O mal-amadoOs portugueses não vão muito à bola com ele. Como treinador e como jogador, António Oliveira esteve sempre à beira do inferno. Mas sobreviveu a tudo. Eis o retrato do "nosso" seleccionador
Era o tudo ou nada. A 10 de Junho, Dia de Portugal e do 50o aniversário de António Oliveira, a selecção de Portugal decidia o seu destino contra a Polónia. Depois de um catastrófico desempenho contra os Estados Unidos, os Tugas esmeraram-se e golearam um adversário que veio do frio. O seleccionador português pôde, enfim, respirar de alívio e festejar o seu dia de anos como manda a tradição, calando os velhos do Restelo que o queriam ver fora da nau lusitana a toda a força. Se a sua vida desse um filme, o título seria O Acossado, nome de uma das obras de arte do realizador francês Jean-Luc Godard.
Apesar de mal amado pelos adeptos portugueses, e de sofrer na pele as indisposições colectivas de uma nação, o futebol ainda é para António Oliveira, uma forma de «arte», mesmo que não duvide de que se trata de «um fenómeno de massas (ou de porcos sem cabeça)» - Oliveira dixit.
A bola é a sua paixão irracional e uma companheira inseparável desde as primeiras correrias de miúdo, nas ruas de Penafiel.
António não pensava noutra coisa, mesmo se estivesse a servir à mesa do restaurante dos pais, a ter aulas com os padres do Colégio interno, em Ermesinde, ou a actuar em peças musicais do avô. Pouco interessava. O rapaz só se sentia como peixe na água nos campos improvisados, a fintar adversários e a marcar golos.
Este amor pelo futebol levou-o a viajar, às escondidas dos pais, até ao Porto. O maior clube da Invicta precisava de novos talentos.
A sua técnica atraiu os olheiros e aos 15 anos teve a cidade a seus pés. Não tinham razão os seus primos, que não lhe vaticinavam grandes vôos no clube dos dragões. Afinal sempre podia ombrear com os outros «calmeirões».
A viagem de camioneta à cidade das tripas, com o bilhete pago pelo clube, passou a ser a sua rotina diária. O sentimento pelo esférico movia montanhas. O irmão mais velho, Joaquim, dava-lhe a cobertura necessária, mas os pais acabaram por saber das travessuras do juvenil portista. Não terão ficado muito contentes, pois auguravam-lhe outros voos, mas o rapaz prometeu-lhes que completava o 5.o ano do liceu. E assim foi...
Quando ascendeu a júnior, passou a viver no lar do clube. António ganhava então 360 escudos mensais e era uma das maiores promessas do Futebol Clube do Porto. O primeiro treinador a ficar verdadeiramente encantado com ele foi o astuto mestre Pedroto. O mister apostou naquele rapaz de barba e bigode, com aura de rebelde, e pô-lo a jogar à frente, contra os duros defesas. Ele fez-lhes a vida negra. Oliveira ganhou a mítica camisola número 10, tornou-se numa das principais estrelas do palco das Antas e acabou por ser chamado a representar a selecção nacional.
Antes de entrar em campo, tinha duas superstições: ia com a camisola de fora e era o último a pisar o relvado. Se calhar, porque os últimos costumam ser os primeiros.
A estrelinha nem sempre esteve do seu lado. O Porto não era uma cidade muito grande e depressa se espalharam boatos de que era amigo da noite e dos copos. Os adeptos gostavam do génio mas acusavam-no de não dar "o litro" nos treinos e em alguns jogos. Para a posteridade ficou o seu braço de ferro com os dirigentes do FCP, obrigando-os a multiplicarem-lhe exponencialmente o salário. Ganhava a batalha mas não a guerra. Uns anos depois, sairia pela porta pequena. Os responsáveis pelo clube nunca perdoaram a sua rebeldia e frontalidade.
No fim da década de 70 seria obrigado a jogar pelo Penafiel, clube da terra que o viu nascer (a 10 de Junho de 1952), mas que era humilde demais para o seu talento inato. Afinal, Oliveira era ou não era uma espécie de «Figo da época»?
A sua próxima viagem teve como destino a capital, onde conheceu um outro técnico que marcaria a sua vida: o britânico Malcolm Allison. Juntos deram a última dobradinha do século XX ao Sporting.
