Não me posso também esquecer do heroico segundo cabo, sustendo as suas tripas depois de atingido a tiro.
Embarquei para Angola como furriel miliciano de infantaria no paquete Vera Cruz em abril de 1965 para fazer uma rendição individual e regressei precisamente dois anos depois, em abril de 1967, nesse mesmo paquete. Quando cheguei a Angola, de passagem pelo Grafanil de Luanda, é que fui colocado no BC3/BC12, que estava destacado em Carmona, na zona do Uíge.
Não posso dizer que cheguei em boa hora, pois ainda fui a tempo de assistir às exéquias do segundo sargento que fui render, posto em caixão chumbado com destino a Portugal, e que fora vitimado por uma mina. Não era de espantar. Muitas vezes era a morte que motivava uma rendição individual.
Também não demorou muito para que acontecesse o meu próprio ‘batismo’ de fogo, ocorrido ao longo dos três dias que demorámos a atravessar toda a serra do Uíge, comandando uma secção de militares nativos .
Mas ali nada era fácil. Nem as operações, nem tudo o resto. Éramos alimentados por um avião que diariamente lançava víveres e correio em clareira preparada para o efeito. Mas quando o avião foi impedido de sobrevoar a zona onde estávamos aquartelados por causa dos nevoeiros, passámos fome de verdade e tivemos até de roubar feijões em lavras dos ‘turras’ inimigos. Quando já os tínhamos na mão, cozinhávamos em latas para podermos matar a fome e sobreviver.
Confronto com o inimigo
Numa das operações em território inimigo e após incendiarmos uma sanzala dos ‘turras’, assisti à heroica dor de um segundo cabo, sustendo as tripas com as mãos na barriga, apanhado pela rajada que o inimigo lançou em resposta. Felizmente foi retirado para Luanda e, apesar da gravidade dos ferimentos, sobreviveu .
Noutra operação mais complicada em que também destruímos algumas sanzalas, tivemos de nos abrigar assustadoramente atrás de árvores que nos protegeram de um autêntico arraial de morteiradas do inimigo.
Aí escapámos todos ilesos e ainda tivemos um bónus: pudemos admirar uma enorme jiboia de uns oito metros de comprimento que, apesar daquela saraivada, continuava estendida sobre um tronco caído. Não a incomodámos, sobretudo porque não queríamos referenciar a nossa posição, com o inimigo ali tão perto.
Volvidos alguns meses em operações constantes no mato de Angola, por zonas perigosas, fui colocado definitivamente na 3ª companhia do mesmo BC12, que estava instalada na vila do Negage, com funções atribuídas de encarregado e gestor do material de guerra e também da cantina social da unidade.
Mas, mesmo na base, a realidade do dia a dia da guerra era cruel. Lembro-me, por exemplo, que um dia o comandante ordenou que se trouxesse ao gabinete um prisioneiro terrorista para interrogatório. Eu pedi escusa de participar numa terrível flagelação, por objeção de consciência .
Embora estivesse mais adstrito aos serviços do quartel, ainda participava em operações. Uma delas, sobretudo, que se desenrolou numa bem longínqua zona
da Cabaca, fronteira com o Congo, deixou marcas. Apenas o Cuango nos separava da República do Congo, quando avistámos vários ‘turras’ do outro lado do rio. Mas, curiosamente, estes recusaram-se a atravessar o rio para nos ‘visitar’.
Sorte de um lado, mas azar do outro. Durante essa operação, no aquartelamento onde estávamos, correu uma grave insurreição contra nós (as revoltas também não eram coisa rara), consumada pelos nossos próprios militares nativos, e muitos se protegeram de um surpreendente tiroteio, escondidos nas valas laterais. Aquela inesperada revolta foi depois sanada, sem consequências de maior para o grupo.
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