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Onde os maus rapazes aprendem a ser melhores

É o centro educativo mais remoto do País. Ali estão detidos jovens que cometeram crimes. Cumprem pena mas também aprendem o que não puderam ou não quiseram aprender cá fora.

07 de março de 2010 às 00:00

No Centro Educativo do Mondego o dia começa cedo. Às sete horas os jovens já estão de pé e prontos para as aulas de formação obrigatórias. Ali há regras, muros altos e arame farpado, como numa prisão. Mas há também momentos lúdicos. Momentos absorvidos sofregamente por quem tem a liberdade condicionada.

Humberto, de 17 anos, garante que nem tudo é tão mau como parece. "Estamos aqui fechados, mas é uma segunda oportunidade. Só custam os primeiros dias". É de Paço de Arcos, entrou no Centro do Mondego em 2007 e só sairá em Março de 2012. Cumpre uma pena em regime semiaberto por furtos. "Arrependo-me de tudo. Estou aqui fechado".

Humberto está a tirar um curso profissional. Quer ser electricista "um dia, quando puder passar o enorme portão verde do Centro", afirma com os olhos postos na janela.

Estamos sentados numa sala, afastados por uma enorme mesa de madeira castanho-chocolate. Para lá do muro estende-se a paisagem verde. O centro, uma casa estilo senhorial, de dois andares e grades nas janelas, foi erguido numa extensa propriedade. Depois do arame farpado há campo e mais campo e o rio, a uns 900 metros da instituição.

Humberto não é de muitas palavras. Enquanto olha pela janela diz que acorda e dorme a pensar na liberdade. Abre e fecha o fecho do casaco azul do fato de treino com que estava a jogar futebol. A visita da Domingo serviu de desculpa para que os jovens tivessem direito a um intervalo mais alargado durante a tarde.

O jovem de Paço de Arcos ganhou um prémio por ter escrito sobre música erudita para um projecto da Direcção de Reinserção Social, que visa a reinserção através da música. "Escrevi com dedicação, apesar de não ser o tipo de música que oiço normalmente." Prefere a Beyoncé. Dentro dos muros altos do Mondego foi a voz da americana que lhe que lhe deu coragem e fé para aguentar.

Como Humberto, mais 26 jovens cumprem neste centro educativo, em Cavadouce, uma pequena localidade do distrito da Guarda, medidas tutelares educativas (penas) por terem cometido crimes. São jovens que foram apanhados a roubar, a conduzir sem carta, por agredirem alguém ou traficarem droga. Tinham menos de 16 anos na altura em que praticaram estes actos. A maioria pertence a famílias desestruturadas, oriundas de meios sociais desfavorecidos. Chegam da Grande Lisboa, do Grande Porto ou do Algarve, por decisão de um Tribunal de Família e Menores com a convicção de que um erro na vida não pode significar uma vida de erros.

É tabu falar em fugas – fala-se em ‘ausências não autorizadas’. Mas, em 2009, registaram-se 24. O dobro destas ‘ausências não autorizadas’ de 2008.

Lá dentro, o crime pelo qual a maioria mais responde é o furto. Motivo pelo qual Josué, de 15 anos e oriundo da Amadora, veio ali parar. Está em regime semiaberto e se mantiver o bom comportamento deverá sair em Maio. Entrou em 2008 e sonha em ser mecânico – gosta de carros. "Estou muito arrependido. Foi difícil habituar-me a estar aqui internado. O primeiro mês custou muito". Por que trilhou maus caminhos? Josué diz que não sabe. "Talvez as más companhias", responde inquieto. Cruza e descruza os braços. Lembrar o passado perturba-o. Limpa o suor da testa. Olha para baixo, como se estivesse envergonhado. Diz que lamenta o sofrimento dos pais.

Josué e Humberto fazem parte do grupo de 22 jovens que cumpre as ‘penas’ no regime semiaberto. Há mais seis rapazes em regime fechado (ver caixa). Têm idades entre os 14 e os 20 anos. Quando passam do portão verde para dentro, começa uma nova história nas suas vidas.

O portão fecha-se. Do lado direito há o refeitório, salas de aulas para a formação prática e a parte administrativa da direcção da instituição. Do lado esquerdo ficam os dormitórios e as salas para as aulas teóricas – a matemática, o português e a leitura. Os jovens do regime semiaberto não convivem com os do fechado. Dormem em camaratas. Mas é também deste lado que funciona toda a ala do regime fechado. Sobe-se ao primeiro andar onde a porta vermelha blindada é guardada por um segurança. É aqui que estes jovens têm aulas e dormem. Cada um tem o seu quarto, fechado com portas de largas trancas e vidros espessos blindados. À noite, as portas são trancadas. Se algum precisar de ir à casa de banho ou de cuidados médicos toca uma campainha ligada ao quarto dos monitores. Não pode haver dois jovens a sair ao mesmo tempo.

