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Foi o primeiro jogador da escola de Alvalade a atingir fama. Numa altura em que poucos portugueses conseguiam ingressar em clubes estrangeiros, o ‘puto’ do Montijo mostrou que o que é nacional é mesmo bom.
Nascido a 28 de Fevereiro de 1966, no Montijo, cidade da margem Sul do Tejo que durante anos viveu assente nas indústrias da cortiça e da pecuária, Paulo Jorge dos Santos Futre veio ao mundo numa família humilde e feliz, tendo começado a praticar futebol na rua, com balizas improvisadas. Notava-se-lhe o talento e começavam a aparecer as exibições que o tornaram numa espécie de coqueluche local, um ídolo em miniatura que fazia as delícias de quem acompanhava os modestos torneios, nos quais o grande prémio final tanto poderia poderia ser uma pequena taça como um simples lanche.
No pavilhão local, os ‘dribles’ do ‘outro mundo’ fascinavam os espectadores e faziam-no destacar-se dos outros miúdos. "Começar a jogar à bola nessas provas, representando pequenos clubes que não ultrapassavam as fronteiras do Montijo, na altura ainda uma vila, foi muito importante, revelando-se uma fase engraçada da minha carreira, distante dos palcos que pisei mais tarde", afirma o ex-jogador quando o exercício consiste regressar ao passado.
Poucos anos depois, acabou por dar tanto nas vistas que os dirigentes do Sporting não hesitaram em chamá-lo para as camada jovens do clube, onde viria a ganhar a cultura táctica que lhe faltava. "Aprendi muito nessa escola. Aos 11 anos era um menino e as deslocações semanais para Lisboa abriram-me os horizontes, como se estivesse a conhecer um mundo completamente novo".
O 'PUTO' DO CIGARRITO
No final da década de 70, Paulo Futre era apenas mais um entre os muitos cidadãos anónimos que todos os dias davam duas horas das suas vidas à travessia do Tejo, vindos do Montijo para Lisboa. Uns deslocavam-se para estudar, outros para trabalhar, enquanto ele, impávido e sereno como se de um adulto se tratasse, trazia apenas o objectivo de jogar à bola. O ‘puto’, franzino e com ar rebelde, que de não se coibia de puxar de um cigarrito de vez enquando, tinha pinta de futebolista, viajando sozinho no velhinho cacilheiro das sete da tarde. Transportava um pequeno saco de treino, sua companhia na então demorada transposição do rio e não dava ideia de se importar com o facto de não ter alguém com quem falar, excepção feita àqueles que já o conheciam e sabiam dos dotes desportivos, os mesmo que hoje em dia ainda comentam as suas jogadas quando ele aparece por um café lá da terra.
Artur Futre, o irmão mais velho, que por ironia do destino tem hoje um filho, Cláudio, a jogar nos infantis do Sporting, lembra-se bem desses tempos. "O Paulo viveu um período difícil e muito exigente. Era obrigado a fazer aquela viagem todos os dias e só chegava a casa muitas vezes por volta das onze da noite. Nisso, a realidade actual é completamente diferente, pois os pais levam os filhos aos treinos, de carro, e esperam por eles."
A primeira grande estrela dos relvados a sair das escolas de Alvalade não usufruiu de tamanho luxo. Quando o barco atracava, corria disparado para apanhar o autocarro que o ajudava a atravessar Lisboa de uma ponta à outra. Alvalade ainda ficava longe, havia pouco tempo a perder. Chegado ao destino, equipava-se quase sem fôlego e entrava em campo. Nesse momento, a odisseia que vivera horas antes ficava para trás, desapareciam os problemas e os medos. Estava no seu mundo, e dava provas de ser um predestinado. Paulo lembra-se bem desses momentos: "Sentia um apoio muito grande por parte dos sócios, normalmente homens reformados, idosos que iam assistir aos treinos e faziam questão de mostrar o quanto gostavam de mim".
