Os raides israelitas mataram libaneses. Os ataques do Hezbollah fizeram vítimas israelitas. E veio o cessar-fogo. Líbano e Israel são países em suspenso do dia seguinte.
A DJ põe na aparelhagem de som ‘Behind Blue Eyes’, dos Limp Bizkit. “Isto não é a Califórnia.” Lamis Abdo está sentada na companhia de um amigo numa mesa do bar Spoon, em Jimayzi, um pequeno bairro alto de vida nocturna no centro de Beirute. Nos arredores da cidade, em Dahiyeh, uma das zonas mais afectadas pelos raides israelitas, seguem ao longo dos escombros dos prédios onde mora uma maioria xiita da classe popular, cartazes do Hezbollah com frases que proclamam vitória sobre Israel e fazem propaganda anti-americana – made in USA, ‘trade mark’.
Lamis, de 18 anos, que durante o mês da crise israelo-libanesa discutia com os amigos política e bombardeamentos, acha aquele estado americano paradigma da liberdade de costumes. Nunca lá esteve. Nunca pisou também Dahiyeh. Lamis e Wassim Nasr, de 20 anos, nunca pararam de se encontrar.
“Partilhávamos as nossas ideias, estávamos juntos e um pouco assustados, é só. Falávamos com os nossos amigos, uns a favor da defesa armada, outros contra, numa espécie de guerra nossa mas muito melhor porque eram só palavras”, diz Wassim, estudante do terceiro ano de Arquitectura. Ouve-se os Limp Bizkit, Lamis marca o ritmo com a ponta das unhas pintadas no tampo da mesa do Spoon. Podia ser em qualquer outro bar do mundo que está em paz, mas não é.
O centro de Beirute foi poupado na inversa proporção do massacre nos arredores da capital e no Sul do país. À beira do Mediterrâneo, Beirute é a capital de um pequeno país de contrastes: 59,7 por cento dos libaneses são muçulmanos (xiitas e sunitas), 39 por cento cristãos (maronitas, ortodoxos gregos, melquitas grego-católicos, cristãos arménios, cristãos sírios e coptas), a que se juntam ainda as seitas dos alauítas e dos druzos.
São 18 as comunidades religiosas reconhecidas. Três milhões e meio vivem numa língua de terra com 10 452 quilómetros quadrados (pouco mais que o distrito de Portalegre), que tem fronteira com dois maus vizinhos e um imenso mar: Israel, Síria e o Mediterrâneo. Os libaneses estão suspensos por fios de seda, numa paz que todos acreditam temporária. Na véspera da noite de copos em Beirute de Lamis e Wassin, a aviação israelita tinha efectuado no Sul o primeiro raide desde o início do cessar-fogo a 14 de Agosto.
"ESTOU EM BOAS MÃOS"
Latifé Mansour está sentada numa cadeira de plástico branca, de costas para o prédio onde vivia em Dahiyeh. Tem o lenço atado firme nos cabelos, é xiita como a maioria ali, tem 26 anos e ao colo uma filha de dois. Parece querer marcar os seus domínios naquela posição quieta indiferente ao mau cheiro e ao pó, de olhar preso na rua aberta ao trânsito pelas máquinas do Hezbollah.
Pediu-lhes ajuda, o movimento que atiçou os israelitas deu-lha. Ela retribui com confiança cega e descrença no governo que não a ajudou: “Estou em boas mãos.” Latifé não estava em casa quando as bombas caíram em Dahiyeh. Quando o fogo acabou, não pôde mais voltar a viver nela. Estava parcialmente destruída. Do seu posto de vigia, Latifé conta como a vida ali nunca foi fácil, mesmo em tempo de paz. Diz que ela e os outros dali são libaneses de segunda, olhados de esguelha.
Enquanto fala, a mágoa cresce e afoga-a. O que sobe tem de sair, diz que ali nunca houve roubos e ladrões, que nunca houve armas do Hezbollah, que só os atacaram porque são pobres. E tudo verte num atropelo que chega mais forte porque chega falado em árabe. “Se os israelitas nos atacarem não esperem que fiquemos quietos. Se nos atacarem, atacaremos uma e outra vez; as vezes que forem precisas para defendermos as nossas casas. Não nos afastaremos um milímetro.” A avenida para onde olha está cheia de cartazes encarnados do partido do Hezbollah. Dizem que ganharam ao israelitas e não foi por acaso: Vitória Divina.
GUERRA APÓS GUERRA
Eva lembra-se da Guerra civil libanesa. Lembra-se com a memória das crianças de ir para o corredor, esconder-se. Tinha três anos. Os seus pais tinham mais ou menos aquela idade em 1948, quando começou a guerra israelo-árabe. Cresceram no pano de fundo da Guerra dos Seis Dias em 1967 e o Setembro Negro na Jordânia que fez deslocar 110 mil palestinianos refugiados para o Líbano.
