Refugiada lança livro que desmistifca o "paraíso" norte-coreano.
Hyeonseo Lee saiu da Coreia do Norte com 17 anos mas hoje, com 35, ainda tem medo de carros da polícia com as sirenes ligadas. Passa-lhe pela cabeça que possa ser um oficial do governo de Kim Jong-un para a vir buscar. Atualmente a viver na Coreia do Sul, a refugiada mais famosa do momento (é ativista internacional em prol dos direitos humanos e tem realizado conferências por todo o Mundo para contar a sua experiência) passou brevemente por Lisboa para promover o livro ‘A Mulher com Sete Nomes’ (Planeta Editora). O livro onde conta como saiu da Coreia do Norte, como se escondeu na China durante dez anos, como conseguiu finalmente chegar à Coreia do Sul e obter o estatuto de exilada política.
Casada com um norte-americano – ou seja, alguém que cresceu a acreditar ser seu inimigo mortal – Hyeonseo Lee diz que o fim do regime norte-coreano "é inevitável" mas acha que não chegará na forma de uma revolução. Antes como uma transição pacífica. "Não acredito que uma tirania, por mais opressora que seja, possa manter-se eternamente e os norte-coreanos já vivem sob esta ditadura há sete décadas", diz. "É muito tempo." Do atual líder, que considera estar "fragilizado", recorda "a trapalhada" de ter mandado matar o tio, segunda figura do regime, acusando-o de ser um "faccioso imundo".
"Acho que as pessoas começam a interrogar-se, a acordar da lavagem cerebral a que foram sujeitas desde a mais tenra idade, e a pensar que, se calhar, as coisas não são exatamente como lhes contaram na escola. E nessa altura, será possível mudar e, finalmente, reunificar as duas Coreias."
REGRAS E PROIBIÇÕES
A mulher que o Mundo conhece hoje como Hyeonseo Lee nasceu em janeiro de 1980 e foi batizada com o nome Kim Ji-hae. Pouco depois do seu nascimento, a mãe pediu o divórcio e casou com outro homem – o amor da sua vida – e o segundo marido adotou a bebé legalmente, dando-lhe o nome de Park Min-young. Os primeiros anos da família foram vividos pacificamente em Hyesan, na fronteira com a China, mas em breve Hyeonseo iria começar a confrontar-se com algumas realidades cruéis.
No livro agora lançado a autora conta como há grupos de voluntários a percorrerem as ruas da Coreia do Norte à procura de pessoas que violam as regras estreitas que regem a vida social no país. É proibido, por exemplo, usar calças de ganga. Aos homens é vedado usar os cabelos um pouco mais compridos do que dita a lei, enquanto as mulheres se devem abster de vestir calças e não podem usar colares ou perfumes estrangeiros. Ou tornar-se-ão suspeitas de antissocialismo, degeneração e cooperação com o inimigo, ou seja, com o "capitalismo decadente".
Na Coreia do Norte é proibido sair de casa sem o alfinete com o rosto do líder colocado sobre o coração. E é impossível referir-se ao mesmo sem adjetivos. Grande Líder, Respeitável Pai e Líder, Camarada, Presidente ou Marechal são as únicas designações admitidas. Sob risco da mais severa punição.
Hyeonseo conta que um dia a sua mãe, que apresenta no livro como uma mulher "com gosto pelas modas", foi apanhada a usar calças. Rápida a distribuir subornos, deu dinheiro aos voluntários e evitou ser denunciada às autoridades. Do susto não se livrou.
Na escola, as sessões de autocrítica também lhe provocaram repulsa. Tal como os adultos, as crianças também são instadas a levantarem-se e a criticarem as outras. Uma vez, um miúdo questionou um colega, acusando-o de ter muitos bens em casa. A professora alertou as autoridades, a polícia investigou, descobriu-se que um membro da família tinha fugido para a Coreia do Sul e estava a enviar dinheiro para casa. A família inteira desapareceu de um dia para o outro. "Ninguém sabe para onde foram ou o que lhes aconteceu, mas suspeito que foram postos num campo de prisioneiros", diz Hyeonseo. "Mas isto mostra bem o clima de suspeição que domina a Coreia do Norte. Toda a gente receia toda a gente. O medo impera."
EXECUÇÕES PÚBLICAS
Hyeonseo tinha apenas sete anos quando testemunhou a primeira execução pública. Diz que os julgamentos populares na Coreia do Norte são sumários: as acusações são lidas em voz alta e o acusado é enforcado no local. Na sequência da morte do líder Kim Il-sung, por exemplo, em julho de 1994, aqueles que não manifestaram suficientemente o seu desgosto em praça pública foram punidos e quem se atreveu a continuar a trabalhar no dia seguinte foi executado. Mesmo assim Hyeonseo diz que durante anos continuou a acreditar que vivia no paraíso.
