Trabalham quase sempre por conta própria. Ocultam da família a sua ocupação. Ser acompanhante de luxo é nunca parecer prostituta nem se vestir como tal. O sociólogo conta como vivem estas mulheres no livro ‘Corpo Adentro’.
- Vamos desmistificar: uma acompanhante de luxo é, na prática, uma prostituta como qualquer outra?
- Se definirmos a prostituição como um acto que materializa uma relação sexual tendo por base um pagamento, as acompanhantes encaixam na definição. Mas há outras características que as distinguem de outras prostitutas. Em primeiro lugar, o grau de autonomia com que exercem a actividade. As prostitutas de rua têm quase sempre um chulo. Estas mulheres tendem a não ter. São diferentes das de ‘alterne', porque o bar também faz esse serviço de mediação e controlo. Outro critério são os valores mais elevados do que em qualquer outra das formas de prostituição. E, depois, tem a ver com os serviços prestados por estas mulheres prostitutas, que vendem sempre o seu tempo, presença, acompanhamento efectivo, e esses actos podem ser sexuais mas não exclusivamente. Pode ser o acompanhamento para um jantar, para uma festa, para uma viagem. Apenas para conversar. Mas também, e quase sempre, incluem os actos sexuais.
- E o que é que isto tem de romântico?
- Que na realidade não existe?
- Não existe com esse glamour. As viagens são um dos serviços que estas mulheres podem prestar. Mas nenhuma das mulheres com quem eu falei alguma vez fez uma viagem.
- Será então uma grande minoria as que vão também a festas?
- As festas podem acontecer. O acompanhamento para um jantar. Agora, nunca é apenas só isso.
Mesmo que elas os acompanhem a festas ou a jantares, há sempre uma relação sexual depois?
Quase sempre. São muito raros os encontros em que não há a concretização do acto sexual.
- É ou não imoral ser acompanhante de luxo?
- Não faço esses julgamentos morais.
- Mas, moralmente, como é que a sociedade julga estas acompanhantes?
- Este tipo de prostituição surge, em grande parte, pela necessidade de a esconder. Essa razão existe porque ser-se prostituta é carregar um estigma ou ser-se cliente de prostituição pode significar, sobretudo na contemporaneidade, a exclusão de uma masculinidade moderna.
- E essa relação vive dessas duas exclusões.
- Vive da fuga da mulher ao estigma de ser ‘pu**' e da fuga de ser cliente de prostitutas.
- Berlusconi e Tiger Woods mantiveram relacionamentos com acompanhantes de luxo. Então qual é, na verdade, o perfil do cliente?
- O perfil-tipo ainda não o consigo definir cabalmente. Posso-lhe dizer que um dos critérios de distinção deste tipo de prostituição é o dinheiro. É definidor de quem pode aceder a este tipo de prostituição.
- Acima dos 100 euros à hora...
- Sim. Posso dizer-lhe que o valor mais baixo que encontrei foram 200 euros.
- Ser acompanhante e não prostituta de rua é sinónimo de mais beleza, de corpo escultural. Como são fisicamente estas mulheres?
- É, claramente, sinónimo disso tudo. Um dos critérios de distinção em relação a outras formas de prostituição é o corpo. E não são só as formas. É também o investimento que fazem no seu corpo. Os cuidados estéticos, a forma como se vestem, os adereços que utilizam, sensualizando-se. Nos anúncios, sobretudo na Internet - que é aí que está a grande base de acesso a estas mulheres -, as imagens são profundamente erotizadas.
- Vestem-se de modo diferente como acompanhantes do que na sua vida social e familiar habitual?
- Não. Elas não se vestem para se anunciarem prostitutas. Investem é na sua erotização - mas com alguma discrição.
- O estudo subjacente ao seu livro tem por finalidade, entre outras, a de desvendar a parte oculta do dia-a-dia das prostitutas de luxo. O que descobriu de surpreendente?
