Três acidentes com aeronaves particulares ocorreram no espaço de quinze dias. Quatro pessoas morreram, tantas como ao longo de todo o ano de 2001. Uma pergunta impõe-se. Mas o que é que se passa?
A primeira tragédia dá-se no Domingo de Páscoa, em Viseu, há exactamente três semanas. Tiago Macedo, 24 anos de idade e instrutor de voo com curso tirado nos Estados Unidos, telefona à namorada e avisa-a que deverá aterrar em Tires ao final da tarde. O irmão mais novo, António, de 13 anos, pede para ir com ele: depois do fim-de-semana em família, no norte do País, quer passar o resto das férias com os amigos em Caxias.
A mãe leva os dois filhos de carro até ao aeródromo e o pequeno avião descola às 16h45. Sem que o piloto o saiba, dirige-se para um espesso banco de nevoeiro. Ao final do dia, a mãe liga para Lisboa para saber dos filhos e Sofia começa a estranhar a demora do namorado. Um telefonema confirma que o avião não aterrou em Tires e rapidamente começam as buscas. Mas até às nove horas do dia seguinte não haverá mais notícias dos dois irmãos.
O aparelho é encontrado a menos de um quilómetro e meio do local de descolagem, com o nariz apontado para o local de onde partiu e as duas vítimas no interior. No meio do nevoeiro, o piloto terá tentado voltar para trás, provavelmente sem se aperceber da baixa altitude a que se encontrava. Frederico Serra, técnico do Gabinete de Prevenção e Investigação de Acidentes com Aeronaves, limita-se a explicar que ainda estão a “validar hipóteses”.
No feriado da semana seguinte, a 1 de Maio pelas 17h30, cai uma avioneta próximo de Lagos. O piloto, Jorge Alberto Correia, de 54 anos, é projectado para fora da aeronave e fica gravemente ferido. A pessoa que o acompanha tem morte imediata. Frederico Serra inspecciona o local. “Desta vez houve testemunhas. Observaram a queda do aparelho que, depois do motor falhar, perdeu velocidade abaixo do limite de sustentação”. Ou seja, em vez de planar para o chão num ângulo que permitisse uma aterragem de emergência, caiu a pique.
Dois dias mais tarde, em Évora, um outro aparelho ligeiro choca contra um poste de alta tensão e incendeia-se com o piloto, um arquitecto de 52 anos, no interior do ‘cockpit’. Pela terceira vez em 15 dias, Frederico Serra analisa os destroços de uma aeronave.
“Estes acidentes não têm qualquer relação entre si”. Ao que tudo indica, trata-se de um mero capricho da lei da probabilidade. Uma anomalia na estatística que desfaz sonhos e destrói vidas a um ritmo superior ao habitual.
MORRE MAIS GENTE DE CARRO
Nas estradas portuguesas morrem quatro pessoas por dia. Todos os dias, desde o princípio do ano, registaram-se uma média de quatro mortos e 13 feridos graves em acidentes de automóvel. Mas quando cai um avião, o País pára e sustem a respiração. O mito grego de Ícaro - o jovem que fugiu do labirinto com asas feitas de cera e penas, aproximou-se demasiado do sol e caiu no mar – tanto alimenta o temor de tirar os pés da terra, como o sonho de voar. E simultaneamente anestesia a dor pelas “banais” mortes na estrada.
Helder M. Carmo foi durante 20 anos presidente do Aeroclube do Faro. Tem 68 anos e voa há quase 35. “Acidentes? Nunca tive. Dos meus amigos e colegas pilotos só me lembro de um que morreu num acidente de aviação. Já de carro, na estrada, morreram muitos”.
