No início de um novo ano, o pessimismo nacional dá lugar à esperança. Um optimismo que pode, quando aplicado a todos os dias do ano, ser a solução para conseguir um futuro mais cor-de-rosa.
A rotina é sempre a mesma. Ao bater da meia-noite do primeiro dia do ano, de taça em punho, com as 12 passas nas mãos, pedem-se desejos, criam-se esperanças, desenham-se ilusões. E espera-se. Espera--se que a realidade faça jus ao velho ditado, que o ano novo seja mesmo vida nova, que os melhores dias, há tanto desejados, cheguem finalmente.
É o chamado optimismo do novo ano que, no entanto, é sol de pouca dura. Pelo menos para os portugueses, a maioria dos quais pouco optimista em relação aos dias que virão.
Para muitos, 2006 será mais do mesmo, com iguais problemas, dificuldades e tristezas, um futuro em que o tom dominante vai continuar a ser o negro. A confirmá-lo estão os números de uma sondagem Correio da Manhã/Aximage. Segundo os dados recolhidos em Novembro, 49,1 dos portugueses acredita que a economia nacional vai piorar e 48,4 por cento não tem perspectivas de melhorar a sua própria situação financeira. Apenas 21,6 por cento se mostrou confiante na chegada de melhores dias, enquanto que para 19,6 por cento tudo vai continuar na mesma.
Se é pessimista a ideia que têm em relação às finanças nacionais, o cenário piora quando se trata dos dinheiros de cada um. Apenas 13 por cento dos interrogados está confiante numa melhoria, enquanto 33,1 por cento considera que vai ficar tudo na mesma ao longo do próximo ano.
Números que dão conta dos baixos níveis de optimismo nacional, o que nos torna uma das cinco nações mais pessimistas do Mundo, segundo dados recolhidos em 60 países pela Gallup.
Pensar positivo pode ser a receita há muito procurada para ter um futuro mais risonho. Diz quem sabe que ter uma atitude optimista tem vários benefícios. “Sabe-se que os optimistas têm menos probabilidade de adoecer e apresentam recuperações mais rápidas”, confirma Helena Marujo, psicóloga e uma das autoras do livro ‘Educar para o Optimismo’. “Do ponto de vista da saúde mental, o optimismo permite um equilíbrio psicológico e previne a depressão. E há ainda uma ligação à vida profissional. O critério mais importante para o sucesso e diminuição do stress é o optimismo.”
A estas afirmações juntam-se trabalhos de especialistas de todo o Mundo, que o confirmam. Um deles, realizado pela clínica Mayo, de Nova Iorque, que envolveu 839 pessoas, verificou que os optimistas vivem mais 19 por cento que os pessimistas. Ao longo de 30 anos de pesquisa, confirmou-se que a saúde não depende apenas de valores físicos, mas tem também a ver com a atitude com que as pessoas enfrentam a vida.
E mais. C. Zinder, professor de psicologia da Universidade do Kansas, concluiu, depois de um estudo, que o rendimento académico de um aluno depende mais da sua atitude do que do seu coeficiente intelectual. Ou seja, os melhores resultados nas faculdades são conseguidos pelos alunos com uma atitude optimista e positiva.
Outro trabalho, realizado também nos Estados Unidos, dá ainda conta que o pensamento positivo reduz a incidência de problemas cardíacos. Uma avaliação feita a um grupo de homens com mais de 60 anos verificou que aqueles que encaravam a vida com optimismo tinham menos casos fatais de ataque cardíaco ou angina de peito, quando comparados com os pessimistas.
No entanto, a maioria dos portugueses parece alheio a estas vantagens. “Em teoria, começámos por ser um país que se lançou à descoberta, que acreditou em coisas melhores e as procurou. Até que se deu o terramoto de 1755, considerado pela filosofia como o fim do optimismo na sociedade europeia. E se foi capaz de mexer tanto com os intelectuais, mais mexeu com o povo que o viveu. Por isso, acreditamos que dez gerações, que foi o que passou desde então, podem não ter sido suficientes para trazer transformações psicológicas, em particular nas atitudes perante a vida”, conta a psicóloga.
Desengane-se quem pensa que o pessimismo é para toda a vida. É possível inverter a tendência e olhar para a vida com outras cores. É tudo, diz Helena Marujo, uma questão de educação. “Eu a e a minha equipa temos feito milhares de acções de formação para o optimismo e temos projectos com avaliação científica que mostram que adultos, crianças ou adolescentes são passíveis de ser educados para posições mais positivas. Temos desenvolvido projectos para levar as pessoas a perceber que podem escolher a forma como encaram as situações.”
Por isso, mais vale transformar em rotina o optimismo típico da entrada num novo ano. Isto porque, como refere a especialista, “se procurarmos o lado bom das coisas, vamos acabar por encontrá-lo.”
PREVISÕES MAIS E MENOS POSITIVAS
"2006 será um ano difícil em termos económicos. Prevê-se maior pressão nas famílias através do aumento das taxas de juro.", Fernando Castro, Presidente da Associação de Famílias Numerosas.
