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Correio da Manhã

Domingo
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O talentoso Dr. Cohen

Pedro Xavier Pereira, condenado a sete anos e meio de prisão, enganou meio mundo. Até a mulher que pediu em casamento.
27 de Novembro de 2013 às 11:05
Pedro Xavier Pereira, burlão, Dr. Cohen, Megafinance, processo
Pedro Xavier Pereira, burlão, Dr. Cohen, Megafinance, processo

José Pedro Xavier Pereira. Mais do que um nome, é uma certeza. Podemos afirmar com segurança que José Pedro Xavier Pereira nasceu na cidade de Gabela, sede do município de Amboim, na província de Kwanza-Sul, em Angola, a 1 de dezembro de 1970. Até aqui são factos, passemos então à criatividade: para muitos, José Pedro era o Dr. Cohen, nome judaico, e ganhava a vida como especialista em assuntos financeiros. A mulher que julgou estar casada com ele leu no menu do seu próprio casamento um outro nome, que até aí desconhecia: Yoseph.

Mas o melhor é revisitar o que o próprio Pedro Xavier Pereira - assim o tratavam os donos das 29 empresas que foram vítimas dos esquemas da Megafinance - escreveu no seu blogue ‘Cohen Pereira', criado em maio de 2010: "Cohen Pereira, Judeu de Origem - Sefared, Cidadão do Mundo, Seminarista do STIGCV, 1993. Grau de Cavaleiro Comendador da OIJ 1993. Bacharel em Ciências Jurídicas e Sociais pela FIDFA 1995. Doutorado em Teologia ThD pela ISTLA 2002. Livre Docência em Ciências Teológicas, LDCT. Cavaleiro do Império Britânico - (CStJ) 2005. Master - Inteligência Militar 2006 - Israel. Executivo ‘Sénior Finance Adviser‘ de diversas Instituições Financeiras Internacionais, Lisboa, S. Paulo, Londres, Madrid. 1995 a 2009. Hoje sou CEO de um veículo internacional de private Equity. Membro do International Private Bankers Club."

Confuso? Tente pesquisar na internet o significado das siglas referidas por ‘Cohen' Pereira e verá que o mistério se adensa...

Burlas desmascaradas

Facto provado é que José Pedro Xavier Pereira foi condenado dia 15 de novembro a uma pena de sete anos e meio de prisão efetiva pelos crimes de burla, falsificação de documentos, insolvência dolosa, branqueamento de capitais e manipulação de mercado. Os juízes da 8ª Vara Criminal de Lisboa condenaram também o presidente do conselho de administração da empresa Megafinance, Luís Valente, a cinco anos e meio de prisão por burla e insolvência dolosa. O acórdão diz que "durante mais de dois anos, os dois arguidos delinearam um esquema hábil, engenhoso e profissional, com o único objetivo de retirar avultados proventos financeiros à custa das dificuldades económicas dos empresários e da sua vulnerabilidade". As empresas Megafinance e Aptissimi serviram de capa para dezenas de negócios ruinosos para empresas que procuravam escapar à falência.

Sérgio Rita, dono do Grupo Xangai, que incluía uma clínica de medicinas alternativas, uma loja de produtos naturais e uma escola de formação, conta à Domingo como foi enganado: "A empresa estava em grandes dificuldades e concordei com o que me foi proposto. Passei a gestão à Megafinance, e em apenas quatro meses eles levaram o negócio à ruína. O esquema era muito simples; apropriaram-se de todas as receitas e deixaram de pagar a fornecedores, à Banca e ao Estado. Quando me apercebi do que se passava era tarde demais", conta o empresário de 64 anos, que perdeu as poupanças de uma vida e hoje trabalha por conta de outrem. Estima os prejuízos que sofreu em 1,5 milhões de euros.

