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Primeiro dia do resto das suas vidas

É hoje. Portugal começa a sua aventura no Mundial contra um país irmão. A última experiência contra Angola não deixou boas recordações, mas a história não deverá repetir-se. Ronaldo vai ser o centro de todas as atenções.

11 de junho de 2006 às 00:00

George Orwell, autor de ‘O Triunfo dos Porcos’ e ‘1984’, não gostava de futebol. Muito menos de jogos entre selecções. “Quem tenha jogado uma só partida de futebol na escola sabe-o: a nível internacional, o desporto é a imitação da guerra. (...) É a guerra sem os tiros”, dizia. Há quatro anos, no Estádio de Alvalade, Portugal e Angola deram-lhe razão. Hoje, o jogo repete-se, e desta vez a sério.

Nada indica que algo semelhante aconteça, mas a tensão será enorme. De entre os 22 jogadores que vão subir esta noite ao relvado do RheinEnergie Stadion, em Colónia, um entra fragilizado: Cristiano Ronaldo. Pelas condenáveis atitudes que teve nos encontros com Cabo Verde e Luxemburgo e por lhe ser estranha a obrigação de se controlar, pois costuma ser ele o próprio a colocar os adversários sob essa obrigação.

Tudo porque frente ao Luxemburgo, Ronaldo desvalorizou o dom que faz dele uma das maiores promessas deste Campeonato do Mundo e, em vez dos pés, usou as mãos. Apertou o pescoço a um adversário e denunciou a imaturidade que o seu futebol, quando jogado de boca calada e sem gestos, não deixa perceber. Provocá-lo será uma compreensível tentação e só não jogando Ronaldo estará a salvo.

No jogo do Luxemburgo, Portugal perdeu um pouco do jogador que mais inspirado esteve na fase de qualificação, mas ganhou muito de um outro: Luís Figo. Ainda mal tinha tocado na bola e já divertia as bancadas, por se passear no relvado com a etiqueta dos calções – bem grande, por sinal – para fora. Por momentos, deu a sensação de que os tinha vestido ao contrário, mas afinal era só a irreverência do novo equipamento, preto e amarelo, que a selecção nacional estreou.

Nas bancadas, os emigrantes portugueses criavam a ilusão de se estar num estádio português, ampliada pelo facto de até a arquitectura do recinto ser igual à do Estádio do Algarve. Cantaram o hino de pé e tiveram Luiz Felipe Scolari como voz de apoio. Deco, apesar de burocraticamente mais português, ficou em silêncio.

No final houve folga e os jogadores aproveitaram-na como se dos descontos de uma grande final se tratasse. Montados nas palavras de desresponsabilização do seleccionador aquando das noitadas durante o estágio em Évora, a maioria partiu em busca dos encantos da noite e mal dormiu antes da viagem para a Alemanha.

Num país onde os portugueses desde há décadas fazem sacrifícios por uma vida melhor, os jogadores deixaram a ideia de que estão pouco disponíveis para o fazer. Nem mesmo por um evento tão especial como um Campeonato do Mundo. Armando Teixeira, um dos irmãos de Petit acabados de emigrar para o Luxemburgo como empregado de mesa, também perdeu a noite. Mas se quis matar saudades do mano teve de abdicar do seu descanso e fazê-lo entre dois dias de trabalho.

Noutros tempos, Toni, avançado da selecção sub-20 campeão do Mundo em 1991, em Lisboa, também conheceu hotéis como o Hilton. Mas a vida mudou e hoje o mais provável não é que lá durma mas que ajude a construí-los. Toni ainda emigrou como futebolista para a II Divisão, mas actualmente ganha a vida na construção civil. Como trolha.

A selecção nacional entrou na Alemanha vitoriosa, com uma recepção portuguesa que “superou as melhores expectativas”. No dia da chegada, os emigrantes transformaram Marienfeld numa espécie de Alcochete, em que só faltaram mesmo os sobreiros e o Tejo. Eram aos milhares e no dia seguinte, em Gütersloh, multiplicaram-se para mais do triplo. Lotaram os 12 500 lugares do estádio local e ainda ficaram à porta, pendurados em árvores ou abraçados a postes de alta tensão.

