Os seguidores da tribo urbana são apaixonados pela revolução industrial e devoram livros de ficção científica
À primeira vista, a indumentária de inspiração vitoriana pode confundi-los com os já ‘velhinhos’ góticos. Depois, porém, saltam à vista os acessórios peculiares, feitos a partir de peças de tecnologias antigas como ampulhetas, bússolas, binóculos, fechaduras, mecanismos de relógios ou os típicos óculos dos primeiros aviadores (goggles). Quando se pergunta, fica-se a saber que apreciam a ideia de "um mundo movido a vapor", e então aí percebe-se que há uma nova tribo na cidade: os steampunks.
Apenas uma coisa os define: "a identificação com a época da Revolução Industrial e a tentativa de especulação sobre conceitos estéticos, tecnológicos e sociológicos que daí possa advir", explica Joana Neto Lima, uma das seguidoras do género.
Por isso, à boa maneira do século XIX, os steampunks gostam do negro enquanto cor primordial para a indumentária, com corte neorromântico, mas também admitem outras cores, do cinzento aos tons naturais de castanho ou verde. Gostam de usar cartola e mecanismos antigos mas, acima de tudo, é o universo literário da ficção científica que mais os inspira e define.
Na realidade, o steampunk também é um subgénero literário derivado da ficção científica, ou ficção especulativa, que se popularizou no final dos anos de 1980. Contempla autores e obras clássicos, como ‘Viagem ao Centro da Terra’ de Júlio Verne, mas também tem novos contributos, como as sagas da norte-americana Meljean Brook.
CRIATIVIDADE
Mas os adeptos do steampunk são, sobretudo, criativos. Têm por hábito dedicar-se a fabricar manualmente as suas roupas e acessórios e alimentam publicações próprias em papel e produções em vídeo, que podem ser visualizadas e amplamente discutidas em encontros físicos (como a convenção anual Euro Steam Con) ou no mundo virtual, em fóruns e blogues.
Em Portugal é editado o ‘Almanaque Steampunk’ e são produzidas web series, sob o título ‘Diários de Steampunk’, disponíveis no YouTube. O site ClockWork Portugal reúne ainda os fãs nacionais do género, que contribuem fervorosamente. "Tivemos tantos candidatos para o almanaque de 2012 que, com muita pena, tivemos de deixar imensos contos de fora", lamenta Joana Neto Silva, uma das editoras do típico anuário que reúne efemérides astronómicas, editoriais e textos de ficção, claro.
"O steampunk entrou de fininho na minha vida, quando eu nem sequer estava a contar. Talvez porque sempre gostei muito de refletir sobre os ses… E se tivessem inventado um computador em mil e oitocentos? Que outras revoluções tecnológicas e sociais poderiam ter acontecido? Como é que as pessoas se teriam adaptado? Sobretudo, seduz-me o aspeto humano, sempre. A Revolução Industrial veio trazer às pessoas a esperança da evolução social. Com as máquinas, com a tecnologia, qualquer um podia passar para o outro lado, podia ser o patrão. Mas também trouxe outras questões, como a substituição do homem pela máquina.
O fascínio começou pela estética, mas depois foi essa componente humana que me seduziu". De tal modo que Joana Neto Lima, 28 anos, formada na área de Biologia , foi alimentando cada vez mais a sua ligação ao género. Bloguista, acabou por lançar um desafio entre pares: uma discussão temática sobre a obra de Meljean Brook. A partir daí, envolveu-se na edição do ‘Almanaque Steampunk’ e na realização e produção dos ‘Diários’, em parceria com outros adeptos.
CONVENÇÕES
Em 2012, a primeira edição da Euro Steam Com juntou no Porto mais de 350 steampunks e muitos mais a nível internacional, através da emissão simultânea em streaming.
O género, aliás, tem bastantes "mais seguidores em países como Inglaterra ou na Alemanha, onde a Revolução Industrial foi muito mais expressiva, do que por cá", conforme frisa Sofia Romualdo, mas a verdade é que em Portugal os steampunks "também estão a aumentar". Em número e em dedicação. Também ela, que tem 27 anos, é uma das criadoras da ClockWork Portugal, do almanaque e das web series.
Sofia, que está a tirar o mestrado em Curadoria e Museologia na Faculdade de Belas Artes do Porto, sempre gostou de ficção científica e das questões que esta levanta, de obras como ‘Star Wars’ ou ‘Star Trek’.