"Gostava que os portugueses tomassem consciência das situações de profunda injustiça social que existem entre nós.", Inês Fontinha, Directora da Associação 'O Ninho'.
"A Santa Casa tem que encontrar resposta para as graves carências sociais e para os fenómenos de exclusão de Lisboa.", Rui Cunha, Provedor da Santa Casa da Misericórdia de Lisboa.
"Gostaria de ver alterações à lei da imigração, para permitir a melhor adequação às necessidades de integração dos imigrantes.", Rui Marques, Alto Com. para Imigração e Minorias Étnicas.
"Espero que haja paz, sossego e que as pessoas sejam conscientes e que ajudem a contribuir para um Mundo melhor.”, Manuela Rilvas, Presidente da Liga Portuguesa contra o Cancro.
"Para 2006 prevejo boas perspectivas: abertura de novos centros de acolhimento e de uma casa para 12 pessoas acamadas.", Margarida Martins, Presidente da Associação Abraço.
Dizem os especialistas que se pode aprender a ser positivo. Para isso, há que tentar seguir algumas regras básicas, receita para se ser mais feliz.
FAZER COM PRAZER
Gostar do que se faz é meio caminho andado para uma vida mais feliz. E para se conseguir satisfação é preciso escolher uma profissão compatível com as capacidades de cada um. Para além disso, há ainda que ter objectivos e metas a alcançar, projectos a pequeno, médio e longo prazo.
EVITAR O PESSIMISMO
Ao viver situações de muito stress, medo ou irritação, é preciso exercitar o pensamento positivo para conseguir reduzir a tensão, que nas faz apenas mal ao corpo, mas também deixa mazelas na alma. E uma das melhores formas para o conseguir é desviar a atenção para algo positivo.
CAPACIDADE DE RIR
De acordo com os especialistas, rir é o melhor remédio. O riso é considerado um mecanismo saudável que possibilita que as pessoas se afastem de acontecimentos desagradáveis ou tristes e se envolvam em emoções saudáveis e sociais. Quando conseguimos rir das nossas desgraças, superamo-las.
CONTROLAR A SITUAÇÃO
Para preservar a saúde mental em situações negativas é preciso reconhecer o nosso próprio poder em qualquer situação adversa, determinar qual é a nossa responsabilidade para resolver a situação, não ser alarmista e não permitir que um problema passe a influenciar o nosso comportamento.
OPINIÃO DA JORNALISTA DULCE GARCIA
NÃO PEÇAS NADA
Este ano não pedi nenhum desejo. Mas como custa abandonar velhos tiques, vi-me ainda com a boca cheia de passas, poucos segundos depois do ecrã da televisão rebentar em foguetes de ano novo.
Não gosto de passas. Mas também não gosto de viver num País onde há tanta falta de civismo, e vivo. Daí que as passas sejam o mal menor. Comi-as à pressa, para evitar tomar-lhes o gosto. E só depois do sacrifício me lembrei do prazer – os desejos. Ainda não se fez nenhum ranking dos mais populares entre os portugueses. Mas arrisco uma previsão.
Primeiro: saúde. Uma desgraça. E como pela boca morre o peixe, comecemos pelos dentes – o último relatório da Direcção-Geral de Saúde, de 2002, diz que existem apenas 502 estomatologistas e um médico dentista nos 90 hospitais públicos e 354 centros de saúde do País. Ou seja: quem não tem dinheiro morre de vergonha de sorrir. E queixam-se de sermos um povo taciturno…
Segundo desejo: dinheiro. Não temos, é verdade, mas salvam-nos aqueles cartõezinhos plásticos que se metem numas ranhuras e deitam cá para fora notas de euro. Querem ver? Este Natal a rede Multibanco bateu o maior recorde de sempre. No dia 23 de Dezembro foram levantados no País mais de 115 milhões de euros. Bestial. Também batemos mais uma vez o campeonato dos SMS: mais de 300 milhões de mensagens escritas e enviadas por telemóvel em 4 dias.
Agora as más notícias: em 2006 os aumentos da Função Pública deverão ficar-se pelos 1,5 por cento, ao passo que a inflação só não ultrapassará os 2 por cento por milagre (daqueles que se fazem no Orçamento). Os mais de 700 mil portugueses que trabalham para o Estado darão assim mais um passo rumo ao abismo. E não há passas nem desejos que os salvem.
O terceiro pedido – e único que vale a pena fazer – é mais amor. Porque aqui, nem o primeiro-ministro, nem o presidente do Banco de Portugal, e muito menos o responsável pelo Banco Central Europeu podem meter o bedelho. Mas pensando melhor, amor também não se pede, ganha-se.
Razão tinha Confuciu (pensador chinês) quando disse “deseja tudo, espera pouco e não peças nada”. Foi o que fiz este ano. Pode ser que assim ganhe alguma coisa.
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