Num ambiente nunca visto, nem mesmo em Portugal durante o Euro’2004, a excitação chegava a roçar o ridículo dado o pouco que se via no relvado. A rotação dos braços ou o esticar de uma perna foi motivo para histeria e gritos mais estridentes do que os festejos de muitos dos golos do campeonato português. Não admira, a assistência média destes treinos em Gütersloh é muito superior ao número médio de espectadores da maioria dos estádios nacionais. O barulho era tanto que, no relvado, jogadores e treinadores nem se ouviam.

Como é hábito, a selecção nacional ajuda a trazer as mulheres ao futebol. Naquele dia, eram às centenas, incluindo alemãs. Todas estavam de acordo: Figo e Cristiano Ronaldo “são os melhores e mais bonitos”. Heike Spinnen concorda mas não fica indecisa entre um e outro. “Prefiro de longe o Figo. Somos da mesma idade e tem um charme invulgar para um jogador de futebol”, afirmou sorridente, pois tinha o marido ao lado e este pouco percebia de inglês.

Até na sensualidade masculina Portugal está, como nunca, ao nível dos melhores. E se de beleza se tratasse, era já campeão, por ser o único país com dois jogadores – Figo e Ronaldo – entre os cinco mais bonitos do Mundial’2006.

É também por eles que mais se grita à porta do Hotel Kloscerpforte, rasgado na paisagem verdejante de Marienfeld. Os pássaros abundam junto ao relvado em que treinam os portugueses, por vezes com um rebanho de ovelhas a pastar a poucos metros dos craques. As crianças – muitas filhas de emigrantes – que assistem como apanha-bolas não reparam. Têm os olhos fixados nos ídolos.

“São mais grandes do que na televisão”, diz Marcelo, que, intrigado com tantas questões, só aceita continuar depois de esclarecido sobre a identidade de quem pergunta. O privilégio de assistir, a dois metros, ao despique de cantos directos entre Deco e Ronaldo é, porém, muito restrito. A maioria tem de contentar-se em vê-los passar ao fundo. Enquanto esperam, alimentam o sonho de ver Portugal campeão com as recordações do Euro’2004. Scolari é mais prudente, mas garante uma campanha vitoriosa: “Se chegámos como sétimos do Mundo, temos de estar entre os oito primeiros. O resto é lucro.”

Angola, o primeiro adversário, não ambiciona tanto. Nem pode, dada a diferença de valor entre as equipas. Diferença que logo salta à vista quando se compara o ambiente de Marienfeld com o de Celle, a cidade alemã onde os angolanos preparam o Mundial. À entrada há uma faixa de boas-vindas igual à de Portugal, e é dos raros elementos que revelam a presença de Angola. Nada de bandeiras, cachecóis e cartazes a anunciar ‘sardines assadas’ como em Marienfeld.

O melhor que se pode encontrar são dois pendões da bandeira angolana hasteados por uma cadeia de supermercados norte-americana no seu parque de estacionamento. Em Gelsenkirchen, a cidade industrial onde há dois anos o FC Porto de José Mourinho se consagrou campeão europeu, o ambiente é bem mais animado. Além da propaganda da FIFA , abundam as bandeiras à janela.

É aqui que reside Ensan, um iraniano de 26 anos, a viver na Alemanha desde os dez. Não acredita que o Irão – o segundo adversário de Portugal – ameace sequer a equipa portuguesa. E pouco se importa com isso. Preocupa-o mais que o Irão tenha o presidente que tem. “Enquanto lá estiver será impossível evoluir, no futebol e em tudo”, lamenta.

Felizmente, os adeptos portugueses não têm destas preocupações. Podem concentrar-se no espectáculo do jogo. Com a certeza de que a chave do jogo de estreia – e do Mundial – passa muito pela forma como Cristiano Ronaldo reaja à pressão esta tarde. Durante a semana, o jovem mostrou--se descontraído, mas não discreto. Não houve treino em que não ensaiasse uma dúzia de malabarismos com a bola, ora do pé para trás do pescoço ou em sucessivos toques com o calcanhar, ora até fazendo a sua famosa finta de progressão em bicicleta, mas para trás.

Houvesse em Portugal alguém a escrever sobre futebol como Jorge Valdano e já teria sido escrito sobre Ronaldo o que ele disse de Lionel Messi: “É um jogador que elimina adversários e isso converte-o numa espécie de terrorista do futebol actual.”

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