"O steampunk foca-se precisamente numa época em que a ciência começou a mudar verdadeiramente a vida das pessoas, a ideia da ciência como magia, as revoluções sociais relacionadas com o emprego. Tudo conceitos que podemos ligar aos dias de hoje", argumenta. No dia a dia veste-se de forma mais leve, com alguns acessórios steampunk – que podem ser, por exemplo, brincos feitos a partir da engrenagem de um relógio antigo – mas, quando a ocasião se liga ao steampunk, o código de vestuário é total, com direito a corpetes de pele, camisas aos folhos e saias longas e tudo o mais que remonte ao início do século XIX.
UNIVERSO FANTÁSTICO
A estética é que atrai, primeiramente, a maioria dos adeptos. Angélica Pinho é criadora de roupas e acessórios, tendo o código do steampunk como mote de algumas das suas criações. A sua marca, a Elfic Wear, é a única em Portugal que faz roupas deste género e, portanto, a alternativa para os fãs do estilo às compras no estrangeiro. Angélica é, ela própria, fã do movimento, em traços de estilista que cruza com o naturalismo do imaginário dos elfos de Tolkien.
O steampunk chegou através da irmã, Liliana Pinho, e alimentou-se depois com o gosto preferencial pelo universo do fantástico e a influência de obras como ‘Guerra dos Tronos’, ‘A Viagem de Hugo’ ou ‘Os Três Mosqueteiros’. Desde menina que Angélica gostava de fazer as próprias roupas. Aprendeu os princípios da costura com a mãe e para a escola, em vez das tradicionais batas aos quadradinhos, levava já bibes com grandes cogumelos e saias-calça. Agora, as suas roupas são sobretudo requisitadas para o estrangeiro, para produções de teatro e cinema, e por muitos steampunks, por incorporar mecanismos e outros acessórios em modelos de pele ou pano de corte retro.
"A roupa é algo muito íntimo. Manifesta as nossas qualidades, aptidões, opiniões. É também uma forma de arte individual", afirma. Angélica, 28 anos, só lamenta que ainda haja tantos preconceitos contra as estéticas alternativas. "Lá fora, sou contratada por criadores e marcas de moda, cá, provavelmente, só arranjaria emprego em call-centers, porque as pessoas olham a diferença ainda com muita desconfiança", lamenta. Angélica veste as suas criações no dia a dia, independentemente dos olhares alheios. O seu trabalho é de tal forma requisitado que se viu mesmo obrigada a fechar a loja física que detinha no centro do Porto por causa das encomendas e das ausências para o estrangeiro, onde vende mas onde também "aprende muito".
A culpa é da irmã mais velha, Liliana Pinho, 34 anos, fotógrafa e designer de joalharia, que lhe incutiu o tal bichinho da diferença.
Fã de gadgets antigos (mecanismos em cobre e latão), das invenções de Leonardo da Vinci e das aventuras de Sherlock Holmes e de Hercule Poirot desde a meninice, Liliana já usava roupa vitoriana, relógios comprados em ferros-velhos e antiquários, e às vezes transformados em outro tipo de acessórios, ou óculos goggle (os primeiros usados pela aviação), mesmo sem saber que tais coisas, assim juntas, a tornavam uma steampunk. "Quando descobri que isto era um estilo e que havia outros como eu, identifiquei-me perfeitamente", conta. E assim ficou a vestir-se, desde os 18 anos.
André Nóbrega é um fã recente do conceito. O médico de 27 anos descobriu o steampunk na convenção anual, à qual presenciou por "curiosidade instigada por alguns amigos ligados ao género". Não mudou a sua forma de vestir, mas a teoria veio ao encontro dos seus pensamentos: "A revolução da ciência e a forma como nos adaptamos a ela que, cada vez mais, nos ultrapassa". A próxima convenção em Portugal irá realizar-se no último fim de semana de setembro, na cidade Invicta, em simultâneo com as suas congéneres europeias. E, desta vez, são esperados ainda mais admiradores de um tempo que já passou, mas que deixou tudo diferente.
ESTILO EM LIVROS, FILMES E MÚSICA
Ambientados em tempos passados (sobretudo séculos XVIII e XIX), os enredos dos livros de steampunk baseiam-se em paradigmas da ciência que teriam ocorrido mais cedo do que na história real mas com a tecnologia disponível na sua época. Por exemplo, computadores de madeira ou aviões movidos a vapor.