Os aviões, grandes e pequenos, são um meio de transporte muito seguro, mas quando alguma coisa corre mal, as consequências tendem a ser letais. Por cada 22 acidentes (a média anual desde 1995) houve 11 mortos. Comparada com a sinistralidade rodoviária - onde a relação entre acidentes e mortos é de 100 para 1 - a taxa de mortalidade em aeronáutica é assustadoramente elevada: um morto por cada dois acidentes. Quem sobrevive, nunca esquece. Nem trinta anos depois. Mas o que se passa exactamente no ar na iminência de um desastre, o que sentem os passageiros, o que faz o piloto?
AVENTURA NA FUZETA
Num dia frio de Inverno, em 1972, Othmar Karl, na altura com 38 anos, e o cunhado, João Vieira Branco, com 21 anos, aguardavam a autorização da torre para levantar voo. A pequena aeronave não tinha sistema de comunicação por rádio. Para descolar esperava-se pelo sinal de luz do controlador aéreo. No regresso, para assinalar a intenção de aterrar, balançavam-se as asas do avião e aguardava-se a autorização da torre. Mas nesse domingo de Fevereiro nenhum dos dois voltou ao aeroporto de Faro. Piloto e passageiro tinham ambos ‘brevet’, a carta de condução no ar, mas não podem adivinhar o perigo que se esconde no painel de instrumentos do monomotor, marca Jodel.
No livrinho que contém a ‘check-list’ de procedimentos obrigatórios, alguém se esqueceu de incluir um pequeno pormenor de importância vital: a posição correcta do manípulo para aquecimento do ar do carburador. Além disso o aparelho não tem motor de arranque; a hélice tem de ser accionada à mão. A 200 metros de altitude por cima do mar, a duas milhas da costa, Othmar Karl prepara-se para baixar para os 140 metros e começa a reduzir o motor. “Fui tirando a ‘manette’ do gás, mas quando o ponteiro chegou às 1 700 rpm, a hélice parou, de repente“.
A baixa altitude e sem motor de arranque, é impossível voltar a pôr a hélice a rodar. O avião rasga o ar num silêncio ensurdecedor de vento e velocidade, imparável em direcção ao solo. “Fiquei calmo o susto só veio mais tarde; muito mais tarde”. “Sabia que só tinha poucos minutos para aterrar algures”. O problema era onde. “Conhecia aquela zona e manobrei o avião em direcção à linha de costa da Ilha da Fuzeta”. “Desliguei os magnetes, a bateria, fechei a gasolina e escolhi a areia mais escura a cerca de cinco metros da linha da água; junto ao mar, estava um pescador de pé: calculei que tinha altitude para o sobrevoar”.
Os dois homens apertam os cintos e tiram os óculos escuros. Com os pés nos pedais do leme e a manche firme na mão, o piloto vê a areia aproximar-se e encher todo o seu campo de visão. Voam a pouco mais de 90 km por hora quando sentem o primeiro toque das rodas no solo que “infelizmente não estava nada liso e tinha inclinação para um lado“. Os solavancos fazem trepidar o aparelho e sacodem os dois ocupantes. Até ao último embate na areia, o piloto consegue evitar que o aparelho enterre o nariz e se mantenha direito, apesar dos fortes puxões laterais. “Quando senti finalmente o avião a rolar, e apesar de nunca ter travado, levantou-se a cauda, quase como em câmara lenta, e o aparelho foi tombando sobre a hélice“. O avião acaba por capotar, o vidro do ‘cockpit’ parte-se, o revestimento exterior estala em vários sítios.
“Não fiquei nervoso. Concentrei-me em pensar o que fazer para chegarmos inteiros ao chão“, recorda João Vieira Branco, que mais tarde confirmou a tendência para aterrar em sítios inesperados. E assim foi inaugurado o aeroporto da ilha da Fuzeta perante a assistência de um único espectador involuntário: o pescador que o avião picou em voo rasante antes de aterrar.
“Ficou petrificado, o bom do homem. Mas quando nos viu sair da cabine e caminhar em direcção a ele, pegou na cana de pesca e fugiu”.
QUEDAS E PILOTOS DA HISTÓRIA
1896
Otto Lilienthal, 48 anos, Alemanha.