As aulas são à porta fechada e supervisionadas por um segurança. Às 15h30, os seis rapazes da ala em regime fechado treinam a leitura. A presença dos jornalistas agita B. Vira-se contra a parede e protesta a máquina fotográfica. "Vêm aqui porquê? Para dizer lá fora que aqui há criminosos?!" O professor pede ao segurança que o leve para o quarto.

Os jovens em regime fechado raramente saem da sua zona. Só cruzam aquelas portas blindadas para ter aulas de carpintaria num barracão preparado para o efeito. Em fila, acompanhados por dois seguranças e dois técnicos, chegam a um outro portão. São revistados e passados por um detector de metais à saída e à entrada, enquanto cruzam os braços atrás da cabeça. Em silêncio, entram um a um, numa outra zona cercada de arame farpado. Ali funciona a oficina.

Os técnicos e formadores trabalham para os fazer romper com a vida anterior. Eles percebem isso. Uns aceitam, outros não e tentam a fuga. O início do período de adaptação traz reacções adversas. Cada um tem um plano individual, mas respondem a regras e a rotinas comuns: o acordar às 7h00, o deitar às 21h00, as aulas e a limpeza dos quartos e casas de banho.

Há quatro áreas de formação – pintura da construção civil, serralharia, carpintaria, electricidade. A escolaridade dos jovens é muito baixa.

Mestre Coelho, como é conhecido António Alcides Patrício Coelho, de 47 anos, trabalha no centro há sete anos. "Quase sempre me esqueço da palavra delinquente. Não lhes pergunto o que fizeram, nem a medida. Para mim são seres humanos". O seu pai por ali passou. "Ele era órfão e tinha muitos irmãos; entrou nesta casa em 1932. Aprendeu música e a arte da carpintaria. Por isso, sou parte desta casa". Mestre Coelho dá formação ao regime fechado e semiaberto. "Tento ensinar-lhes uma profissão, mas como formador acabo por ser um amigo. A autoridade é feita pelo segurança que os acompanha", diz.

O mestre é confidente. Falam-lhe do medo do que os espera lá fora. "Muitos acabam mesmo na prisão. A reincidência é grande, muitos saem sem um amparo".

Os seis rapazes da ala fechada estão a preparar a construção de um sofá. Cortam a madeira que lhe vai dar a forma. Enquanto mestre Coelho fala, os jovens executam as tarefas, cabisbaixos – olham sempre para baixo. "São revoltados e mostram-no da pior forma, sendo agressivos às vezes".

Numa das salas do centro está exposta na parede uma obra assinada por mestre Coelho. Um vidro estilhaçado, enquadrado numa moldura. "Num acto de loucura, um jovem do regime fechado partiu um vidro blindado da porta do quarto. Nem sei como o fez porque são vidros preparados para suster qualquer força".

São 19 horas, anoitece. À saída devolvem-nos os telemóveis, tabaco e isqueiros que lhes demos quando entrámos.

REGIMES DE INTERNAMENTO

Regime aberto: Jovens podem sair do centro sozinhos, com os horários controlados, estar com a família ao fim-de-semana e ter férias até 15 dias seguidos. Regime semiaberto: Podem sair acompanhados por um monitor mas não têm fim-de-semana ou férias. Regime fechado: Deitam-se cedo, não têm regalias e estão enclausurados. Os quartos, individuais, têm portas blindadas. 

PROBIDO FUMAR, PIERCINGS E ANDAR SÓ

Cada centro educativo tem um regulamento próprio, elaborado de acordo com a lei. Por exemplo, neste centro é proibido fumar. Se os jovens forem apanhados a fumar podem sofrer sanções disciplinares e ir a tribunal. Também não é permitido piercings – que podem funcionar como moeda de troca para favores. Quando os que estão em regime aberto ou semiaberto vêm de fora são revistados – procuram-se drogas e armas. As roupas são postas nos cacifos, aos quais os jovens não têm acesso. Não são permitidas outras roupas para além dos fatos de treino cedidos pelo centro. Só podem andar em grupo. 

NOTAS

193

Existem 193 jovens a cumprir pena nos seis centros educativos do País. Apenas 17 são raparigas.

CENTROS

Este ano vão abrir portas mais dois centros: um na Madeira e outro em Vila do Conde.

MAIO

Estes dois centros, previstos abrir em Maio, representam mais 42 e 56 vagas.

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