O avô Medeiros foi o primeiro a domar ondas em Portugal.
Se o hábito faz o monge, então o surf chegou a Portugal há 80 anos. E foi nas braçadas de um açoriano que ele deu à costa. A gana que levou Carlos Garoupa Medeiros a lançar-se no mar bravio dos Açores e a equilibrar-se em cima de um pedaço de madeira, ninguém conhecia. Mas veio de longe, como convém num coração de marinheiro.
Nos anos 40, a família Medeiros estava migrada no Canadá, costa leste dos EUA, Havai, Bermudas e Austrália, e vieram de lá os primeiros ecos que ouviu sobre o surf, "modalidade em que se traçava as ondas em cima de uma prancha", sob a forma de documentários, filmes e revistas.
As imagens, de plena comunhão com a natureza, tocaram-lhe fundo as entranhas. "Porque o surf é um sentimento, só isso. E depois, claro, é uma questão de equilíbrio, apenas, que nunca se esquece. É como andar de bicicleta", descreve, aos 80 anos, mais de metade deles a surfar.
Mas, voltando um pouco atrás na história, Carlos tinha 11 anos quando perdeu as meias-medidas e decidiu encomendar uma prancha a um marceneiro de Ribeira Grande, feita em criptoméria japónica, madeira bastante comum na ilha. Foi desenhada pelo próprio com um lápis, inspirado nos filmes norte-americanos.
Pesava 40 quilos, mas foi nela que começou a equilibrar-se nas ondas e a descobrir as maravilhas mais profundas do mar dos Açores. A prancha servia-lhe sobretudo para isso: para se deslocar mais rapidamente até aos pontos da ilha que queria explorar. Na altura, não existiam fatos, e a aprendizagem dava-se por mera observação. As manobras eram as mais simples. Mas a tal prancha ainda hoje resiste em casa dos Garoupa Medeiros, sobrevivendo ao passar dos anos e à corrosão do sal.
Carlos Garoupa Medeiros nasceu em 1930 e sempre viveu em Ribeira Grande (São Miguel), à borda de água. Sentiu logo que era um "homem do mar", inclinação que viria a torná-lo piloto da Marinha e a correr o Mundo.
Também era desportista nato: "Bom no voleibol, bom nadador. Adorava desporto, de uma forma geral. Mas gostava muito de água. Ia de caiaque até ao ilhéu de Vila Franca. Fascinava-me com os documentários do Cousteau, as aventuras dos velejadores, os livros de viagens marítimas. Em 1951, quando a única loja em Portugal que vendia equipamento de mergulho ficava na avenida de Roma, em Lisboa, mandei vir uma máscara submarina de mergulho para ver os peixes e a flora. Acho que me sinto melhor no mar a nadar do que em terra a andar", admite.
Não admira, por isso, que aos 20 anos tivesse feito a tropa na Marinha de Guerra Portuguesa e seguido carreira pelo Mundo fora, aos comandos de vários navios.
"Já andei em quase todos os mares: na costa de Inglaterra, da Irlanda, da Noruega, dos Estados Unidos. Adoro todas as ilhas. Depois, adoro conversar com os marinheiros, os velejadores, os pescadores, enfim, as gentes do mar, de todas as nacionalidades. É graças a eles, aos que vou visitando e aos que vão passando pelos Açores, que falo várias línguas".
PASSAR O TESTEMUNHO
Lá em casa, o mar sempre foi a televisão. Por isso, não admira que Carlos Medeiros tenha também criado uma descendência de velejadores e surfistas lá em casa. A família vive ainda hoje em Ribeira Grande, na mesma casa que o mar quase beija, no qual ensinou a descendência "a nadar" e que, acima de qualquer outra coisa, a ensinou "a respeitar".O filho, João, de 54 anos, também fez surf, mas rapidamente passou para a vela e a canoagem. A sua grande paixão são os barcos, mas lembra-se como se fosse ontem de ainda criança assistir ao sucesso que o pai fazia naquelas paragens, quando se lançava às ondas em cima de uma prancha.
"Quando se gosta da água e da natureza, é um privilégio poder viver assim… é mais: é uma bênção dos deuses nascer aqui", frisa João, que hoje se dedica sobretudo a acompanhar a carreira do filho (na filmagem técnica das ondas grandes), com quem vai igualmente abrir mais um negócio do mar: a primeira loja de canoas da Polinésia da ilha, para aluguer e passeios turísticos.
Carlos nunca chegou obviamente a participar em nenhuma competição de surf, coisa que só surgiu "duas ou três décadas depois", mas hoje enche-se de orgulho com as proezas e a carreira do neto, Diogo Garoupa Medeiros, que também dá cartas na modalidade.
EM DOCUMENTÁRIO
Diogo, 21 anos, começou a surfar com nove e a competir com 12. Escusado será dizer que sentiu na pele a óbvia influência dos Medeiros.
Em 2010, sagrou-se campeão regional de surf e agora dedica-se à exploração das ondas grandes, as XXL que Garrett McNamara celebrizou por cá.
"À primeira vista, pode parecer mais difícil surfar as grandes, mas acho que não é. Eu, pelo menos, sinto-me mais à vontade nas grandes", confessa o surfista, que integra atualmente um projeto de exploração de ondas gigantes, a faceta mais espetacular do surf. E é atrás delas que vai correndo, por outros cantos e recantos do Mundo, seguindo as rotas e as pisadas de todos os outros lá em casa.
À conta desta paixão, a família Medeiros foi no ano passado a protagonista de um documentário filmado nos Açores pela realizadora Sachi Cunningham, ‘Mar Sem Fim’, e que conta também a sua história. Lançado no festival SAL (‘Surf At Lisbon’), tem estado em tournée por vários festivais de surf em todo o Mundo.
Mas a película também já foi exibida na ilha de São Miguel, para mostrar que o filme era um sonho de todos: "Para partilhar com amigos e família, mas sobretudo porque sabia que ia dar alta pica ao meu avô para ele ir surfar comigo e com meu pai!", explica entusiasmado o ‘Garoupinha’, para os amigos, o mais novo da família com três gerações de surfistas da Ribeira Grande.
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