Paulo Seco treina 50 atletas no Casal Ventoso, em Lisboa. Serviu de inspiração ao filme "São Jorge".
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Num papel afixado na porta fechada naquele número 7 na rua Quinta do Loureiro lê-se ‘Ambiente pesado’, como que a avisar quem chega. Na urbanização lisboeta onde não há tanto tempo assim morava o Casal Ventoso – o gigantesco hipermercado de droga dos toxicodependentes dos anos noventa – o ator Nuno Lopes iniciou-se no boxe para poder dar vida a Jorge, no filme português a que o americano ‘Huffington Post’ chamou de "banquete cinematográfico". Dentro da academia, na encosta do Vale de Alcântara que já nos anos 30 era descrita como ‘uma mancha de pobreza vergonhosa’ e haveria de ser objeto de reconversão social ainda antes da viragem para o século XXI, os sacos que pendem do tecto pesam centenas de quilos e estão amassados pelo uso. Já perderam a conta aos socos que levaram e aos duros que viram tombar. Há um certo cheiro a suor vitalício impregnado nas paredes que cercam o ringue, onde ninguém entra sem luvas – e onde ninguém deveria entrar de mal com a vida.
Nuno Lopes entrou ali várias vezes por semana durante dois anos (e nos últimos quatro meses antes da rodagem do filme corria para lá todos os dias) para aprender boxe mas – e, se calhar, acima de tudo – para aprender sobre a vida em sítios como aquele, onde a realidade daqueles que calçam as luvas se sobrepõe ao desporto que praticam. Paulo Seco é o anfitrião desta academia de portas abertas há 17 anos num rés do chão no bairro construído para os antigos habitantes da encosta do Casal Ventoso, que apresentou à equipa que produziu ‘São Jorge’ - ainda nos cinemas - e onde foram inclusivamente filmadas algumas das cenas do filme que quis dar voz a quem raramente a tem por esta via.
O realizador Marco Martins escolheu-o porque o ex-pugilista conhece bem os ringues, aqueles onde se luta por desporto e aqueles onde se luta para sobreviver. Marco perdeu a mãe aos 14 anos e teve de lidar com um pai alcoólico num bairro onde na adolescência era normal – tão normal que já nem se parava para olhar – "ver pessoas a injetarem-se" canto sim, canto sim.
"Foi o boxe que me salvou", diz- -nos Paulo Seco, que também entrou em ‘São Jorge’ a fazer aquilo que sabe melhor: treinar atletas. O boxe começou a salvá-lo aos oito anos, porque de cada vez que entrava no duro ringue esquecia a dureza da vida lá fora. Continuou a salvá-lo na juventude, fase crítica para todos os miúdos e mais crítica ainda em sítios onde os mesmos miúdos não têm alternativas para ocupar o tempo. "Não sei se teria seguido este caminho se não fosse o boxe. Comecei a trabalhar com 13 anos. Durante a noite era padeiro e de dia dormia. Acordava e ia treinar, era um círculo que estava viciado nesse sentido e ainda bem porque assim pouco ou nada parava no exterior do bairro, assim não tinha tempos mortos", conta hoje aos 46 anos e 160 quilos.
No clube onde treinava davam-lhe, além de palavras de incentivo, também o pão para a boca. "As pessoas do clube foram-me ajudando. Eu jantava no clube, era o clube que me dava comida por eu ir lá treinar e isso não tem preço". Quando pegou ele nas rédeas da academia na qual treina agora 50 atletas usou do mesmo molde com os miúdos que ali foram chegando. "Percebi que o Paulo Seco é uma espécie de psicólogo, um assistente social, um padre. Há um lado de pai de família. Um boxeur é um pai de família, é alguém a quem recorres quando tens problemas. É a figura do mestre", já disse Nuno Lopes sobre o homem que o treinou - e o homem concorda.
"Há muita parte humana no boxe. Posso dizer-lhe que muitos atletas que vêm para a modalidade são pessoas que não tiveram oportunidades de arranjar trabalho, de ter uma educação e aqui ganham educação. Porque começam a treinar com pessoas de estratos sociais diferentes que lhes arranjam trabalho, orientam-nos para os estudos. Dizemos não se vive do boxe – em Portugal, os profissionais ganham entre 600 a 2000 euros por combate mas não os há todos os meses – tens que arranjar uma forma de te autossustentares daqui a uns anos e isso passa pelos estudos ou por arranjar um trabalho melhor", diz convicto.