Em 1975, os palestinianos, que tinham criado um estado à parte no Sul do país, assumiram papel importante na guerra civil libanesa (1975/1990); aquela do corredor do pânico de Eva. Em 1978, Israel invadiu o país, em resposta aos ataques dirigidos através da fronteira e a partir do Sul palestiniano-libanês. Nova invasão em 1982. Três anos mais tarde, os israelitas retiraram do Sul do Líbano mas mantêm uma faixa de segurança. A justificação são os ataques do Hezbollah.
Toda a geração dos pais de Eva cresceu com a guerra. Ela chegou aos 21 anos a achar que o inimigo falava israelita. “Sabemos que eles são assim...”, diz arregalando os olhos escuros como a noite sem lua. Durante a última crise, sempre que as bombas caíram no seu país, inflectiu a convicção no governo e, por causa da raiva que sentia, nesses momentos foi do Hezbollah. Mesmo que saiba que as bombas do partido caíam em cidades israelitas de Haifa, Nazareth, Tiberias, Nahariya, Safed, Afula, Qiryat, Shemona, Karmiel e Maalot e também mataram civis.
A estudante de Sociologia terminou o segundo semestre na Universidade Americana de Beirute, onde para se estudar se pagam seis mil dólares por semestre (4700 euros). O actual primeiro-ministro libanês, Fouad Siniora, estudou lá também, bem como uma selecta trupe de ex-estudantes que incluem alguns governantes sírios.
Eva não pode celebrar o fim do semestre. Fá-lo agora depois do cessar-fogo, de maneira bem mais calma e num bar. “Costumava ir ao Discrit para dançar house e transe mas, nestas alturas, as prioridades mudam para coisas mais básicas.” As luzes sobre o balcão dão de si, a electricidade tem quebras diárias devido ao cerco israelita.
BAIRROS DESTRUÍDOS
O mapa de Dahiyeh está colorido de muitos pontos encarnados, e menos verdes. A cor do sangue indica os prédios arrasados pelas bombas. O mapa está pendurado numa parede do alpendre onde funciona o departamento de planeamento do Hezbollah, uma casa no meio do bairro destruído. É ali que o partido mais evidencia organização.
O homem, que recusa identificar-se, desfila ligeiro a lengalenga sobre a máquina da reconstrução: “Trabalhamos em dois grupos, um que avalia as casas totalmente destruídas e outro as parcialmente destruídas. No primeiro andar regista-se o nome das famílias e analisa-se a sua situação. Dahiyeh está dividida em quatro zonas e cada zona tem um grupo de trabalho, uma equipa especializada com engenheiros e etc. que vai ao local e dá o seu parecer.”
O Hezbollah paga dez mil dólares (7800 euros) aos proprietários de casas arrasadas, oito mil (6250 euros) aos de parcialmente destruídas. Construção da casa à parte. E ainda arranja dinheiro – dois mil dólares (1562 euros) – para aqueles que em Dahiyeh eram arrendatários.
Fadi Bleibed, de 40 anos, já deu o seu nome ao planeamento do Hezbollah. Quando as bombas esmagaram os prédios, o funcionário da companhia de electricidade fugiu do seu apartamento arrendado. Em prostração, sentado numa cadeira com vista para aquela que já foi a sua casa, diz que agora só pensa em arranjar uma nova ali no bairro. Não quer sair de lá, mas não é fácil: “Há muita procura de casas e pouca oferta. Os preços subiram muito.”
Nos prédios altos de Dahiyeh, os que não caíram por terra ou que escondem o ventre exposto noutros pelas bombas, passou a ser complicado arrendar uma casa; o que custava 200/300 dólares (156 euros/ 234 euros) por mês, passou a custar 700 dólares (546 euros). “E não há”, diz Fadi Bleibed.
Ficar no bairro é ponto de honra para a maioria, uma forma de resistir sem armas. Miriam Nourel Dine vive ali há 15 anos com a família. Não pretende sair. Depois de ter a autorização do marido, condição da mulher xiita para falar, parece um rio a quem abriram o dique: “A resistência venceu esta guerra e se Nasrallah (líder do Hezbollah) ficar, nós vamos ficar também e enquanto ele for vivo nós vamos viver também!”
CASAMENTO SEM FESTA
Na Rue des Capucines, junto ao edifício do governo, no centro de capital, Fasli e Nada Mazboudi posam sozinhos para a objectiva de um fotógrafo. Acabaram de se casar. No seu vestido de noiva, branco, ocidental e pomposo, Nada, que vivia na desgraçada Dahiyeh, ensaia o seu melhor sorriso para a posteridade. Não era o que tinha planeado. A festa estava marcada para dia 21 de Julho, mas o começo dos bombardeamentos adiou, na altura ‘sine die’, a boda e a lua-de-mel na Turquia. Fasli e Nada casaram assim que puderam quando veio o cessar-fogo porque – dizem – se amam e acham que a guerra vai voltar. Casaram sem convidados, sem música e sem a viagem turca, mas casaram.
