Por várias vezes estivemos em situações de perigo, mas conseguimos sempre escapar ilesos. Regressámos vivos, sãos e salvos
Vou tentar nestas linhas relatar o melhor possível a minha experiência. Não foi fácil, passei pelas zonas mais difíceis da guerra em Angola. Regressámos todos sãos e salvos, nem sei se porque nunca refreámos a segurança ou se porque tivemos sempre a estrelinha da sorte a acompanhar-nos.
Embarquei a 27 de maio de 1966 no paquete ‘Niassa' com destino a Angola. Chegámos a Luanda a 9 de junho de 1966 e seguimos para o acampamento militar do Grafanil. Depois de recebermos as armas e de fazermos o reconhecimento a Luanda, chegou a hora da verdade: fomos carregados em camiões civis, com taipais altos, como se fôssemos gado a caminho do matadouro. Após três dias de viagem chegámos ao lugar onde iríamos passar os primeiros seis meses da nossa comissão: Quimaria.
Dura realidade
Aos poucos, ficámos conhecedores da dura realidade e percebemos que não ia ser fácil: estava-se no início das instalações, portanto aquilo mais parecia um estaleiro de obras. Por isso, passámos mais algum tempo a dormir no chão. Não existia vedação e ficámos à mercê de tudo. Tínhamos de estar em alerta permanente.
Água não havia. Só um pântano, ao qual íamos buscá-la para beber e onde também iam os animais selvagens matar a sede. Quando íamos lá lavar os tanques, as nossas pernas vinham cheias de sanguessugas.
Logo na primeira saída em patrulha houve batismo de fogo. Manifestou-se pela primeira vez a estrelinha da sorte: só um colega ficou com o cantil furado. Mais tarde aconteceu outra situação assim, mas foi a arma que ficou furada. Em ambos os casos, as balas passaram a escassos centímetros. Capturámos algum armamento rústico e uma mulher que ficou para trás enquanto os outros fugiram em debandada.
Durante algumas semanas participámos ainda numa emboscada ao longo do rio M'Bridge para intercetar uma coluna de abastecimento do inimigo. Aí fazíamos a rendição do pelotão de cinco em cinco dias. Uma vez, quando estávamos quase a chegar ao rio, um colega meu decidiu buzinar, sem saber que a captura do inimigo estava por um fio. Resultado: os inimigos fugiram, mas passados alguns dias foram capturados. Pouco depois, tivemos mais uma prova da nossa estrelinha da sorte: dias depois de termos deixado Quimaria, a companhia que nos rendeu sofreu uma emboscada e houve várias baixas e feridos.
Passámos depois para Coma, setor de São Salvador, que nos diziam ser uma zona mais calma, mas foi aí que sofremos o primeiro ataque a uma coluna de abastecimento. Houve dois feridos, mas não da nossa companhia. Eram da manutenção. Em Maria Fernanda socorremos uma companhia que tinha ficado cercada pelo inimigo e participámos 30 dias na operação Via Láctea em Canacassala, para dar proteção à engenharia, que andava a abrir uma estrada.
Vinte dias antes do embarque, ainda fizemos uma escolta a Zala, durante cinco dias, em que se previa o encontro com o inimigo, o que não chegou a acontecer. Mas perdemos um companheiro, afogado na baía de Luanda.
Depois de muita fome, sede, lágrimas e saudade, regressámos vivos, no navio ‘Quanza', e 45 anos depois continuamos a encontrar-nos. A amizade perdura.
Comissão: Angola, de 1966
a 1968
Força: Companhia de Artilharia 1564
Atualidade: Taxista, casado, tem dois filhos
e dois netos
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