"O habitual é isto de estar num bairro como o Casal Ventoso, onde há 20 anos muitos estavam agarrados à droga e muitos saíram da droga derivado ao desporto. Pouco a pouco saíram da droga e começaram a apaixonar-se pelo desporto e foram largando o vício e hoje em dia são pais de família e treinam todos os dias. E dizem que se tivessem conhecido o desporto há mais tempo não se tinham metido na droga. Eu sou nascido e criado aqui e sou muito grato ao boxe, às pessoas que conheci cá dentro, às oportunidades que ganhei. Sobre os miúdos que aqui treinam costumo dizer que não quero que eles sejam todos campeões mas quero que estejam cá a treinar, porque enquanto estão aqui ocupados sentem-se felizes. Metemo-los aqui a jogar à bola e durante duas ou três horas estão a brincar e tomam o gosto pelo desporto e isso para mim é que é importante", conta o homem a quem Nuno Lopes foi beber a experiência de vida para vestir a pele de Jorge, o pai do Nelson e o companheiro de Susana, um homem perdido que procura um futuro melhor do que o presente tem sido. E a quem as luvas de boxe assentam bem mas não salvam nem protegem, porque não há saídas, nem dentro nem fora do ringue.
Cobranças difíceis
Marco Martins quis que ‘São Jorge’ – que vive em partes iguais do talento dos atores profissionais escolhidos e do realismo que conferem os não profissionais – retratasse a crise em Portugal depois de 2011 e da chegada da troika ao País. A crise das classes mais baixas de que poucos falaram porque se centraram antes nos privilégios perdidos por uma classe média menos habituada a reveses. O realizador quis retratar uma crise a que poucos ligam porque ‘sempre foi assim’. Uma crise que teve de recorrer muitas vezes a métodos pouco ortodoxos para conseguir sobreviver, como foi o caso daqueles que foram aliciados por empresas de cobranças difíceis, uma realidade que aumentou em Portugal logo a partir de 2009.
Trata-se de empresas que adquiriram créditos mediante a compra de dívida, atuando depois em nome próprio, muitas vezes utilizando formas de persuasão fortes, violentas e com coação, escolhendo para ‘vestir o fraque’ homens hábeis na intimidação e grandes no porte, é o caso dos pugilistas. Desta questão, que acaba central no filme, Marco Martins só se apercebeu quando começou a mergulhar de cabeça nas academias de boxe em Portugal e a perceber que a crise e o que ela trouxe de presente estava a tornar-se maior do que o ringue e que não haveria luta maior (e mais difícil) do que a de quem luta contra quem é igual a si, nas vitórias mas sobretudo nas derrotas. Tanto que acabou por moldar a personagem de Nuno Lopes e tornar o ambiente em que ele vive maior também do que o boxe, que aparece a espaços, dando forma a uma narrativa crua que explora a vida de um homem que para sobreviver acaba a perseguir gente como ele, gente com dívidas.
E também nesse universo, Paulo Seco foi ajuda preciosa. "Eu próprio fui abordado por empresas de cobrança de dívidas para fazer esse trabalho mas disse sempre ‘estou fora’. Vai tudo preso por causa das cobranças difíceis e eu cá não queria isso para mim, gosto muito da minha vida", diz. "Conheço várias pessoas que passaram por essas situações e eles contam o que se passa e o que não se passa. É uma situação complicada, porque até podemos falar com alguma pessoa que até é amiga e diz ‘vem ali comigo resolver aquilo’ e aquilo rapidamente passa para uma cobrança difícil que só traz problemas".
No caso de Jorge, e sem querer contar mais do que o suficiente para não retirar a expectativa, a coisa também não corre propriamente bem. Talvez por isso o combate em que a personagem perde no ringue é o único – Marco Martins optou por não usar no filme um outro em que a personagem saía vencedora.