Autor de importantes estudos de termodinâmica e pioneiro aeronáutico, morre na sequência da queda de um dos seus planadores, após centenas de voos. Lançou as bases do que viria a ser a aviação moderna.
17 Setembro 1908
Thomas E. Selfridge, 26 anos, EUA.
Primeiro passageiro-vítima oficial. Queda a pique de 22 metros, depois de se soltar uma das duas hélices. Orville Wright, o piloto e pioneiro da aviação moderna, sobrevive com várias fracturas.
12 de Julho 1910
Charles Stewart Rolls, Inglaterra
Fundador da Rolls Royce England, foi a primeira vítima de um acidente desta natureza em Inglaterra. O avião em que seguia caiu de pouco mais de cinco metros de altitude.
21 de Abril 1918
Manfred von Richthofe, O Barão Vermelho foi abatido no ar por um piloto canadiano.
22 de Junho 1928
Roald Amundsen, 56 anos, explorador. Avioneta perdeu-se no mar.
Dezembro 1917
Jorge Gorgulho, militar. O avião caiu durante o segundo voo português no continente africano, em Moçambique.
22 Agosto 1918
Azeredo de Vasconcelos, militar. O seu avião desapareceu ao largo de Cascais durante uma missão de vigilância anti-submarinos.
15 Novembro 1924
Sacadura Cabral, 43 anos, Portugal. O piloto que concluiu a travessia do Atlântico Sul - dois anos antes, com Gago Coutinho - morreu no Mar do Norte, quando voava de Amesterdão para Lisboa.
31 Julho 1944
Antoine de Saint- Exupery, 44 anos. O avião do escritor francês desapareceu durante uma missão militar na II Grande Guerra.
17 de Setembro 1961
Dag Hammarskjöld, secretário-geral da ONU. O seu avião despenhou-se na selva africana. Suspeita de crime.
27 de Março 1968
Yuri Gagarin, 34 anos. O cosmonauta russo, primeiro homem no espaço, morreu quando o seu MiG 15 UTI se despenhou próximo de Moscovo.
28 de Junho 1979
Philippe Cousteau, 35 anos. Pilotado pelo filho de Jacques Cousteau. Um dos hélices solta-se e o aparelho cai no Tejo, em Lisboa.
4 de Dezembro 1980
Francisco Sá Carneiro, primeiro-ministro de Portugal. O Cessna onde viajava caiu pouco depois da descolagem em Camarate. Acidente ou sabotagem, as dúvidas ainda persistem.
2 de Março 1996
Acidente vítima Mamonas Assassinas, banda de ’rock’ brasileira’. Os cinco membros do grupo morreram.
12 de Outubro 1997
John Denver, 56 anos. O cantor e piloto amador perde o controlo do avião.
16 de Julho 1999
John F. Kennedy Jr., 38 anos, EUA O fundador da revista ‘George’ e filho do ex-presidente J.F. Kennedy, perdeu o controlo do avião e caiu em espiral no Atlântico. Viajava na companhia da mulher e da cunhada.
Janeiro e Abril 2002
Avioneta colide contra edifíco na Flórida, EUA. O piloto–suicída era ‘apenas’ um adolescente, que se inspirou nos ataques de 11 de Setembro. Em Milão, Itália, dá-se novo acidente, após perda de consciência do piloto.
ALERTA PARA PILOTOS
A falha humana é a causa mais significativa dos acidentes de aviação
Falhas activas: não adesão às normas e procedimentos, má preparação do voo, falta de disciplina.
Falhas inconscientes: falta de coordenação e atenção, distracção, fadiga, etc.
Falhas por pilotagem ou manuseamento incorrecto dos sistemas do avião, falta de treino, experiência ou capacidade.
Falhas de material: muitas resultam de falha humana (deficiente manutenção das aeronaves etc.)
Fonte: Gabinete de Prevenção e Investigação de Acidentes com Aeronaves, síntese do Coronel Miguel Pessoa.
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