Certo dia, por altura do Natal, Artur veio com Ana, então namorada e hoje esposa, a Lisboa, tendo decidido fazer um desvio de itinerário para ir ver o benjamim da família jogar. "É uma imagem da qual nunca mais me esqueço. Aconteceu numa partida contra o Arroios; o jogo estava confuso, não atava nem desatava, e o Paulo veio cá atrás pedir a bola ao guarda-redes. Este começou a perguntar o que é que ele tencionava fazer e lá acabou por lhe deixar o esférico nos pés. O meu irmão começou a correr pelo campo fora, fintou todos os adversários, fez o mesmo ao guarda-redes contrário e no momento de rematar ainda voltou para trás. Depois, fez-lhe um chapéu. Foi incrível, quem viu aquilo disse logo que ele iria ser um grande jogador". Não se enganou.
'SPRINT' PELO LADO ESQUERDO
Exibições desse calibre encheram a vista aos sócios do ‘leão’, que viram nele um símbolo do futuro. Aos 16 anos, Paulo disse adeus à fase de aprendizagem e tornou-se no mais novo futebolista a equipar de verde-e-branco, num particular contra os brasilieros da Portuguesa dos Desportos. Era um miúdo, não tinha a massa muscular dos restantes elementos, mais fortes e desenvolvidos, mas o que lhe faltava nesse aspecto sobrava em talento, técnica, velocidade e garra. A imagem de marca dada por essas características ficou para a eternidade: Paulo de cabeça baixa, a olhar para a bola e a imaginar a jogada. Um ‘pique’ para ajeitar o esférico e um ‘sprint’ lá pelo lado esquerdo, quase encostado à linha, sem que alguém o consiga apanhar.
Considerado um menino-prodígio, estreou-se em jogos oficiais aos 17 anos, mas acabou por estar pouco tempo na formação principal de Alvalade. O episódio que envolveu a sua saída continua a ser uma pedra no sapato dos sportinguistas que o veneravam. “Compreendo que muita gente tenha ficado triste com a decisão e que nunca me tenha perdoado tal atitude, mas acredito que 99 por cento das pessoas faria o mesmo que eu fiz se tivessem estado no meu lugar naquele momento”, afiança o antigo número 10.
Paulo não teve culpa do sucedido, permanecer em Lisboa não dependia apenas de si e, na altura em que o futebol ainda não envolvia verbas astronómicas, ele até pedia muito pouco para ficar na capital. "Ganhava 70 contos por mês e o FC Porto dava-me nove mil por ano (27 mil pelos três de contrato). Disse ao Sporting que ficava por seis mil ao ano — 18 mil pelo mesmo tempo de contrato que o Porto me propunha —, e chamaram-me louco. Não pude fazer mais nada, era profissional desde os 14 ou 15 anos de idade e tive de me ir embora. Foi uma das maiores mágoas da minha vida, uma das decisões mais difíceis que tomei".
Futre abandonou o clube onde tinha vivido sete saborosos anos, rumando ao FC Porto, no qual conquistou fama e títulos, entre os quais dois campeonatos de Portugal, uma Taça dos Campeões Europeus e uma Taça Intercontinental.
SUCESSO EM MADRID
Em 1987, o Futre assinou um milionário contrato com os espanhóis do Atlético de Madrid. “Acredito que a minha formação ficou completa nessa altura, pois se nos pelados de Alvalade passei parte da adolescência, nos relvados das Antas tornei-me um homem e conheci o futebol, todas as suas exigências e dificuldades.
A partir desse momento, a história é por demais conhecida. “A minha carreira foi uma bela aventura. Passei por vários clubes, estive no Atlético como jogador e como dirigente, posto este que abandonei há muito pouco tempo. Vou dedicar-me a outros negócios, ligados a televisão e publicidade. Quero fazer uma pausa no desporto”.
Para a eternidade fica o epíteto de ‘um dos melhores futebolistas portugueses de todos os tempos’ e o papel de precursor de uma geração de talentos que deixou de actuar em Portugal para procurar fama e fortuna no estrangeiro. Ele foi ‘apenas’ o primeiro a provar que as escolas de futebol lusitanas conseguem criar foras-de-série.
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