"Os combates eram mesmo a sério. No filme é ele mesmo que está a combater e só faltou ou um ou outro cair ali no chão para ser ainda mais real. E houve situações em que o Nuno se aleijou e houve ali algumas situações de mal-estar", recorda Paulo Seco que certo dia teve de ir com o ator para o hospital depois de uma brincadeira mal medida.
"Chocaram cabeça com cabeça e o outro pugilista acertou-lhe no nariz, até fomos ao hospital para saber se estava tudo bem porque não podia ser um ator com uma cana de nariz partida, para a imagem dele era complicado", embora um ou outro golpe tenham ficado marcados na pele e ajudado a maquilhagem.
"Quando se está num ringue a última coisa que se sente é raiva da outra pessoa, porque quem a tiver vai perder o combate. É um desporto muito racional, em que se está constantemente a pensar na técnica. Nunca se pensa: ‘Ai, vou-lhe dar um soco’. Pensa-se: ‘Ele tocou-me na cara e ganhou um ponto’. Esse lado racional sobrepõe-se muito mais à dor física. Só dói durante dois segundos e depois já não", explicou o ator sobre o desporto a que se dedicou para vestir a personagem que lhe valeu já o prémio para melhor ator no Festival de Veneza, onde o filme estreou já este ano.
"Tem muito jeito e podia ser atleta que não se saía mal, e não estou a dizer isto para fazer o favor. E além de treinar agora percebo que ele esteve aqui durante muito tempo só a observar como uma esponja as conversas, o ambiente de balneário, da sala, porque tudo isso faz parte do trabalho do ator, que é pesquisar, tentar falar como nós falamos no nosso dialeto. Eu falei com o Marco [Martins] e disse-lhe: ‘não gosto dos filmes portugueses, porque quando eles tentam ser malandros não sabem ser malandros. Têm alcunhas malucas que ninguém tem aquelas alcunhas, nem ninguém fala daquela maneira nos bairros. É preciso ir viver para ao pé das pessoas e lidar com elas, como o Nuno fez". Era para ser uma experiência imersiva durante um ano, mas um atraso no financiamento adiou o início da rodagem e deu ao ator mais um ano de treino naquele rés do chão em Alcântara, no qual nunca teve tratamento especial por ser uma cara do ecrã.
"Ele treinava aqui connosco, e aqui todos somos iguais. Daquela porta para dentro quem manda sou eu, é indiferente de que estrato social eles são. Tenho aqui músicos, atores, advogados, polícias. Aqui toda a gente segue a mesma tábua", acrescenta Paulo Seco, que acredita que o filme ajuda a mostrar "a parte humana deste desporto. "O boxe tem uma imagem um bocado negativa a nível de violência. Dizem que é um desporto violento, eu não acho, não digo que o filme limpou a imagem porque nós não precisamos que nos limpem a imagem mas terá ajudado", acredita.
Da barraca para o hotel
Paulo Seco conheceu outros mundos fora do mundo do Casal Ventoso, lugares inacessíveis a quem nasce no lado errado da sorte. "Fiz parte da seleção portuguesa durante muitos anos, viajei pelo mundo todo por causa do boxe. Na altura, para mim, para uma criança que num dia estava a dormir numa barraca e passado dois dias estava a dormir num hotel de cinco estrelas era uma coisa fenomenal, embora tivesse sempre saudades de casa e me sentisse sempre como um emigrante fora daqui". Por isso escolheu continuar no Casal Ventoso, na encosta onde nasceu e onde se fez aos ringues. "Fiz as escolinhas, mas depois fui crescendo, ganhando provas, depois fiz a parte amadora para jogos olímpicos, não fui apurado por muito pouco, depois passei a profissional e aí comecei a ganhar algum dinheiro com isto", conta quem começou por treinar pugilistas na Margem Sul do Tejo em 1997, num clube que acabaria por fechar portas e o ‘devolver’ a casa. Uma casa que não é muito diferente dos bairros da Bela Vista, em Setúbal, e da Jamaica, no Seixal, onde ‘São Jorge’ foi rodado. Bairros de onde também saem algumas notas de esperança, que podem não passar de uma dança antes de aparecer a palavra ‘Fim’ e o espetador sair da sala de cinema com a sensação de que a realidade anda de mão dada com a ficção.
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