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Correio da Manhã

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O regresso do caos e da fúria

São aguardados com muita expectativa os dois concertos que trazem os Fat White Family de volta a Portugal
Adolfo Luxúria Canibal 2 de Fevereiro de 2020 às 06:00

O ‘rock’, nas suas diversas tipologias, deixou de ser um género musical comercialmente relevante. Quem esteja atento aos sons que fazem a banda-sonora do quotidiano já deu conta do seu gradual desaparecimento, seja das ondas radiofónicas ou dos ‘tops’ de venda ou preferência de estabelecimentos e ‘sites’ de comércio musical, seja dos ambientes da generalidade de lojas e bares ou das iconografias dos produtos de grande consumo, paulatinamente substituído pelo ‘rap’ e pela ‘pop’ mais xaroposa.

Isso não quer dizer, ao contrário do apregoado, que o ‘rock’ tenha morrido – pelo contrário, está mais vivo, radical e inventivo do que nunca, como se pôde ver pela ditirâmbica recepção ao disco dos Fat White Family, ‘Serfs Up!’, editado o ano passado –, simplesmente passou a ter existência mais marginal e ‘underground’.

Como o ‘jazz’ ou a música erudita… Mas quem teve oportunidade de ver os Fat White Family a 9 de Setembro de 2016 no Reverence Festival sabe que os seus concertos são imperdíveis, tal a intensidade com que são sentidos e vividos.

Exactamente o contrário da inocuidade tão enaltecida pelos tempos da contemporaneidade! Herdeiros directos de uma linhagem ‘rock’ onde o perigo e a urgência são o combustível primordial, os concertos dos Fat White Family, como acontecia com os dos New York Dolls ou os dos The Stooges – para só citar dois incontornáveis representantes dessa elite do caos e da fúria –, transpiram uma ameaça indefinida, como se, despoletado pela combustão sónica a que dão azo, tudo neles pudesse acontecer.

Formados em 2011, em Londres, pelos irmãos Saoudi, Lias e Nathan (voz e teclados), e por Saul Adamczewski (guitarra), os Fat White Family, com o seu som viscoso e vicioso, geraram desde logo uma enorme excitação. E se a sua postura não era isenta de riscos – como o prova a implosão da banda em 2017 – o certo é que deu frutos e regressam agora a Portugal adubados pela excelência de ‘Serfs Up!’, incluído na generalidade das listas de melhores discos do ano. Que será certamente a base dos seus concertos agendados para Porto e Lisboa…
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