Barra Cofina

Correio da Manhã

Domingo
8

"Os ataques do inimigo eram uma constante"

Luís Ferreira foi para a guerra rapaz e por lá se fez homem. Escapou ileso no corpo mas não arrumou as memórias. São muitas. Tristes e felizes.
14 de Fevereiro de 2010 às 00:00
A secção a que eu pertencia já estava a meio da missão
A secção a que eu pertencia já estava a meio da missão FOTO: Direitos reservados

É a bordo do navio ‘Niassa', à saída de Lisboa, a 8 de Outubro de 1964, que começa a nossa primeira grande aventura. Fomos transportados nos porões sem quaisquer condições, em beliches sem roupa nas camas e a comida era-nos servida no convés em marmitas de campanha. Os banhos eram em casas de banho improvisadas, com a água bem fria. Passaram-se seis dias de viagem.

Éramos rapazes preparados para a desgraça a caminho da Guiné. À chegada a Bissau as péssimas condições mantiveram-se: As nossas cadeiras para a refeição eram o chão e algumas vezes até saltavam pequenos sapos para as marmitas. Daqui fomos para a ilha do Como, bastante conhecida pela célebre ‘Operação Tridente'. Com a nossa chegada rendemos uma companhia que tinha ficado na ilha após ter terminado a operação. Sem quaisquer condições tivemos de viver em abrigos e casernas feitas com troncos de palmeiras e cobertas com chapas. Na ilha não havia água doce. Existia um poço de água salobra com a qual tínhamos de tomar banho com a ajuda de um balde. Lavávamos a roupa numa celha feita de um barril de cem litros, que vinha de Catió nas lanchas. Tínhamos que aproveitar a maré.

A azáfama diária era grande no cais de desembarque. A cerca de 800 metros o transporte era feito com bastantes dificuldades pois a estrada ficava lamacenta, impossibilitando o acesso. Também cortávamos centenas de palmeiras para fazermos a estrada com troncos. Era muito complicado viver assim. Quando chovia era uma festa porque podíamos tomar banho com água doce, de chuveiro. Nesta ilha vivia o famoso comandante Nino Vieira. Mas nós éramos comandados pelo tenente Proença, um homem recto e humano que não fazia diferença entre soldados e superiores. Por exemplo, a comida: Era feita igualmente para todos. Assim que ele deixou o comando as diferenças foram notórias _- houve logo separação: Rancho para os soldados e cantina para os superiores. Certo dia a lancha avariou - lá se foi a água doce para a comida.

Tivemos de recorrer à água do poço para beber e veio a ordem do senhor Varão - uma cerveja para cada homem. O problema é que o sargento protestou e disse que não havia verba para tanta bebida. A juntar a este sofrimento, durante dez meses, o resto do tempo foi passado em Catió como companhia de intervenção e em luta directa com o inimigo. Passámos momentos muito difíceis, como daquela vez em que nos morreu um alferes em combate, com um tiro no peito. Nessa vez deitámo-nos todos e por isso os bombardeios não nos atingiram, foi o que nos safou. Ou da outra vez, em que fomos bombardeados pelo Navio da Marinha de Guerra que feriu dois camaradas e matou um.

Claro que também houve alguns momentos muito felizes, porque havia contacto com as populações. Passámos, inclusive, tempo com as lavadeiras, que lavavam as nossas fardas. Mas por muito bons que tenham sido esses momentos eles não apagaram da memória as baixas que sofremos. Os ataques eram constantes, principalmente à hora de almoço: Lá vinham umas morteiradas e umas rajadas mas felizmente foram-nos passando ao lado, fomo-nos safando do pior.

Uma das situações que mais me marcou passou-se na noite de Natal de 1964. Estávamos nós em clima de grande festa com o furriel Brás, que tocava no seu violão acompanhado por alguns camaradas que mostravam dotes de bons cantores, quando somos interrompidos por um ruído ensurdecedor. Devia ser perto da meia-noite quando rebentou um daqueles ataques que nos estragou a noite. Fugimos logo para os nossos abrigos para nos defendermos. Felizmente não houve feridos mas a noite não voltou à animação que estava. Nos meus tempos de guerra estive 11 meses em Como e um ano no Catió. Passei por várias funções: estive dez meses na cantina - como já tinha experiência de hotelaria não tive problemas - e passei pelas guardas e operações. Claro que era um risco. Temi pela minha vida. Um dos dias mais difíceis foi quando fomos bombardeados e tivemos de passar a noite dentro de água, num arrozal.

Tive medo, claro que tive. Mas são momentos que ficam gravados, não se esquecem. Com 13 camaradas criámos a ‘Tabanca dos Amigos do Bem', juntávamo-nos a fazer os aerogramas para as namoradas, que eram as madrinhas de guerra - eu tinha três ou quatro -, a jogar às cartas, a conversar. Guardo as lembranças das peripécias que com eles passei. E sempre que nos encontramos recordamos esses tempos da guerra, a nossa guerra, que nos marcou para a vida.

DA GUERRA PARA O COMÉRCIO

Luís Ferreira é natural de Arganil mas vive em Lisboa. Trabalhou na indústria hoteleira, antes e depois da Guerra Colonial, mas no ano de 2000 abriu uma loja de lingerie na avenida Almirante Reis, no centro da capital. Casou depois da guerra com a actual esposa e é pai de dois rapazes a quem faz questão de contar as histórias da ‘sua' guerra. 'Um deles até já foi comigo aos encontros dos ex-camaradas da Guiné. Costumamos fazer um almoço por ano, fiz boas amizades na guerra e é bom estar com eles a recordar tempos antigos. Pena alguns já terem desaparecido'.

PERFIL

Nome: Luís Antunes Ferreira

Comissões: Guiné (1964/66)

Força: Companhia de Caçadores 728

Actualidade: Tem 66 anos e vive em Lisboa

Ver comentários
}