Há cada vez mais pessoas que não viram as costas a um animal em sofrimento. E que fazem tudo para lhes arranjar uma casa.
O mais frequente é virar a cara, carregar no acelerador e fingir que não se viu o animal que caminha desaustinado à beira da estrada, ou apressar o passo e tapar os ouvidos a um miado aflito. Mas há excepções. Há quem pare o automóvel e abra a porta para que o cão entre. Ou se agache tentando cativar o gato assustado debaixo do carro.
Segue-se uma campanha para arranjar-lhes casa com recurso a ‘mails’, mensagens de telemóvel, conversas com amigos e colegas de trabalho. A maior parte das histórias acaba quando o primo do cunhado de um amigo está disposto a merecer o animal e a dar-lhe casa digna.
O David estuda na Caparica e vive em Lisboa. Naquele dia, na paragem do autocarro junto à Universidade, viu um gato bebé com os olhos praticamente colados. Batia com a cabeça no muro. O David não seguiu no primeiro autocarro que passou. Foi buscar o gato, meteu-o no bolso do casaco e seguiram os dois para Lisboa.
O rapaz falou acerca do animal a toda a gente que conhecia. Acabou por entregá-lo a um empregado do marido da irmã. O casal e o gato mudaram-se entretanto para Ibiza. O David recebe com frequência fotografias do felino.
Quando a família do Putchy decidiu mudar de casa, e de vida, destinou o cão ao canil municipal de Lisboa, onde seria abatido. Ana Maria Santos soube disso em conversa com a vizinha. “Eu via o cão muitas vezes na rua. Brincava com ele. Ia custar-me muito deixar que o abatessem. “Ia custar-lhe mais viver com isso do que acolher o Putchy temporariamente em sua casa, enquanto tentava encontrar-lhe um lar permanente. Foi o que fez.
“Pedi a uns amigos que lhe tirassem fotografias digitais e enviei-as para sites na internet onde se promovem adopções de animais abandonados.” Não foi logo nos dias seguintes mas o Putchy acabou por ganhar nova família. Pôde mesmo escolher entre duas candidatas.
"O MAIS IMPORTANTE É TER PACIÊNCIA
O apartamento de Helena Cristina, professora, já serviu de entreposto a muitos gatos em trânsito. “O mais importante é ter paciência e não entrar em desespero se não conseguirmos logo entregá-los. Acabamos sempre por encontrar alguém que fique com os animais.”Diz-lhe a experiência que as histórias de resgate de bichos abandonados ou em sofrimento acabam bem. Helena já encaminhou cinco gatos bebés, “quatro brancos e um malhado”, cujo primeiro ‘berço’ foi uma caixa de leite.
Entregou-os a uma rapariga de Cantanhede. Encontraram-se a meio caminho, numa estação de serviço. “Não me esqueço da viagem porque os gatinhos miavam sempre que ligava a música.”Estes anjos da guarda dos animais aflitos são tenazes. Não desistem diante da primeira dificuldade.
Carolina Martins, de 60 anos, também não. Sabendo que vários sites divulgam pedidos de auxílio a animais em perigo, Carolina, a quem recentemente morreu, aos 16 anos, o gato Alex, aprendeu o que era preciso para navegar na ‘net’. Foi assim que encontrou e levou para casa o Thomas. Coube-lhe um nome com ‘Th’ e vários apelidos com apóstrofo em homenagem a um antepassado da família.
Num país onde as férias dos donos são de pesadelo para gatos e cães, abandonados aos milhares na altura do Verão, também há quem, como a Mariana e o namorado, de regresso de uma discoteca, às cinco da manhã, faça tudo para perceber de onde vem exactamente um miado aflito. Encontraram o bicho, fotografaram-no, colaram as fotografias em vários estabelecimentos comerciais de Lisboa.
Um casal, cliente de um clube de vídeo, que já tinha adoptado um gato, ficou com mais um, para fazer companhia ao primeiro.
O 'ESQUEMA'
Maria, professora de Coimbra, levou para casa uma gata que fazia vida perto de um café. Pouco depois, a gata brindou-a com quatro crias. Maria não desesperou. Tirou fotografias aos pequeninos e enviou-as por ‘mail’ aos amigos, pedindo que estes as enviassem aos seus amigos e estes aos deles e assim sucessivamente. Dois gatinhos já estão entregues.
Um deles, uma gata preta com olhos cor de mel, vai para a casa de Ana Cristina, em Lisboa. Chega na próxima semana. Maria e Ana Cristina não se conhecem, mas há uma gata de pêlo negro e brilhante a uni-las. “Quase todos os meus amigos têm animais domésticos. Dizem-me que em minha casa faltava um. Dizem-me que quando entram olham logo para baixo, à espera que um cão ou um gato venha encostar-se-lhes às pernas. Fiz-lhes a vontade – a eles e a mim também”, conta Ana Cristina entre risos.
