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Portugal arrasado pelo vício do álcool

Luquebano era um rosto igual a meio milhão de outros portugueses alcoólicos. Depois de ter iniciado o tratamento, vive à semelhança de uma minoria: sem álcool. Um dia de cada vez.

22 de janeiro de 2006 às 00:00

A romaria destes amigos deixou de ser só mais um sábado de copos a correr pelas tascas. Luquebano Afonso ficou refém do álcool. “Logo ao início da tarde, começávamos por beber cerveja na Feira da Ladra. À noite, passávamos para o vinho, mas nem sempre o jantar ia além de umas sandes. Os copos: nunca paravam. Depois ia trabalhar, da meia-noite às 04h00. Como ‘disc jockey’ (DJ), nos bares do Bairro Alto, obviamente bebia uísque: shots e shots.”

Assim se resumem nove anos de vida onde só os lugares e as pessoas mudavam. Hoje, Luquebano, o angolano de 37 anos que gosta de pôr música e rodear--se de gente, está há quase dois anos na abstinência. “Agora é que vejo os filmes que o pessoal faz e que é encarado por todos como normal. As pessoas já não saem à noite por uma questão social. Saem para apanhar besanas – embriagam-se para esquecer a realidade.” É um lugar-comum que também atinge os menores. Um estudo do Centro de Atendimento a Toxicodependentes das Taipas, envolvendo 677 jovens, entre os 12 e os 21 anos, revela que os miúdos até aos 15 preferem bebidas com elevado teor de álcool. Consomem caipirinhas e shots de bebidas brancas como a vodca.

Hábito? “O consumo começa muito de forma social. Depois, conforme o corpo ganha mais tolerância ao álcool, o consumo vai-se tornando abusivo.” As explicações de Ana Braz, psicóloga, não deixam margem para dúvidas. Foi estudado em Portugal o consumo de rapazes e raparigas mais noctívagos: eles bebem seis dias; elas quatro. Todos ultrapassam o recomendado (embora, melhor seria se se ficassem por bebidas não alcoólicas), com uma média de cinco rodadas.

“ALCOOLISMO LEVA AO isolamento social, familiar e profissional. Acumulam-se problemas por resolver (como a escassez de dinheiro, baixo rendimento sexual, perda de emprego ou laços familiares, entre outros). Em muitos casos leva a relações conflituosas e à ideia de paranóia – o próprio consumo dá ideia de que as outras pessoas não o querem ajudar.” Ana Braz resume algumas das consequências da dependência, mas tudo depende, primeiro, da pessoa afectada e só depois do meio que a rodeia. No entanto, há casos de doentes onde é possível identificar uma predisposição genética. Pode ser biológica, comportamental, ou de sociabilização enquanto criança.

A pergunta é frequente: “Você bebe?” Difícil será também encontrar um adulto que nunca tenha experimentado bebidas alcoólicas. Claro, a maioria diria que por questões sociais. Mas acontece que 70 por cento dos portugueses consome álcool diariamente, e cerca de um milhão ingere este produto em excesso, metade dos quais são dependentes (dados avançados recentemente pelo director do Instituto de Alcoologia, José Barrias). Consequências evidentes são as detenções de condutores alcoolizados e, por outro lado, o crescimento de crimes associados: 77 por cento dos agressores dentro do ambiente doméstico (identificados nos primeiros nove meses do ano passado) são consumidores de álcool.

“Tenho de me livrar desta situação!” – gritou para si próprio Luquebano quando se apercebeu que o alcoolismo lhe estava a destruir a vida. “Tenho a sorte de ter bons amigos (alguns deles, patrões), que tentaram avisar-me.” A ajuda não parava de chegar, mas faltava qualquer coisa. “Havia dias em que eu tinha sorte no trabalho: tudo corria bem. Noutros, entornava o caldo. Nada corria bem e, pior, na manhã seguinte não me lembrava de nada.” Luquebano decidiu libertar--se. “A vontade tem que partir de nós. Estava a perder o respeito, sobretudo das mulheres – quando bebia abusava das palavras [nega violência física].”

“AS PESSOAS QUE aparecem para diagnóstico situam-se entre os 30 e os 50 anos – sempre com muitas recaídas à mistura. Mas o factor decisivo para tomar este passo, normalmente, é a perda de laços. Acontece que a decisão deve ser sempre deles próprios.” Ana Braz enquadra o perfil de doentes, tal como o angolano que ela própria acompanhou.

Quando deixam de beber apercebem--se que não era tão difícil sobreviver sem a muleta do álcool. Os problemas deixam de ter aquela dimensão, aparentemente, irresolúvel. Mudam os hábitos e o estilo de vida. “Não bebo desde 25 de Abril de 2004. Pratico ioga, descobri a tendência para a fotografia e cresceu a minha actividade de DJ.” Luquebano mudou.