- O que é, fundamentalmente, surpreendente enreda-se na comunalidade da vida destas mulheres. De poderem ser a nossa vizinha do lado, sem nós sabermos. E não há necessidade de o sabermos. O facto de em algum momento da sua vida terem decidido tornar-se prostitutas acompanhantes significa, num certo sentido e para algumas delas, tomarem efectivamente as rédeas das suas vidas. Umas porque se sentem encurraladas, outras por uma opção mais ou menos livre de alguns constrangimentos, outras até por experimentação sexual.
- Qual é o grau de satisfação delas em relação ao seu trabalho?
- É uma pergunta complicada na medida em que não se consegue avaliar assim o grau de satisfação. O que elas me dizem é que a opção que tomaram, mais ou menos constrangida pela realidade, permite-lhes viver a vida da forma que elas pretendem. Agora se isso significa uma satisfação total com a vida ou com aquilo que fazem, não sei.
- Os seus altos padrões de rendimentos transformam-se numa prisão?
- O facto de estas mulheres pedirem muito dinheiro por um encontro não significa que elas ganhem muito. Têm menos procura. Para ganharem muito dinheiro têm que trabalhar muito. Podem é ter o rendimento suficiente para a concretização dos seus projectos e que, se calhar, não conseguiriam no mercado de trabalho tradicional. Para muitas delas esta foi a solução da precariedade. Para a mais nova com quem falei, ter entrado na prostituição permite-lhe continuar a estudar numa universidade privada e sair de casa dos pais para viver com o namorado.
- O namorado não sabe?
- Os maridos, os familiares ou os filhos quase nunca sabem.
- Como é possível viver duas vidas?
- Surpreendeu-me que essa incerteza de serem apanhadas só existe no início. Depois, para ocultarem a actividade dos familiares, elas usam os mesmos mecanismos que para se ocultarem da generalidade das pessoas e para se manterem em segurança nesta actividade.
- Estas mulheres conseguem manter um relacionamento amoroso fixo?
- Conseguem e desejam-nos ter. São tão normais como os relacionamento de outras pessoas quaisquer. Afirmam amar e envolver-se com os seus parceiros.
- A vida destas mulheres é feita, essencialmente, de sexo?
- Não. É tanto quanto a vida de qualquer outra pessoa. A questão é que elas passam mais horas a fazê-lo.
- Sentiu que elas tenham fantasias sexuais e que as ponham em prática?
- Não com os clientes.
- Ao nível da história sociológica: houve alguma alteração no que se refere à visão que cada um dos intervenientes tem acerca das acompanhantes de luxo?
- Mais do que uma alteração sobre a representações sociais das acompanhantes de luxo, há uma alteração da visão sobre a prostituta e sobre a prostituição. A prostituta de rua mantém-se com a mesma representação de sempre, o mesmo estigma, é vulnerável, está sempre associada a outros fenómenos de delinquência ou marginais como o tráfico de droga, o consumo de droga, o alcoolismo. Estamos a falar de estereótipos. Uma versão mais actualizada da prostituta de rua são as mulheres que estão no sistema do alterne. São igualmente estigmatizadas, são é menos visíveis. Relembremos o que aconteceu no fenómeno das ‘mães de Bragança'. Toda a gente sabia quem eram aquelas mulheres e nesse sentido o estigma está lá. Porque o meio é relativamente pequeno, aquelas mulheres foram facilmente identificadas com aquele espaço, com o alterne e com a prostituição. Rapidamente o estigma da ‘pu**' lhes foi rotulado. Agora, o tipo de prostituição da acompanhante de luxo é outra coisa. A sua característica básica é a fuga ao estigma pela ocultação.
'SOU HOMEM, POSSO RECORRER A ELAS COMO CLIENTE'
- Foi obrigado a pagar uma quantia, fazendo-se passar por cliente, para entrevistar as acompanhantes com quem falou?
- Sim, e o pagamento deve-se a um simples facto: senti-me encurralado porque quando, primeiro, comecei a contactar estas mulheres explicitei os meus objectivos. E isso causou uma grande incerteza de quem estava do outro lado. E o que fazem estas mulheres quando se sentem inseguras? Não existe contacto. E eu pensei: há uma solução: sou homem, posso recorrer a estas mulheres como cliente.
