A violência doméstica não é um exclusivo das mulheres. Eles também são vítimas e denunciam cada vez mais os abusos
Manuel, 43 anos, natural de Setúbal, acha que foi vítima de maus tratos infligidos pela mulher desde o início do casamento, que durou 11 anos. ‘Acha’ porque, na realidade, só depois de falar sobre o sofrimento dos seus dias com um técnico da APAV (Associação Portuguesa de Apoio à Vítima) percebeu que os problemas do seu casamento tinham um nome: violência doméstica. Mas neste caso, que está longe de ser único, a vítima era ele, o homem; a agressora era ela, a mulher.
"Ela insultava-me na presença de outras pessoas, até dos nossos filhos. Mas a situação agravou-se muito quando fiquei desempregado. Aí passei a ser a empregada de casa. Ela controlava tudo o que eu fazia. Um dia pôs-me fora do quarto de casal e a partir daí passei a dormir na sala. Sentia-me a pior das pessoas. Dos homens. Eu, que a amava tanto. Nem pelos nossos filhos ela parava. Chegou a maltratar-me fisicamente. Deu-me uma vez uns socos e eu nada. Depois, atropelou-me", recorda Manuel.
E só quando o carro da família lhe passou por cima, os outros reconheceram que havia ali um problema sério: "A minha família achava que eu devia agredir a minha ex-mulher para lhe ensinar o que é um homem. Mas nunca o fiz e isso valeu-me o desprezo do meu pai e dos meus irmãos. Só acreditaram no dia em que ela me atropelou e fui para o hospital por duas semanas", recorda.
Ao longo de 11 anos em que as agressões foram sempre crescendo, o que mais o magoou não foram as feridas do corpo. "Tentei conversar várias vezes com ela, mas não valia apena, porque ela gritava que eu a agredia e depois ria-se. Chamava-me coisas horríveis, em especial em frente aos nossos filhos. Sempre que eu tentava pará-la, ela gritava que eu a fazia sofrer e que ninguém acreditava em mim", confessa.
Manuel, classe média-alta, está separado há três anos e prestes a refazer a sua vida ao lado de outra pessoa. Mas não foi fácil. Aos filhos vai explicando que "o problema era dos adultos, mas que a mãe era a melhor do mundo". Para que cresçam a acreditar que a família não é um campo de batalha.
Manuel saiu de casa com a ajuda da Associação de Apoio à Vítima (APAV), à qual recorreu depois de ver na comunicação social uma entrevista com um dos técnicos sobre outros casos como o seu. Do lado de lá da linha atenderam-lhe o telefone e convenceram-no a aparecer na associação, para receber sobretudo apoio psicológico. "Precisava de falar e falei muito. Às vezes chega isso para vermos onde estamos metidos", garante.
FIM TRÁGICO
Menos sorte teve Fernando Freitas, 75 anos. A notícia da sua morte, em Novembro do ano passado, teve honras de primeira página nos jornais.
Fernando morreu na rua de Vila Chã, Vale de Cambra (São João da Madeira), à porta da moradia onde sempre viveu com a mulher e onde, segundo os vizinhos, as discussões eram constantes.
Um mês antes da morte, os bombeiros voluntários de Vale de Cambra foram chamados para transportar Fernando ao hospital, devido a uma agressão mútua que lhe causou escoriações graves.
Razões de ordem económica, alvitrou a vizinhança, estariam na origem dos desentendimentos frequentes entre o casal – que era proprietário da empresa Almeida e Freitas, em Vale de Cambra, do ramo da comercialização de embalagens metálicas e de alumínio – e que estaria a atravessar uma grave crise financeira.
Daniel Cotrim, psicólogo da Associação Portuguesa de Apoio à Vítima, discorda, porém, que o argumento da crise seja apontado como responsável pelo aumento dos números negros da violência doméstica em Portugal. "O que a crise pode trazer é mais dificuldades às vítimas em autonomizarem-se. O que existe agora é mais denúncias, porque a problemática também está a ser mais divulgada, bem como a acção da associação", justifica.
Naquele dia, ninguém sabe explicar o que levou Fernando a colocar-se em cima do capô do carro da mulher para a impedir de se deslocar a uma consulta médica. Sabe-se apenas que ela pôs o carro em marcha e mesmo com a vítima caída à sua frente, no chão, acelerou e passou-lhe por cima. Os ferimentos graves de Fernando Freitas foram-lhe fatais.
Em seguida, Maria Alice Almeida, 71 anos, entrou em casa e tentou suicidar-se. Nunca deu qualquer justificação para o seu acto.
MORTE É FREQUENTE
Segundo os últimos dados da PSP sobre esta temática, um terço dos homicídios registados anualmente ocorrem em contexto conjugal. Das 8693 vítimas de crime que recorreram aos serviços da APAV em 2011, 16 por cento eram do sexo masculino, ou seja 1390 vítimas.
Casos como o de João F., de Coimbra, que também conseguiu escapar a um casamento violento, mas só depois de ver os filhos criados.
"A minha mulher sempre foi muito instável psicologicamente. Teve uma infância complicada, sofreu maus tratos, viu o pai morrer. Nos últimos anos, ela até ia às vezes ao psicólogo, mas nunca melhorou porque tão depressa ia como deixava de querer ir. Eu, por causa disso, sempre lhe fui desculpando tudo e sempre tive esperança de que ela melhorasse e mudasse", conta o ex-comerciante, de 56 anos.