Os contactos estabelecem-se de maneira informal, sem que os animais tenham de passar por canis ou gatis, completamente sobrelotados. Na base do ‘esquema’ está, por um lado, a incapacidade de virar as costas ao sofrimento de um animal e, por outro, a certeza de que há uma casa digna para cada gato e cada cão abandonados ou maltratados. E, pelos vistos, há mesmo.
TRABALHO ÁRDUO E COMPAIXÃO
O que fazer ante a enormidade do sofrimento infligido aos animais pelos seres humanos? Jane Goodall, primatóloga de renome mundial, que esteve recentemente no nosso País, recomenda “compaixão e trabalho árduo”.
O mais importante – considerou – é não desistir sem sequer tentar, com o argumento de que a mudança é impossível. Jane Goodall, que passou 40 anos a estudar os chimpanzés na Tanzânia, sublinhou a relevância dos pequenos gestos, como seja alguém oferecer-se para passear um cão que esteja num canil.
6711 - Número de animais abatidos por ano nos canis municipais, segundo informação do Ministério da Agricultura.
1 milhão - Número de animais que, segundo a presidente da União Zoófila, Margarida Namora, são, efectivamente, abatidos por ano nos canis municipais.
10% - percentagem de animais do canil de Loures adoptados num ano. Os outros 2250 foram abatidos
Não é nenhum bicho de sete cabeças – é possível gozar férias sem causar tormento aos animais de estimação. Leia estas indicações com muita atenção.
PERMUTAS
Fale com colegas, amigos ou familiares que também tenham animais e cuja data de férias não coincida com a sua. Tente fazer uma permuta: tome conta do animal do seu colega, vizinho ou amigo quando estes forem de férias e peça-lhes que façam o mesmo quando for a sua vez.
ANFITRIÕES
Pessoas que tenham condições para cuidar de animais em sua própria casa de 1 de Julho a 15 de Setembro podem tornar-se anfitriões dos bichos cujos donos vão de férias. Basta ligar para os números 213424270/7/9 (Câmara de Lisboa) ou 214578413 (Liga para os Direitos do Animal).
NO AUTOMÓVEL
Se puder levar os animais de férias e viajar de carro, tenha em atenção que o animal deve ir no banco de trás, acompanhado ou devidamente acondicionado, para que não salte, e que as janelas devem estar abertas mas de modo a que o animal não ponha a cabeça de fora.
EMPRESAS
Caso tenha dinheiro suficiente recorra aos serviços de um hotel para animais ou contrate os serviços de uma das empresas que tratam deles em casa. Esta última é a melhor solução, principalmente para os gatos, que não gostam de mudar de sítio e são muito ciosos do lugar onde vivem.
VIDA DE CÃO (OPINIÃO DE DULCE GARCIA, JORNALISTA)
Se tivesse um cão seria um rafeiro, encontrado nalguma esquina sem memória ou descoberto a rondar a mesa do café, onde andaria a mendigar migalhas de bolo de arroz. Não seria feio, nem bonito, e teria uns grandes olhos negros e profundos, daqueles que contêm em si toda a doçura do universo.
Mas se tivesse uma raça, então não seria comprado numa loja, a troco de meia dúzia de cheques datados, cada um com mais de duas casas decimais. Se tivesse um cão, era ele que vinha ter comigo.
Porque eu não o queria e ele convencia-me do contrário. Vejo a coisa mais ou menos como no amor. A pessoa nunca está à espera que lhe aconteça, pelo menos naquele dia, àquela hora, com aquela pessoa.
Há uma certa tendência pós-moderna para fazer do animal de estimação um antídoto para aquilo que correu menos bem na vida. Os casais sem filhos arranjam um cão e transferem para ele os cuidados extremosos que não quiseram ou não puderam dedicar a uma criança.
Os solteiros passeiam o cão à procura de companhia, mas sempre que um vulto do sexo oposto acena com a hipótese de um jantar romântico fecham-no na sala de estar e aparecem ao fim de três dias, já na ressaca de um romance que teve mesmo, mesmo para dar certo.
Ou então esquecem-se que passaram a ser três, em vez de dois, e estranham que o parceiro se recuse a passar a primeira noite de amor com um cão em cima da cama.
Depois há os que chegam a casa à meia-noite, depois de 14 horas de trabalho, mas precisavam tanto de ter alguém à sua espera que se esquecem de que o pastor alemão precisa de espaço e é capaz de não ser muito feliz se o fecharem num apartamento. Ouço dizer que há cada vez mais gente que recolhe animais vadios. Fico contente por sabê-lo. Parece-me que não há grandes diferenças nos afectos.
Estão sempre a dizer que devemos gostar dos outros como eles são, aceitar os seus defeitos, dar-lhes uma oportunidade. É isso que faz alguém que adopta um animal abandonado. Já quanto àqueles que encomendam uma cão por catálogo, tenho as minhas dúvidas. Faz-me lembrar os casamentos por conveniência. Fica tudo combinado. Mas não há amor.
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