"Era o que nos ensinavam na escola, desde o primeiro dia", admite. "Eu achava que o meu país era o mais forte, o mais poderoso e o mais fantástico do Mundo. Até que vi pessoas a caírem na rua e a morrerem de fome à minha frente." Aconteceu após a queda da União Soviética, quando as novas autoridades do Kremlin se recusaram a continuar a enviar víveres para a Coreia do Norte. Foi o primeiro sinal de alerta para a autora. No livro relata mesmo uma situação de canibalismo. Um velho foi executado quando se descobriu que tinha matado uma criança e feito uma sopa com a carne dela, que depois vendeu no mercado. Foi consumida até à última gota. "Aquilo não fazia sentido para mim. Como é que no melhor país do Mundo, as pessoas estavam a morrer de fome?".
Foi pouco depois que, com 17 anos, Hyeonseo saiu do país atravessando o rio gelado que separa Hyesan da China. "Já nessa altura tinha muita curiosidade sobre o que seria a vida fora da Coreia do Norte. Como vivia na fronteira, recebia o sinal da televisão chinesa e eles pareciam-me mais ricos, mais desenvolvidos e mais progressistas do que nós", revela.
Na China, viveu escondida durante dez anos, trabalhando em restaurantes para sobreviver e escapando, por um triz, a uma rede de tráfico de mulheres, até que uma denúncia anónima a levou à cadeia. A ativista explica que é bastante comum. "O governo chinês quer manter boas relações com a Coreia do Norte e por isso de vez em quando envia uns quantos desertores para lá, mesmo sabendo que provavelmente serão torturados, talvez até executados", justifica. Ainda hoje não sabe quem a denunciou, mas conseguiu iludir a polícia graças ao excelente domínio do mandarim, quer escrito, quer falado. Ficou, porém, sem vontade de continuar a viver às escondidas. E se na China teve vários nomes, foi com um bilhete de identidade falso que chega à Coreia do Sul, com o nome de Park Sun-ja.
FUGAS E SUBORNOS
Ao longo da obra, que tem quase 400 páginas, a autora fala da família com bastante candura. Admite que a mãe aumentava os proventos da casa com o contrabando e que um dos tios se dedicava ao tráfico – e consumo – do ópio. A acreditar no livro que escreveu, o cultivo de ópio é comum na Coreia do Norte desde a década de 70: a substância é tratada nos laboratórios do Estado e transformada em heroína. Segundo Hyeonseo, é depois vendida no estrangeiro para adquirir divisas. Mas foi esta mesma família, e sobretudo o seu amor pela mãe e pelo meio-irmão (o pai suicidou-se depois de ser acusado de abuso de poder e de aceitar subornos), que a lançaram na maior aventura de todas.
Quando Hyeonseo, como decidiu finalmente chamar-se, chegou à Coreia do Sul, decidiu ir buscar a família. Uma atitude que espantou muita gente, que a considerou suicida. Voltou secretamente à fronteira da Coreia do Norte e, naquela que é a parte mais impressionante da obra, conseguiu, no final de uma viagem muito atribulada e em que foi obrigada a desembolsar muito dinheiro em subornos, levar a mãe e o meio-irmão para ao pé dela.
Noutro episódio marcante, a autora conta que, já sem dinheiro e a perder a esperança de conseguir tirar os familiares de uma prisão refundida no Laos, conhece um anjo, na forma de um australiano de mochila às costas chamado Dick Stolp e que lhe deu, sem a conhecer de lado algum, qualquer coisa como 874 euros. Foi o suficiente para subornar os guardas prisionais e conseguir que esta história tivesse um final feliz. O reencontro de Hyeonseo com Stolp foi custeado – e filmado – pela televisão australiana, e comoveu muita gente.
Nos últimos tempos a mulher que já teve sete nomes tem estado sob os holofotes da imprensa internacional. A sua conferência TED: Ideas Worth Spreading (ideias que valem a pena espalhar, em tradução literal), em que conta a sua história, foi vista por mais de quatro milhões de pessoas e foi considerada por Oprah Winfrey como "a mais estimulante de sempre". Hyeonseo Lee, porém, mantém a sua postura humilde. Está a fazer um mestrado em Relações Internacionais e a ajudar a mãe a adaptar-se à nova vida. "Ela ainda não percebe bem o que significam palavras como democracia e liberdade."
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