Agora João está desempregado. Ou melhor, ficou desempregado no momento em que assinou o papel do divórcio, pois durante 23 anos de casamento trabalhou sempre no negócio da família dela, uma mercearia. E era lá que muitas das cenas de pancadaria aconteciam. "Quando ela estava mais agastada ou mais nervosa atirava com tudo ao ar. Chegou a partir uma caixa registadora. Uma vez, tive de levar 16 pontos na cara, porque atirou-me com um peixe congelado à cara", recorda João.
Em casa era diferente, talvez pela presença dos três filhos do casal: "Ela tentava controlar-se mais à frente deles, mas era muito dominadora e arranjava sempre argumentos para provocar discussões. Discutíamos muito. Não era bom para ninguém, mas sempre achei que não devia deixar os meus filhos sozinhos." Até ao dia em os filhos já estavam crescidos e João F. se cansou e bateu com a porta de vez, apoiado por uma irmã, com quem vive actualmente.
"Depressão, baixa auto-estima e problemas psicossomáticos" são os principais sintomas da vítima e eles, tal como elas, têm grande dificuldade em perspectivar a saída do lar "por causa dos filhos e pela ideia de que tudo pode melhorar", afirma o psicólogo da APAV.
Quando as vítimas são eles, a vergonha esconde mais os rostos das histórias. "Os homens ainda sentem muita vergonha de falar deste tipo de situações e, sobretudo, acham que as instituições não estão preparadas para os receber e apoiar. Mas a verdade é que já estão bastante sensibilizadas para este tipo de vitimação que não é assim tão incomum", assegura o especialista.
Nem sempre a violência doméstica é perpetrada pelo cônjuge, apesar deste ser o caso mais comum.
Almerindo T., 84 anos, viúvo, passou a viver com o filho e com a nora desde que sofreu um AVC e ficou com a sua autonomia comprometida. A situação não era do agrado da nora, e Almerindo conheceu essa triste realidade na pele. "Traste, empecilho, velho jarreta", chamava-lhe ela. Dizia que ele só existia para lhe complicar a vida. Humilhava-o à frente do filho e dos netos quando tinha de gastar dinheiro em fraldas para a incontinência. Deixava-lhe pão duro e bolachas para o almoço. Durante as férias da família ficava sozinho em casa. Almerindo nunca disse nada a ninguém, nem tão pouco conversou com o próprio filho, porque tinha consciência de que não tinha mais nenhum sítio para onde ir.
O seu suplício durou seis anos, mas a libertação chegou com a possibilidade de entrar para um lar. Quando lá chegou estava "deprimido e desnutrido, não tinha grande vontade de conviver. Passava muitas horas calado e sozinho", conforme recorda a assistente social Carla Martins. Só a muito custo a técnica conseguiu arrancar-lhe a verdade e encaminhá-lo para uma psicóloga. Agora, Almerindo passa 365 dias por ano no lar. Recebe, esporadicamente, apenas a visita do filho.
CASOS DE FAMOSOS TAMBÉM VÊM A PÚBLICO
O ex-‘James Bond’ Roger Moore, actor inglês de 84 anos, revelou recentemente que foi vítima de violência conjugal nos dois primeiros casamentos. A primeira mulher, a patinadora Doorn Van Steyn, agredia-o com um bule de chá e arranhava-o. A segunda "tinha muito mau feitio" e, um dia, chegou a atirar-lhe uma guitarra a cabeça.
Dorothy Squires era de tal forma violenta que chegou mesmo a esmurrar o médico pessoal do actor, respondendo em tribunal pelo caso. Mas Roger Moore não está sozinho. Em Portugal, o jovem João Mota, modelo que se tornou conhecido no programa ‘Casa dos Segredos’, também confessou ter sido continuadamente agredido pela namorada.
VIOLÊNCIA NUMA ALDEIA DE SINTRA
A violência doméstica mais frequente é a que tem o homem como agressor. Um dos casos mais recentes terminou em crime na aldeia de Tala, concelho de Sintra, a 16 de Agosto último. Em desespero, Hugo Alves, de 20 anos, pegou na caçadeira do pai e alvejou-o mortalmente, depois deste ter tentado matar os irmãos mais novos. O jovem entregou-se logo na esquadra da PSP do Cacém.
Há muito que a tragédia se insinuava no sítio onde José Alves vivia com a mulher e os nove filhos, dos cinco aos 30 anos. A mulher aguentava-lhe as "tareias com o cabo da vassoura, com os punhos, com o que viesse à mão", conta Cátia Alves, uma das filhas. Os filhos assistiam e suportavam-lhe a vida errante, os maus tratos físicos e psicológicos: "Estava sempre aos encontrões, a falar-nos mal, a atirar as coisas pelo ar".
Quando estava sóbrio, prometia mudar. Invariavelmente, voltava sempre ao mesmo. Um dia, depois de quase três décadas "a acordar quase todos os dias com os olhos negros", com o apoio da segurança social, a mãe fugiu finalmente . Terá sido por vingança que guiou o tractor em direcção aos filhos de 13 e 15 anos. Hugo, que assistiu a tudo de uma janela, pegou numa caçadeira.
NOTAS
VÍTIMAS
A esmagadora maioria das vítimas (91,4 por cento) tem nacionalidade portuguesa.
CRIMES
As ofensas à integridade física simples (49,8%) e os crimes de maus tratos (21,2%) lideram.
QUEIXAS
Cerca de 58 por cento das vítimas assistidas pela Associação de Apoio à Vítima apresentaram queixa à polícia.
MORTES
Em Portugal, um terço dos homicídios acontece dentro do contexto familiar.
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