António Caetano acreditou que Pedro Xavier Pereira o podia ajuda a concretizar um velho sonho de família. "Temos um solar na Vidigueira e pretendíamos abrir um turismo rural. Entreguei quase 10 mil euros à Finantial Premium [outra das empresas geridas por Pedro Xavier Pereira] e acabei sem dinheiro e sem hipótese de abrir o hotel que planeávamos", conta o empresário alentejano. Pelo caminho, António e a esposa, Paula, tiveram de fechar o restaurante Vila Velha, na Vidigueira, em parte devido aos prejuízos causados pela Megafinance. "Reuni-me várias vezes com Xavier Pereira e Luís Valente em Lisboa. Prometiam-
-me mundos e fundos e só desisti quando me propuseram que o processo passasse da Finantial Premium para a Megafinance. Pediram-me mais 1500 euros e recusei. Percebi que estava a ser enganado."

Estes são dois dos 29 casos mencionados no processo, mas suspeita-se que possa haver mais empresas lesadas, que não apresentaram queixa.

Mundo de fantasia

Diz quem privou com Pedro Xavier Pereira que este vive "num mundo de fantasia". Nascido em Angola, veio com a família para Portugal ainda na juventude. Casou-se muito cedo - foi pai ainda antes dos 20 anos - mas rapidamente se separou. Nunca pagou a pensão de alimentos e há anos que não vê o filho mais velho. O empresário voltaria a casar e a ter mais dois filhos rapazes, com quem também não tem relação próxima.

A família Pereira frequenta uma igreja evangélica. Na Assembleia de Deus da Amadora, o pai, António Pereira, foi pastor durante várias décadas. Pedro também exerceu essas funções, mas a igreja diz que o empresário já não integra culto.

Pedro Xavier Pereira saltou para as páginas da imprensa em agosto de 2005, quando a empresa LP Brothers, de que era o único administrador, lançou uma surpreende Oferta Pública de Aquisição (OPA) sobre a Media Capital. Então radicado em Espanha, Xavier Pereira dizia querer comprar o grupo da TVI, mas acabou por ser detido em Badajoz. Rapidamente se demonstrou que a OPA nunca foi uma intenção real e o empresário foi multado em 50 mil euros (e a empresa em 100 mil euros) pela CMVM, por falsidade de declarações. O crime de manipulação de mercado a que foi agora condenado tem a ver com essa operação.

Falso casamento

Em 2008, Pedro Xavier Pereira conheceu uma cliente que estava em risco de perder a casa, por dívidas à Banca. Apaixonou-se pela mulher, mãe solteira de 30 anos, e conquistou--a com gestos românticos à moda antiga. "Pediu a mão dela aos pais e casaram-se ao fim de poucos meses", conta fonte próxima da família.

Casaram-se é um modo de dizer, porque a esposa descobriu mais tarde que a cerimónia com 300 convidados - todos da parte da noiva porque Pedro estaria de relações cortadas com a família - num dos hotéis mais caros de Lisboa foi uma farsa. "O ‘bispo' que os casou, José de Oliveira Ventura, era afinal um camionista e não tinha poderes para celebrar casamentos. Hoje vive no Brasil, onde pertence à Igreja Entradas Eternas.

A nova esposa "nunca mudou o estado civil e nem quando o casal teve um filho, ainda em 2008, deixou de o registar como mãe solteira", conta a mesma fonte. Pedro Pereira dizia que havia um problema com o divórcio do primeiro casamento para adiar o assunto. O mentor da Megafinance é descrito como "uma pai e um marido ausente". O casamento ruiu quando, em 2011, reportagens da SIC puseram a nu os negócios obscuros da Megafinance.

Pouco depois, Pedro Xavier Pereira foi detido e colocado em prisão preventiva. "Só então é que a mulher conheceu os pais dele e se apercebeu da farsa do casamento. Ele só quis usar o nome dela para figurar nos órgãos sociais das empresas." A esposa foi constituída arguida e julgada. Absolvida, reconstruiu a vida longe do suposto marido.
Preso no Estabelecimento Prisional da Polícia Judiciária, em Lisboa, Pedro Xavier Pereira terá muito tempo para refletir sobre a frase bíblica que dizia ter como lema pessoal: "E o Senhor te porá por cabeça, e não por cauda; e só estarás em cima, e não debaixo, quando obedeceres aos mandamentos do Senhor, teu Deus."

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