- Quanto dinheiro gastou?
- Próximo dos mil euros.
- Qual a situação mais embaraçosa? Sei que tomou banho num dos quartos, para não levantar suspeitas.
- Esse será, claramente, o melhor exemplo. O facto de me ver obrigado a tomar banho era um sinal claro - para outras pessoas, neste caso para as colegas de apartamento - de que tudo corria com normalidade.
PERFIL
Bernardo Coelho, de 32 anos, investigador no Centro de Investigação e Estudos de Sociologia CIES-ISCTE- IUL, é licenciado em Sociologia e está a fazer um doutoramento sobre as acompanhantes de luxo e os seus clientes. Assim surgiu o livro ‘Corpo Adentro', da Difel, que retrata o universo das acompanhantes através dos seus depoimentos e da análise sociológica.
'Há pessoas que, pronto, já me conheciam e chegaram por amigos e tal... Mas sempre tudo muito discreto... Aqui não há anúncios, as pessoas para terem o meu contacto têm de estar referenciadas (...) as pessoas resguardam-se, né?' Este depoimento de Joana, 23 anos, é o retrato deste mundo oculto.
Tem sugestões ou notícias para partilhar com o CM?
Envie para geral@cmjornal.pt
o que achou desta notícia?
concordam consigo
A redação do CM irá fazer uma avaliação e remover o comentário caso não respeite as Regras desta Comunidade.
O seu comentário contem palavras ou expressões que não cumprem as regras definidas para este espaço. Por favor reescreva o seu comentário.
O CM relembra a proibição de comentários de cariz obsceno, ofensivo, difamatório gerador de responsabilidade civil ou de comentários com conteúdo comercial.
O Correio da Manhã incentiva todos os Leitores a interagirem através de comentários às notícias publicadas no seu site, de uma maneira respeitadora com o cumprimento dos princípios legais e constitucionais. Assim são totalmente ilegítimos comentários de cariz ofensivo e indevidos/inadequados. Promovemos o pluralismo, a ética, a independência, a liberdade, a democracia, a coragem, a inquietude e a proximidade.
Ao comentar, o Leitor está a declarar que é o único e exclusivo titular dos direitos associados a esse conteúdo, e como tal é o único e exclusivo responsável por esses mesmos conteúdos, e que autoriza expressamente o Correio da Manhã a difundir o referido conteúdo, para todos e em quaisquer suportes ou formatos actualmente existentes ou que venham a existir.
O propósito da Política de Comentários do Correio da Manhã é apoiar o leitor, oferecendo uma plataforma de debate, seguindo as seguintes regras:
Recomendações:
- Os comentários não são uma carta. Não devem ser utilizadas cortesias nem agradecimentos;
Sanções:
- Se algum leitor não respeitar as regras referidas anteriormente (pontos 1 a 11), está automaticamente sujeito às seguintes sanções:
- O Correio da Manhã tem o direito de bloquear ou remover a conta de qualquer utilizador, ou qualquer comentário, a seu exclusivo critério, sempre que este viole, de algum modo, as regras previstas na presente Política de Comentários do Correio da Manhã, a Lei, a Constituição da República Portuguesa, ou que destabilize a comunidade;
- A existência de uma assinatura não justifica nem serve de fundamento para a quebra de alguma regra prevista na presente Política de Comentários do Correio da Manhã, da Lei ou da Constituição da República Portuguesa, seguindo a sanção referida no ponto anterior;
- O Correio da Manhã reserva-se na disponibilidade de monitorizar ou pré-visualizar os comentários antes de serem publicados.
Se surgir alguma dúvida não hesite a contactar-nos internetgeral@medialivre.pt ou para 210 494 000
O Correio da Manhã oferece nos seus artigos um espaço de comentário, que considera essencial para reflexão, debate e livre veiculação de opiniões e ideias e apela aos Leitores que sigam as regras básicas de uma convivência sã e de respeito pelos outros, promovendo um ambiente de respeito e fair-play.
