Nixon entendia que, no fim do dia, a diplomacia, no seu cerne, é exatamente isso: pessoas a falarem com outras pessoas, que têm mais em comum do que aquilo que julgam
Há dias que se parecem medir em semanas e este, ao meio-dia, já cabia nessa categoria. Tudo porque, o mundo aguardava, expectante, o encontro que se preparava no Grande Palácio do Kremlin. Naquele momento, talvez fosse um dos lugares mais bem guardados do planeta. A segurança multiplicava-se ao ponto de se fazer sentir nas próprias imediações do edifício. Lá dentro, sob os tetos dourados, duas canetas repousavam sobre uma mesa imponente, à espera de duas das figuras mais importantes da época. De um lado, com um vasto currículo político que culminara na presidência norte-americana, estava Richard Nixon, um homem cuja obsessão anticomunista era parte indissociável da sua personalidade. Do outro, Leonid Brejnev, secretário-geral do Partido Comunista da União Soviética, que encarnava tudo aquilo a que o Ocidente se opunha. Entre ambos, repousava um documento que viria a dar um dos primeiros passos para travar a corrida ao armamento nuclear. Com aquelas assinaturas, que vinculavam muito mais do que os indivíduos presentes, começava a inverter-se uma tendência que já se arrastava há décadas.
Mas estes eram apenas os primeiros passos de uma longa caminhada. Poucos dias antes, a 22 de maio de 1972, Nixon aterrou em Moscovo e tornou-se o primeiro Presidente americano a visitar a capital soviética, uma vez que Franklin D. Roosevelt, durante a segunda guerra, em fevereiro de 1945, esteve em Ialta. A visita prolongou-se até 30 de maio e, pelo caminho, assinaram-se vários acordos. A vontade de mudança e de cooperação bilateral era considerável. A 23 de maio, foi a vez de temas como a proteção ambiental, as ciências médicas e a saúde pública. No dia 24, o “Apollo-Soyuz Test Project”, que preparava um voo espacial conjunto. No dia 25, o "Incidents at Sea", concebido para prevenir incidentes entre as frotas navais das duas superpotências.
A cereja no topo do bolo, e o momento que ficou verdadeiramente para a história, foi a assinatura do Tratado ABM (Anti-Ballistic Missile Treaty) e do acordo SALT I (Strategic Arms Limitation Treaty) entre Nixon e Brejnev, a 26 de maio de 1972, que limitava a capacidade balística dos dois países. Segundo a Nixon Foundation, o Presidente escreveu nas suas memórias que o SALT I foi "a grande conquista da Cimeira I, o acordo que cobria a limitação das armas estratégicas". Já a 29 de maio, na reta final da visita, foi assinado o "Basic Principles of Relations between the United States of America and the Union of Soviet Socialist Republics", uma espécie de código de conduta para a coexistência pacífica das duas superpotências.
Tanto a visita, como a assinatura dos acordos foi um sinal claro de que havia uma vontade de fazer diferente. Apesar da imagem com que o mundo ficou de Nixon – um homem rígido, pouco popular na comunicação social, cujo fim foi infame -, ele queria, de facto, construir pontes e promover um ambiente de paz duradoura. Aliás, três meses antes, em fevereiro de 1972, tinha viajado até à China, numa visita que almejava fazer o mesmo: construir pontes. Seguia aquela que ficou conhecida como a "diplomacia triangular", pensada pela sua administração, com o objetivo de explorar possíveis fissuras na relação sino-soviética. A lógica era simples: aproximar-se de Pequim, de forma a criar mau estar e suspeições nas suas relações com Moscovo. O cérebro deste plano era Henry Kissinger, com quem Nixon mantinha uma estreita cumplicidade.
Pensa-se que tenha sido justamente o anúncio da viagem a Pequim que fez com que Brejnev convidasse os americanos para uma cimeira em Moscovo, por receio de ficar isolado. Era uma tática arriscada, principalmente para quem procurava a reeleição nesse mesmo ano. Recorde-se que na altura as pessoas eram quase culpadas por associação, e qualquer outro político teria perdido o eleitorado se tivesse feito estas viagens. Daí, em Washington, se dizer que "Apenas o Nixon poderia ir à China", porque apenas alguém com o seu currículo anticomunista podia abrir essa porta e dar inicio a tais diálogos, sem ser acusado de covardia perante o inimigo.
