pintos debaixo da asa.”
Nome completo: Francisco José Costa (‘Costinha’)
Idade: 29 anos
Data de nascimento: 01/12/1974
Naturalidade: Lisboa
Altura: 1.81 m
Peso: 74 kg
Posição: Médio
Palmarés: Campeão português em 02/03 e 03/04; Taça de Portugal em 02/03; Campeão de França em 99/00; Supertaça de França em 00/01; Taça UEFA em 02/03.
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