Só após a atenta leitura das regras abaixo e posterior aceitação expressa será possível efectuar comentários às notícias publicados no Correio da Manhã.
A possibilidade de efetuar comentários neste espaço está limitada a Leitores registados e Leitores assinantes do Correio da Manhã Premium (“Leitor”).
Ao comentar, o Leitor está a declarar que é o único e exclusivo titular dos direitos associados a esse conteúdo, e como tal é o único e exclusivo responsável por esses mesmos conteúdos, e que autoriza o Correio da Manhã a difundir o referido conteúdo, para todos e em quaisquer suportes disponíveis.
O Leitor permanecerá o proprietário dos conteúdos que submeta ao Correio da Manhã e ao enviar tais conteúdos concede ao Correio da Manhã uma licença, gratuita, irrevogável, transmissível, exclusiva e perpétua para a utilização dos referidos conteúdos, em qualquer suporte ou formato atualmente existente no mercado ou que venha a surgir.
O Leitor obriga-se a garantir que os conteúdos que submete nos espaços de comentários do Correio da Manhã não são obscenos, ofensivos ou geradores de responsabilidade civil ou criminal e não violam o direito de propriedade intelectual de terceiros. O Leitor compromete-se, nomeadamente, a não utilizar os espaços de comentários do Correio da Manhã para: (i) fins comerciais, nomeadamente, difundindo mensagens publicitárias nos comentários ou em outros espaços, fora daqueles especificamente destinados à publicidade contratada nos termos adequados; (ii) difundir conteúdos de ódio, racismo, xenofobia ou discriminação ou que, de um modo geral, incentivem a violência ou a prática de atos ilícitos; (iii) difundir conteúdos que, de forma direta ou indireta, explícita ou implícita, tenham como objetivo, finalidade, resultado, consequência ou intenção, humilhar, denegrir ou atingir o bom-nome e reputação de terceiros.
O Leitor reconhece expressamente que é exclusivamente responsável pelo pagamento de quaisquer coimas, custas, encargos, multas, penalizações, indemnizações ou outros montantes que advenham da publicação dos seus comentários nos espaços de comentários do Correio da Manhã.
O Leitor reconhece que o Correio da Manhã não está obrigado a monitorizar, editar ou pré-visualizar os conteúdos ou comentários que são partilhados pelos Leitores nos seus espaços de comentário. No entanto, a redação do Correio da Manhã, reserva-se o direito de fazer uma pré-avaliação e não publicar comentários que não respeitem as presentes Regras.
Todos os comentários ou conteúdos que venham a ser partilhados pelo Leitor nos espaços de comentários do Correio da Manhã constituem a opinião exclusiva e única do seu autor, que só a este vincula e não refletem a opinião ou posição do Correio da Manhã ou de terceiros. O facto de um conteúdo ter sido difundido por um Leitor nos espaços de comentários do Correio da Manhã não pressupõe, de forma direta ou indireta, explícita ou implícita, que o Correio da Manhã teve qualquer conhecimento prévio do mesmo e muito menos que concorde, valide ou suporte o seu conteúdo.
ComportamentoO Correio da Manhã pode, em caso de violação das presentes Regras, suspender por tempo determinado, indeterminado ou mesmo proibir permanentemente a possibilidade de comentar, independentemente de ser assinante do Correio da Manhã Premium ou da sua classificação.
O Correio da Manhã reserva-se ao direito de apagar de imediato e sem qualquer aviso ou notificação prévia os comentários dos Leitores que não cumpram estas regras.
O Correio da Manhã ocultará de forma automática todos os comentários uma semana após a publicação dos mesmos.
Para usar esta funcionalidade deverá efetuar login.
Caso não esteja registado no site do Correio da Manhã, efetue o seu registo gratuito.
Escrever um comentário no CM é um convite ao respeito mútuo e à civilidade. Nunca censuramos posições políticas, mas somos inflexiveis com quaisquer agressões. Conheça as
Inicie sessão ou registe-se para comentar.