Foram 25 meses muito duros, pelo perigo, pela perturbação e pelas saudades de casa que apertavam.
Nasci e cresci em Aljustrel, e aí fui mobilizado para embarcar para Angola, para a guerra do Ultramar, como aconteceu a muitos outros da minha geração. Depois da recruta, integrei o batalhão de Cavalaria 3871, Companhia de Cavalaria 3487, que tinha como destino a zona de Cabinda.
A minha especialidade era a de soldado de transmissões. Ora isto significava andar muitas horas e muitos dias no mato com um rádio pesadíssimo às costas. Essa é a causa da minha maior mazela da guerra: hoje tenho a minha coluna um bocado ‘desfeita’. Apesar de nunca ter sido ferido, foram 25 meses da minha vida muito duros e que me deixaram memórias pesadas e marcantes.
O meu batalhão chegou a Angola a 14 de março de 1972 e regressou a Portugal a 14 de junho de 1974. Passei em Cabinda o 25 de Abril, mas a verdade é que nós naquela época - soldados, miúdos e isolados como estávamos - nem sequer tivemos a verdadeira perceção do que é que tinha acontecido em Portugal e que implicações é que isso tinha para nós e para o País.
As notícias demoravam a chegar a Angola, sobretudo às zonas de mato, e não eram claras. Quando se deu a revolução, estávamos na zona de Ambriz, a fazer a segurança da fazenda de óleo de palma e banana dos Mello, e só quando chegámos a Luanda, já para retornar a Portugal, é que percebemos o que tinha acontecido. Ficámos um bocado perturbados. Até porque nessa altura o conflito já tinha praticamente cessado no mato mas ocorria com mais força nas cidades.
Mas quando lá chegámos, dois anos antes da revolução, juntá-mo-nos à CCS na zona de Sanga-Planície e Miconge (Cabinda).
Vivi vários episódios marcantes, muitas emboscadas, mas resta-me a consolação de lá ter feito muitos amigos também. Volvidos todos estes anos, continuamos a encontrar-nos sempre no último fim de semana de maio para conviver. E devemos muito ao nosso capitão, António Inácio Nogueira, um homem de Coimbra, que percebia de guerra e que instaurou uma disciplina que nos salvou. Saíamos sempre bem armados e preparados, nunca em grupos muito grandes. Mas há certas coisas que, em tempos de guerra, nem toda a preparação e cuidado conseguem evitar, como é o caso da perda de vidas humanas. E apesar do cuidado do nosso capitão, perdemos um furriel e um soldado, que foram vítimas de uma granada, quando estávamos no Miconge, mesmo junto à fronteira com o Congo.
Perigo na berma
Emboscadas também sofremos algumas. Lembro-me de uma a 6 de agosto de 1973, que aconteceu de noite. Fomos apanhados de surpresa porque ali o inimigo não costumava atacar à noite. Mas naquele dia atacou, houve uma troca de tiros no meio da escuridão, um terror... mas tivemos muita sorte: para começar não perdemos ninguém e depois porque sabíamos que na berma, ao longo de 14 quilómetros, estava enterrado TNT. Se alguma bala lá tivesse acertado, tínhamos ido todos pelos ares!
As rotinas dão sempre balas ao inimigo. Eles já sabiam que íamos passar ali... era o que costumávamos sempre fazer.
Ainda assim, continuo a dizer que tivemos muita sorte, porque só sofremos duas baixas e tivemos alguns feridos. Por comparação, a companhia que tínhamos ido render estava completamente destroçada e tinha perdido muita gente. Apesar da sorte, foram tempos terríveis, pelo perigo, pela perturbação e pelas saudades de casa que apertavam. Lembro-me de chegar a uma altura em que eu e os outros tínhamos de olhar para as fotografias para termos a sensação de que ainda nos recordávamos dos rostos daqueles que amávamos.
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