ESTUDO SOBRE CONHECIMENTO E COMPORTAMENTOS DE RISCO

UNIVERSITÁRIOS IDENTIFICAM PROBLEMAS DE ABUSO DE ÁLCOOL

Num estudo dirigido por António Baptista, professor da Universidade Lusófona, realizado a um universo de 1018 estudantes universitários portugueses, os jovens chegam a assumir problemas de dependência alcoólica. À pergunta: “Alguma vez pensou, ou as pessoas próximas de si pensaram, que tinha um problema com álcool?”, 11,9 por cento dos rapazes respondeu que sim. Quatro por cento das raparigas também confirmou.

LÍDER POLÍTICO ADMITE ALCOOLISMO

Charles Kennedy foi forçado a demitir-se do cargo de líder do partido liberal-democrata britânico dias depois de ter admitido publicamente ser alcoólico. Como contrapartida à confissão, perdeu o apoio de inúmeros deputados da sua bancada parlamentar – 26 dos 63 – e acabou por perder o cargo. O caso é recente, remonta aos primeiros dias de Janeiro. Kennedy reconheceu que se submetera a tratamento para superar o seu problema de alcoolismo.

Ainda assim, os contestatários manifestaram intenção de recusar integrar a bancada parlamentar dos liberais-democratas, caso o líder não se demitisse imediatamente. Fica uma pergunta em aberto: Será um incentivo ao tratamento declarar-se publicamente o alcoolismo? O contrário resulta. Senão vejamos: cientistas da Universidade de Connecticut, EUA, concluíram que assistir a anúncios publicitários sobre álcool aumenta a probabilidade de consumo entre adolescentes e jovens. Declarar o consumo abusivo e a intenção de tratamento não aumenta a probabilidade de que haja seguidores?

CHARLES KENNEDY

- Idade: 47 anos.

- Perfil: Político que liderava os liberais-democratas – terceira maior força política no parlamento britânico.

Preste muita atenção: o consumo moderado de bebidas alcoólicas pode levar à dependência. Siga estes conselhos práticos para não entrar em abusos.

NÃO IGNORE OS SINAIS

Se notar que está a beber demais, ou se alguém próximo lhe disser que está a beber demais, deve prestar atenção a este sinal. Por outro lado, quando tomar bebidas alcoólicas e no dia seguinte não se lembrar do que fez, ou de como magoou alguém, reflicta porque é outro sinal de dependência.

AJUDA VEM DO PRÓPRIO

O primeiro passo para se avançar com uma terapia é assumir que quer ser ajudado, traz esperança e alegria para quem está a passar maus bocados. A família e os amigos são fundamentais para ajudar esta pessoa a mudar os hábitos e estilo de vida e a encontrar novas referências para essa conduta.

BEBEU? NÃO CONDUZA!

O consumo de bebidas alcoólicas diminui a capacidade de concentração, ou seja, afecta o desempenho de uma pessoa: na condução, trabalho, sexual e pessoal. A lei prevê taxas máximas de alcoolemia para conduzir e, em algumas empresas, para trabalhar. O desrespeito afecta as outras pessoas.

DOR DE CABEÇA

A ingestão de bebidas alcoólicas causa desidratação. Isto porque o fígado precisa de água para se livrar das toxinas, e vai socorrer-se das reservas no organismo, retirando-a a órgãos como o cérebro, o que origina a dor de cabeça. Para prevenir, beba um copo de água entre cada dois de álcool.

OPINIÃO DA JORNALISTA DULCE GARCIA

UM COPO DE SOLIDÃO

Começa por ser um acto social. Bebe-se para perder a vergonha e sair do canto mais obscuro do salão de baile. Para se ser capaz de contar piadas e arrancar gargalhadas sedutoras às mulheres.

Às tantas, com meia dúzia de goles, as faces deixam de estar ruborizadas pelos piores motivos – timidez, sensação de pânico, medo puro – para ganharem o luzidio da confiança.

Bebe-se mais um copo para dizer coisas impensáveis; para declarar o amor e expurgar o ódio; para exigir o fim de qualquer tormento ou reclamar, tão simplesmente, o reconhecimento do valor do trabalho (por outras palavras: para pedir um aumento).

E um dia, sem mais nem menos, bebe-se para aguentar a vida. Todos os dias, várias vezes ao dia, com uma necessidade descarada que se manifesta no tremor das mãos e no sangue pisado à volta dos olhos.

Nessa altura o copo é o exemplo da mais pura solidão. Os amigos cansam-se dos discursos entaramelados e das observações sem nexo; os amores definham ao sabor das ressacas mais ou menos violentas; e até o corpo começa a dar ultimatos através da falência de órgãos vitais.

De repente, o riso fácil e a euforia do álcool transformam-se no mais absoluto silêncio.

O que não faltam são retratos de famílias desfeitas pelo álcool; carreiras brilhantes empapadas em garrafas de whisky e gin. Ou pior do que isso: promessas de felicidade afogadas num copo que se julgou abrir a porta do paraíso e mais não fez do que dar um empurrão para o inferno.

Em 2004, mais de um milhar de jovens entre os 16 e os 20 anos conduziu sob o efeito de bebidas alcoólicas. Muitos envolveram-se em acidentes rodoviários que provocaram feridos e mortos.

Começa por ser um acto social. Quase uma brincadeira. Um dia, acorda-se da festa e tudo cheira a morte.

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