Esta urgência de que tudo pode acabar amanhã obriga a viver mais depressa. Se ali pudesse haver uma banda sonora teria os versos de Adriana Calcanhotto, com música triste. Se houvesse faria tanto sentido: “Pensei que o mundo ia se acabar / E fui tratando de me despedir / e sem demora fui tratando de aproveitar”. Carly Sawaya, professora de 25 anos, sente essa pressa que antecede qualquer coisa de definitivo. Fuma cigarro atrás de cigarro, bate a perna contra a mesa: “Os americanos são contra o Hezbollah, que nunca se vai render, e apoiam os israelitas, por isso não creio na paz. Não é o fim, é um período de divertimento, para aproveitar enquanto não regressamos a casa, ao medo, à televisão para ver o que acontece.” Quando pode e a paz permite, Carly costuma esquecer numa discoteca o mundo e o seu próprio corpo em espasmos libertadores ao som alto do trip hop.
Quando acabou a guerra civil, o Líbano empenhou-se numa reconstrução que aproveitou a ajuda estrangeira. A capital, Beirute, antes conhecida como a Paris do Oriente, foi reconstruída. Ganhou em turismo. O país ganhou cognome extraordinário – a Suíça do Oriente, devido ao fervilhar financeiro. Entre 1975/1990, o período da guerra civil, o Líbano era o país com pior qualidade de vida na região, depois passou a ter um dos mais elevados padrões de vida do Médio Oriente.
SEIS MIL VOLUNTÁRIOS
Xeque Mohamad Hussein Ayad está sentado na tenda do Hezbollah a meio da avenida onde Latifé Mansour ferve sua raiva. Fala por parábolas intraduzíveis sobre o papel dos homens religiosos na guerra divina. É filho de um importante xeque de Najaf, a cidade santa xiita no Iraque onde também estudou.
Xeque Mohamad sabe que o Conselho Superior Xiita do Líbano apoia a resistência. Isso confere, o mesmo não poderá fazer à possibilidade de haver ajuda directa ao Hezbollah. De Najaf para Dahiyeh. Ali escreveu o livro, soterrado pelas bombas dentro daquela que outrora foi a sua casa. Era sobre filosofia e valores humanitários, diz, e era também o único exemplar. “Tenho vindo todos os dias ver como está a casa.”
A tenda onde está o xeque tem à entrada uma mesa onde se serve sandes e Pepsi-Cola aos voluntários. Ghasson Darwich está ali sentando de boné caqui na cabeça e óculos escuros na cara. É o porta-voz do Hezbollah. Darwich diz que no bairro contam com seis mil voluntários e refere-se ao governo libanês como se fosse mais um: “Enviaram camiões do lixo ontem e estão a ajudar-nos imenso. O Hezbollah está a coordenar esta operação e vamos levar dois meses a tirar o lixo. Há muitas companhias a trabalhar connosco provenientes do Líbano e de países árabes amigos.” De quais não diz, mas são estes mesmos que lhes enviam também dinheiro. “Apesar de ainda não ter acontecido, o Hezbollah não tem reservas em aceitar dinheiro de outros países, desde que isso não interfira com as ideias do Hezbollah.”
A Häagen-dazs gelados está à beira da praça Nejmeh. Ali desembocam também lojas ocidentais de marcas boas num redondel onde as fotografias da desgraça ajudam a não esquecer o massacre de Caná. A cidade do Sul libanês foi atingida pelas bombas israelitas em 18 de Abril de 1996 e agora a 30 de Julho. Há dez anos morreram 102 pessoas. Há um mês 62.
Uma faixa no passeio acusa em inglês: “Canan: Jesus first miracle, Israeli first massacre” (Caná: o primeiro milagre de Jesus, o primeiro massacre de Israel). Uma alusão a uma ferida aberta e ao local onde Jesus da água terá feito vinho. Em Dahiyeh, entre os irmãos Dia há um que se chama Jihad, nome para Guerra Santa. Os Dia têm uma empresa de confecção de roupa de homem e a prosperidade sempre assentou nas idas a Itália. Da Turssardia deles só restou muita pedra. O Hezbollah paga. “É claro que temos a empresa na seguradora, mas não há seguro contra a guerra...”
O homem que leva a guerra santa no bilhete de identidade acredita que ‘victory and freedom’ chegarão ali um dia. E então, a xiita Dahiyeh passará a chamar-se ‘City of Victory’. A Cidade da Vitória.
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