Além dos livros, também existem séries e filmes que exploram estes conceitos, sendo os exemplos mais próximos películas como ‘Metropolis’, ‘Van Helsing’, ‘Regresso ao Futuro III’, ‘Sleppy Hollow – A Lenda do Cavaleiro sem Cabeça’, ‘A Volta ao Mundo em 80 Dias’ ou o recente ‘Cloud Atlas’, ainda em exibição nos cinemas. O realizador Tim Burton e os seus filmes ou a atriz Helena Bonham Carter também estão no topo das preferências.
A música não é a parte mais importante da equação, mas há várias bandas inspiradas no universo steampunk, como os norte-americanos Abney Park ou os The Dresden Dolls.
NOTAS
CINEMA
O universo estético dos filmes de Tim Burton é muito apreciado pelos steampunks.
EDIÇÃO
Existem vários almanaques steampunks editados em todo o Mundo, com grafismo que evoca o séc. XVIII.
TERMO
O termo steampunk deriva da palavra inglesa ‘steam’, ou seja, vapor. ‘Punk’ pela conotação urbana e industrial.
MUNDO
Inglaterra, Alemanha e Brasil têm largas comunidades steampunks, adeptas da ideia de um mundo movido a vapor.
TRIBOS URBANAS MAIS COMUNS
Diferenciando-se pela música, pela estética, pelos ideais ou pelo desporto, as tribos urbanas fazem parte da paisagem das grandes cidades, onde os mais jovens têm particular tendência para se juntar em grupos que partilham os seus interesses, gostos e, sobretudo, modos de estar e de vestir.
1- LOLITA
De origem japonesa e inspirada no estilo barroco. Atrai raparigas que se vestem como bonecas antigas e gostam de tomar chá.
2- RASTA
Nasceu na Jamaica, nos anos 20. Pacifistas, partilham o gosto pelo ska e reggae. Bob Marley é a principal referência.
3- CLUBBER
Surgiu na década de 80, pela devoção à música eletrónica. Nas suas festas privadas (raves) ouve-se do do house ao ambient.
4- DREAD
Usam calças largas e descaídas na cintura, mostrando os boxers, t-shirts largas e boné virado ao contrário. Gostam de rap e hip hop.
5- GEEK
Viciados em tecnologia e novidades digitais. Bill Gates e Steve Jobs são os ícones desta tribo nascida nos EUA já no novo milénio.
6- PLOC
Surgiram nos anos 1980 a partir da ideia da eterna infância. Vestem rosa e lilás e usam acessórios da Hello Kitty e do Tweety.
7- TRACEUR
Tribo (França, anos 1990) associada à prática do parkour. Reúnem-se em zonas com obstáculos urbanos onde treinam.
8- ROCKER
Jeans, cabedal e t-shirts negras com símbolos de bandas são imagem de marca dos rebeldes e inconformados fãs do rock.
9- PUNK
Movimento nascido em Inglaterra nos anos 1970. Cultiva um estilo de música (punk) e por vezes surge associado ao extremismo.
10- VINTAGE
Culto da estética dos anos 1920 aos 1960. Integra subgéneros como os rockabillies ou os mods. Estão muito ligados à pop art.
11- BETO
Usam roupas de marca e preferem andar sempre em grupo. A tribo surgiu nas universidades americanas nos anos de 1970.
12- STEAM-PUNK
Fãs das invenções da Revolução Industrial. Gostam de ficção científica e recuperaram a edição de almanaques.
13- GÓTICO
Surgiu no Reino Unido (final dos anos de 1970, pós punk). Inspira-se no cinema e na literatura de terror. Estilo de música próprio.
14- EMO
Derivam do gótico e do punk, mas são fãs do novo Emotional Core, música mais emotivo e suave do que a sua antecessora.
15- HIP HOP
Inspirado no estilo de música homónimo, nascido nos anos 1970 nas periferias, e popularizado graças a Eminem e Dr. Dre.
16- FASHION
Adoram moda, geralmente trabalham na área e por isso adaptam-se rapidamente às novas tendências que esta dita.
17- HIPSTER
São a tribo cool do momento. Esteticamente, cruzam estilos. Valorizam a criatividade, as ideias e passam muito tempo na net.
18- HIPPIE
A emblemática tribo dos anos de 1960 continua viva. O pacifismo, a defesa da Natureza e a vida comunitária estão entre os ideais.
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