Os tempos de glória terminaram quando foi obrigado a submeter-se a uma operação aos pés. Oliveira arrumou então as chuteiras.
Ainda jogou e treinou simultaneamente o Penafiel e o clube de Alvalade, mas a forma física não era a mesma. Para os amantes do futebol, ficou a sensação nítida que poderia ter ido mais longe na sua carreira de jogador. Ele conquistou títulos nacionais e taças de Portugal para o FCP e SCP, mas nunca brilhou num campeonato da Europa — falhou o de França, em 1984, devido à lesão que o apoquentava.
Acabaria por compensar as ausências em palcos internacionais, já como treinador da selecção nacional, no Euro 96, em Inglaterra.
Entre estes dois períodos distintos, Oliveira fundou, com o irmão, a Olivedesportos e apostou tudo na profissão mais inconstante e, por vezes, ingrata do mundo. Formou-se como treinador num curso especializado em Inglaterra e, com o know how adquirido, orientou as selecções portuguesas de Sub-21 e Olímpica, o Marítimo, o Guimarães, a Académica, o Gil Vicente e o Sporting de Braga. Nada de muito excitante, portanto. Para a Federação Portuguesa de Futebol, o seu currículo seria mais do que suficiente para o indicar como o homem do leme da selecção nacional, em 1994. Caiu o carmo e a trindade. Os anónimos adeptos falavam em lobbys. E em vez dos aplausos generalizados, Oliveira recebeu impropérios furiosos.
No futebol, passa-se facilmente de "bobo da corte" a herói nacional. Basta ter-se a sorte de ver as bolas a entrarem na baliza. Com o novo mister de Portugal, a selecção foi apurada para o Euro 96 e entrou no grupo restricto das melhores equipas do Velho Continente.
Mas a jornada terminaria com pouca glória. Portugal seria eliminado nos oitavos de final pela República Checa, com um golo soberbo de Poborsky.
É por esta altura que vêm à baila os mal explicados casos Paula e off the record, uma novela à mexicana que envolve prostitutas, confissões e estágios em hotéis. A sua empresa, a Olivedesportos, transmite os jogos do campeonato nacional, causa invejas e polémicas. Política, "clubites" e interesses financeiros são chamados à baila. «O futebol serviu sempre interesses pessoais», declarou o próprio recentemente.
Tetracampeão, carago!
Pinto da Costa, que levava em ombros o seu FCP, contratou de imediato o ex-portista para chefiar o seu banco. Oliveira agradeceu e deu-lhe o tri e o tetra campeonato tão almejados. Curiosamente, os mal-entendidos com as cúpulas dos dragões repetir-se-iam, décadas depois. O homem que tem a maior colecção privada de quadros de Resende, saiu algo aborrecido com o clube das Antas e experimentou, sem muita glória, uma época no estrangeiro, no Bétis de Sevilha.
O filho pródigo regressaria à selecção. António Oliveira tinha como missão atingir o Mundial da Coreia e do Japão, em 2002 e rejuvenescer o plantel das quinas, com vista a vencer o campeonato da Europa, a realizar-se em Portugal, em 2004. Os Tugas provaram que eram uma das melhores equipas do mundo e apuraram-se facilmente. O pior estaria para vir depois.
Antes da viagem para o extremo-oriente, casou-se com Ivete - a 11 de Maio, dia do aniversário daquela que já era sua companheira há vários anos. Oliveira já trazia quatro filhos de outro casamento, enquanto a sua mulher, tinha dois, «frutos de separações de há longos anos».
Os momentos de felicidade terminariam dias depois, no jogo de estreia do Mundial contra os EUA. O inferno desceria à terra e a equipa “de todos nós” seria chacinada por três mísseis norte-americanos. Nesse mesmo dia, os portugueses já queriam a cabeça daquele senhor nortenho numa bandeja de prata . Engoliriam a sua raiva, no Dia de Portugal, depois de festejarem a goleada contra os polacos.
Como diria o próprio Oliveira, afinal, «um golo é sempre um orgasmo.» Então, o que dizer de quatro?
E mesmo que a aventura da Coreia não termine com o happy end desejado, o treinador da selecção portuguesa sabe que para além da família tem à sua espera, em Portugal, cinco companheiros inseparáveis: a Queen, o Bernardo, o Husky, o Patinhas e a Pandorca, os seus fiéis amigos caninos.
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