Equipa de investigação quer fazer um mapa 3D do continente mais meridional do Globo.
Lançar um drone (um avião telecomandado não tripulado) na Antártida e esperar que ele regresse é uma experiência científica, mas é também um exercício de gestão de nervos. Principalmente quando o vento não ajuda, as nuvens estão baixas e umas certas aves curiosas se aproximam do avião para ver que ‘bicho’ é aquele que lhes tomou o céu. Mas uma equipa de cientistas portugueses do Grupo Polar da Universidade de Lisboa (um geógrafo físico com doutoramento sobre o passado gelado da serra da Estrela e dois engenheiros – um de minas e outro mecânico – ambos com especialização em Marte) controlou a ansiedade e arriscou lançar o drone. O objetivo do ‘Projeto 3D Antártida’ é ajudar a perceber de que forma é que o aumento da temperatura se está a fazer sentir ao nível dos ecossistemas terrestres e também ao nível dos solos congelados.
20 MIL EUROS 'AO AR'
Esta foi a oitava vez que Gonçalo Vieira, do IGOT, viajou até ao mais meridional dos continentes – há catorze anos que a sua equipa investiga a Antártida em vários e diferentes projetos. O 3D foi o mais recente e foi para a frente graças a um projeto de ‘crowdfunding’ que foi lançado a 23 de dezembro de 2013. O objetivo era angariar os 20 mil euros necessários para a compra do drone e 300 pessoas garantiram que fosse possível. Em menos de dois meses, a equipa conseguiu o financiamento de que precisava para avançar. "Da primeira vez que o lançámos – sempre contra o vento, numa praia de calhaus da Península Antártica –, era como estar a lançar para o ar vinte mil euros. Mas ele, apesar do ar frágil (pesa 700 gramas), é totalmente autónomo. Basicamente, funciona através de um software que tem um mapa de fundo e aquilo que fazemos é programar a área em que queremos voar. Temos de estimar o vento e a aterragem, mas o drone voa sozinho durante 40 minutos. Quando regressa, é sempre um alívio", explica Gonçalo.
O pequeno avião tem incluídos um GPS, um barómetro e uma resolução de quatro centímetros que permite fazer mapas de relevo. Esses mapas vão permitir fazer a cartografia dos diferentes tipos de vegetação no solo. Os dados estão agora a ser tratados antes de serem divulgados. A equipa portuguesa ficou ‘hospedada’ desta vez numa base de investigação sul-coreana – a escolha da base depende da localização dos projetos em que estão a trabalhar no momento.
"É uma das melhores: tem capacidade para 70 pessoas, mas só estávamos 21 naquela altura. Temos cozinheiro, ginásio, água quente, não nos falta nada." O tempo dos cientistas era dividido entre o laboratório – onde faziam tratamento de dados – e o campo, para reconhecimento do terreno e lançamento do drone quando a meteorologia o permitia. A temperatura na Península Antártica rondou sempre 1ºC, com vento, muita nebulosidade e frequente queda de neve e chuva. O dia a dia da equipa começava às 07h20 à mesa do refeitório. "Como estávamos numa base sul-coreana, o pequeno-almoço era igual ao almoço e ao jantar: muita sopa picante, por exemplo. Quando íamos trabalhar fora da base levávamos um termo com o almoço, normalmente massa instantânea", explica o geógrafo físico, que ficou na Antártida três semanas – os outros dois colegas ficaram o dobro do tempo.
Chegaram juntos a Lisboa no dia 17 de março, depois de terem estado uma semana retidos numa base antártica chilena por causa do mau tempo.
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