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Correio da Manhã

Domingo
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Presente dos deuses

Se recuarmos um par de anos, o nome de Costa do Cacau ou Itacaré, um lugar remoto no infindável mapa brasileiro, seria estranho até para um baiano de Ilhéus, a cidade mais próxima num raio de 60 quilómetros decorados "apenas" de mata atlântica, praias desertas e um mar perdição de surfistas, baleias e golfinhos.
4 de Setembro de 2005 às 00:00
Presente dos deuses
Presente dos deuses FOTO: Tiago Salazar
"Como é que é? Itacaré? Isso é coisa de jacaré ou picolé?", era a conversa provável no mercado do Malongo com a cabocla elegante ou no botequim de caldos de sururu da bisavó Raimundinha. Na verdade, durante mais de um século, esta costa – a que chamam do cacau graças ao esplendor da sua mata cacaueira dizimada na década de 80 pelo vírus da ‘vassoura de bruxa’ – viveu na solidão. Ou melhor, viveu da exploração do cacau, feita em plantações que cobriam toda a costa e acabavam junto ao mar sem que mais ninguém, excepto o fazendeiro, a família e os caboclos, pudesse usufruir desse presente dos deuses. Antes do vírus dizimar a lavoura, Itacaré era, contudo, um entreposto comercial movimentado e o principal porto de exportação de cacau do sul da Bahia, o cenário ideal para os enredos de Jorge Amado ou João Ubaldo Ribeiro, de quem a fama da Bahia é devedora.
Um dia possível na vida de Itacaré era (e voltou a ser) qualquer coisa como isto: O sol amanhece sobre as águas silenciosas da baía e todos os matizes faíscam por cima das ondinas, dos topos das árvores, do casario suspenso entre as névoas do nascer do sol, dos campanários, das velas de um saveirinho aqui e acolá. Os cheiros são uma mistura almiscarada de maresia, peixe fresco, tabuleiros de comida e mingau, café torrado, lama de mangue, melaço de cana, aromas de flores.
A retoma da Costa do Cacau e da vila de Itacaré só viria a acontecer quando os fazendeiros entenderam converter as fazendas em resorts ou pousadas de ecoturismo – os hotéis do tipo petroleiros estão banidos; aliás, a lei proíbe construções de mais de dois andares. E o que faz esta costa tão "gostosa" como cacau derretido ser a obsessão mais recente dos brasileiros (e portugueses) aficionados de destinos ainda a salvo do turismo de pacote? Não tem o Brasil 2500 km de costa por descobrir? Não tem Trancoso, Fernando de Noronha, Maraú…? Tem, mas nada que se compare com um Brasil assim, de praia sim, praia sim (22 no total) superando a anterior e entregue a menos de meia dúzia de exploradores.
Pode ser sol de pouca dura, mas por enquanto a Costa do Cacau e Itacaré é que é. E para ser mais preciso, o lugar a anotar para uma pernoita de primeira é o Txai Resort, uma propriedade de 30 bungalows em palafita de tecto de sapé e deck de madeira debruçados sobre a praia e sem nada por perto num perímetro de dezenas de quilómetros a não ser clãs de caranguejos, sete milhões e 500 mil espécies de aves e flores e uma faixa de mata atlântica defendida (por ora) do saque com o garante de Reserva de Biosfera da UNESCO.
A decoração do Txai é inspirada nas fazendas antigas e a hospitalidade, a cozinha e a atenção aos pormenores (repare, por exemplo, na escadaria de acesso ao spa tirada da fantasia do pé de feijão) podem torná-lo do dia para a noite uma visita regular para muitos turistas. Mas os atractivos daquele paraíso escondido não se ficam por aqui.
Há, por exemplo, um spa que nos últimos tempos vem sendo votado como a maravilha das maravilhas de toda a América Latina. E também a massagem ayurvédica e as aulas de yoga de Helena Peirão, cujas mãos espertas e suaves nos fazem querer ficar ali para sempre. Depois de uma estada neste paraíso escondido no Brasil não é só o corpo que fica como novo. A alma também regressa a casa com mais chama. É uma verdadeira massagem no corpo, na alma e no ego que o deixa pronto para mais um ano de trabalho.
GUIA DO VIAJANTE
COZINHA INTERNACIONAL
Itacaré é um reduto gourmet com restaurantes a preços da China.
ONDE COMER ?
- Mar e Mel - Fica na praia das Conchas e é o lugar certo para petiscar reinvenções da cozinha baiana como a sanduíche Catalonia feita de verduras refogadas em alho e óleo de dendê.
- Mistura Fina - Mistura fina de comida baiana e forro é o que promete este restaurante no Caminho das Praias, em Pituba.
- Casa de Sapucaia - O dono é francês (Mathieu, de Marselha) e antes de fundar o mais ilustre dos restaurantes de Itacaré era um cineasta alternativo. Fica na Rua Lodónio de Almeida, 84.
- Cabana do Amigão - Na véspera de jantar, e acompanhado de um ‘chope’ ou uma caipirinha, é este o lugar privilegiado para assistir ao pôr-do-sol. O amigão oferece aulas gratuitas de capoeira. Fica na Praia das Conchas.
- Berimbau - O restaurante e bar Berimbau é ponto de encontro de vários artistas famoso. Locais e estrangeiros. Por exemplo: Paul Auster, Leonardo Di Caprio e Gisele Bündchen, ou Gisele "Bundinha", já foram vistos por aqui.
ONDE DORMIR?
- Txai Resort- www.txai.com.br. Tel. 00.55.733.634.6936. Duplo a partir de 250 euros
- Itacaré Ecoresort - www.itacare.com.br. Tel. 00.55.733.251.2233. Duplo a partir de 270 euros€
- ArtJungle - Tel. 00.55.99.982.522. artjungle@sportpatrol.com.br. Duplo a partir de 240€euros
- Sukhavati Resort - info@yogoloji.com our consult 0207 730 8008. Duplo a partir de 2250 euros.
QUE FAZER?
- Rio de Contas à Vela - Nasce na Chapada Diamantina e desagua em Itacaré. Peça para navegar com o Neo do Txai.
- Expedição Alto do Tijuípe - Descida de canoa do rio Tijuípe com banhos de cachoeira e pescarias incluídas.
- Cavalgada - Com 65 km de praias e uma atmosfera de fazenda colonial é um prazer incontornável.
- Fazenda Caranha - Os locais chamam "gozando junto", isto é, com um prazer de mergulhos de mata e oceano.
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