Mas a história do republicano com os Soviéticos não começou aqui. A primeira vez que Nixon visitou a União Soviética tinha sido em julho de 1959, então como vice-presidente de Eisenhower. Foi no famoso 'Kitchen Debate', a 24 de julho, em que ele e Nikita Khrushchov, primeiro-ministro soviético da altura, discutiram perante câmaras, no meio de uma cozinha americana montada numa exposição em Moscovo, qual dos dois sistemas, capitalismo ou comunismo, servia melhor o povo. Um momento verdadeiramente de filme, que ficou para a história pelo surrealismo da situação: dois dos homens mais poderosos do mundo a discutir como nós, comuns mortais, fazemos no nosso dia a dia, entre eletrodomésticos.
Julgo que tenha sido este tipo de interações que tornaram Nixon um excelente conhecedor do 'mindset' soviético e chinês, o que o impediu de dar passos em falso, apesar da visita de 1972 ter estado por um fio. Tudo porque, a 8 de maio desse ano, os americanos minaram portos do Vietname do Norte e levaram a cabo uma campanha massiva de bombardeamentos, naquelas que ficaram conhecidas como Operação Pocket Money e Operação Linebacker. Apesar do apoio soviético aos Vietcongs, Brejnev decidiu manter o encontro, sinal claro de que a 'détente' - a fase de coexistência negociada entre Washington e Moscovo - era prioridade estratégica para ambos os lados. Até os americanos ficaram espantados. Segundo a Nixon Foundation, o próprio Henry Kissinger terá afirmado, a bordo do Air Force One, a caminho de Moscovo, que "Este tem de ser um dos maiores golpes diplomáticos de todos os tempos! Há três semanas toda a gente previa que seria cancelada, e hoje estamos a caminho!".
Este encontro foi muito mais do que a mera assinatura de acordos. Para além disso, Nixon tornou-se o primeiro Presidente americano a falar diretamente ao povo soviético, em direto na rádio e na televisão da URSS. Em conjunto com Pat Nixon, a Primeira-Dama, percorreu vários pontos da União, num gesto inequívoco de aproximação. Hoje, esse momento é amplamente considerado um dos marcos mais relevantes da 'détente'.
Fazendo um paralelismo com os dias de hoje e com a administração Trump, há semelhanças que saltam à vista. Na semana passada, entre 13 e 15 de maio de 2026, Donald Trump deslocou-se a Pequim, naquela que foi a primeira visita de Estado de um Presidente americano à China em quase uma década. Reuniu-se com Xi Jinping, anunciou acordos comerciais que descreveu como "fantásticos", entre os quais uma encomenda de aviões à Boeing, e procurou apoio chinês para a reabertura do Estreito de Ormuz. O gesto, na sua essência, é o mesmo de 1972: aproximar-se de uma potência rival para condicionar outra, explorando fissuras no campo adversário. Mudou, porém, aquilo que se traz para cima da mesa. Nixon foi a Moscovo, num mundo bipolar, para travar a corrida ao armamento; Trump foi a Pequim, num mundo multipolar, para negociar tarifas e Boeings. E mudou também o contexto em que é feito. A Rússia da altura tinha vontade de cooperar. A de hoje suspendeu a sua participação no New START, um sucessor distante daqueles acordos assinados em Moscovo. As aprendizagens do século passado sobre a importância da cooperação e da contenção mútua, que então se fixaram no papel, parecem hoje algo esquecidas.
Apesar de os tempos e pessoas terem mudado, a matéria-prima da diplomacia permanece a mesma. Por detrás dos comunicados e das cimeiras, muito antes de chegar ao papel timbrado, há sempre homens e mulheres que se sentam à mesma mesa, para fazer o mais básico: falar. E para isso, é necessário que a temperatura das relações o permita. Nisso, Nixon foi mestre. À época vivia-se um clima tenso e de hostilidade. Porém, o Presidente não tinha anticorpos aos líderes enquanto pessoas. Era, nesse aspeto, diferente do que vemos hoje. Numa entrevista a Frank Gannon, em 1983, descreveu Brejnev nestes termos: "Como comunista, não poderia ter estado mais em desacordo com ele. Como russo, não pude deixar de gostar dele, como russo, como pessoa." Também, anos mais tarde, o Presidente Reagan dizia a jornalistas que pensava ter descoberto um “uma espécie de laço, uma amizade” com o Presidente Gorbachev. Nixon entendia que, no fim do dia, a diplomacia, no seu cerne, é exatamente isso: pessoas a falarem com outras pessoas, que têm mais em comum do que aquilo que julgam.
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