Nos anos 80, uma explosão devido a fuga de gás vitimou uma turma e testou cuidados médicos
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Sexta-feira, 16h30 de 25 de Janeiro de 1985. Da janela da sala ANG-2 do 1º andar do edifício B da Escola Secundária do Cartaxo, onde estava o 8º C, o céu, apesar de carregado pelas nuvens de Inverno, estava sereno, em contraste com o cenário de pânico que tomou o estabelecimento de ensino.
A explosão provocada por uma fuga de gás de um terminal de alimentação instalado na sala, e sem torneira de segurança, a par da chama de um isqueiro, fizeram com que alguns alunos se atirassem pelas janelas para as poças de água no solo. Procuravam apaziguar a dor que lhes consumia o corpo. Outros tentavam agarrar-se à vida, estendidos no chão entre os objectos que aludiam à aula de Educação Visual que não teve tempo de começar. Paulo Tavares foi uma das vítimas. Tinha 14 anos.
"As marcas ficaram para sempre. São coisas que não se conseguem controlar. Agora, este caso da actriz Sónia Brazão – vítima de uma explosão provocada por uma fuga de gás no dia 3 de Junho e que lhe provocou queimaduras em 90% do corpo – veio recordar tudo", diz, emocionado.
SEM EXPLICAÇÃO
As recordações, 26 anos depois, continuam tão precisas quanto as marcas na pele. "Sentimos um cheiro estranho, intenso, e abrimos as janelas, mas a professora mandou fechá-las porque estava frio". As salas "estavam destinadas a laboratórios de aulas de Química e, como tal, tinham sido colocadas bancadas com tubos de gás. Mas foram escolhidas para as aulas de desenho. Ninguém sabe o que causou aquela fuga, o cheiro que estava no ar não era de gás, era diferente. Nunca se apurou a causa daquele acidente", lamenta Paulo Tavares, um dos mais marcados, no rosto, no corpo e nas mãos e o único que aceita falar sobre o acidente. Os outros contam a tragédia com o próprio rosto.
Paulo foi assistido no Hospital de Santarém e depois reencaminhado para o S. José. Hoje, aos 41 anos, após 20 operações dolorosas, tem uma vida normal. Dirige a churrasqueira que era do pai, é casado e pai de dois filhos. "Ainda é doloroso. Pouco depois do acidente e na fase de recuperação deixava que me fotografassem, agora não. As cicatrizes são visíveis. Acho que consegui arrumar os constrangimentos com a ajuda dos amigos e familiares. Mas prefiro não falar muito disso".
NO CENTRO DA TRAGÉDIA
À sua maneira, a pacata comunidade, situada no coração do Ribatejo, aprendeu a superar a tragédia. Mas as marcas subsistem, à vista de todos. Vasco Cunha, o actual presidente da distrital de Santarém do PSD, tinha 18 anos quando testemunhou os efeitos de uma catástrofe sem precedentes.
"Senti uma onda de choque, os edifícios a abanar e um barulho enorme, até que minutos depois a sirene dos bombeiros começou a tocar, seguida das sirenes das viaturas que começaram a acorrer ao local. Por essa altura já ia a caminho da escola e encontrei um dos meus amigos, que vinha ensanguentado, a cambalear. Estava na sala ao lado daquela onde ocorreu a explosão e, na aflição, enquanto tentava tirar alguns colegas, ele espetou um vidro da janela no braço".
Vítor Rodrigues, 51 anos, estava de serviço nos bombeiros locais. "Fomos chamados para acudir as vítimas de uma explosão. Foi a corporação inteira e também bombeiros de fora. Quando saímos do quartel, que fica a cerca de um quilómetro da escola, não sabíamos a gravidade do acidente". No local, confirmou-se a visão do drama. "Era o pânico. Alguns alunos tinham saltado pela janela, os pais corriam para a escola. Estes acidentes com queimados são muito dolorosos e quando envolvem crianças ainda mais. Conhecíamos as vítimas e as famílias. Nessa situação, tentamos concentrar-nos, focar a nossa acção no socorro aos acidentados".
Sérgio Serra, hoje director do Centro de Saúde do Cartaxo, foi, à semelhança de todos os médicos e enfermeiros da região, chamado a socorrer as vítimas. A primeira impressão foi esclarecedora. "Quando cheguei ao já extinto hospital do Cartaxo havia um cheiro a pele queimada. A grande maioria das vítimas já estava a ser tratada por médicos e enfermeiros que entretanto tinham respondido ao apelo. A rádio local estava a transmitir o sucedido em directo e as pessoas, aflitas, começaram a chegar ao hospital, a querer entrar. A GNR teve mesmo de fazer um cordão humano. Depois de termos enviado seis jovens queimados para o Hospital de Santarém, tínhamos o largo do hospital pejado de ambulâncias de todo o distrito, como nunca tinha visto".
Foi, então, tempo de contactar o Hospital de S. José, em Lisboa, para que este pudesse receber os sinistrados graves, 17 no total, entre os quais a professora Dália Silva, de 30 anos, que viria a fazer 36 operações durante a sua vida e que, por infortúnio, viria a ser assassinada pelas mãos do companheiro em Almeirim, e os dois jovens – Carla Branco e Fernando Seabra, ambos de 13 anos – que acabariam por falecer poucos dias depois da explosão.
TRATAMENTO HOSPITALAR
A cirurgiã plástica Zinia Serafim, da Unidade de Queimados do Hospital D. Estefânia, em Lisboa, que estava de serviço no dia 25 de Janeiro na Unidade de Queimados do Hospital de S. José, então dirigida pelo já falecido médico Joaquim Cardoso Nava, relembra a falta de informação relativamente às vítimas e à natureza do acidente.
"A informação que veio é que havia cerca de 30 crianças queimadas e uma professora. Quando chegaram ao hospital constatámos que eram crianças mais velhas do que pensávamos e que tinham sido vítimas de uma explosão de gás numa escola". Actualmente, se houvesse uma catástrofe dessas proporções, "o INEM montaria um hospital de campanha no local, trataria de estabelecer contactos em rede e evacuaria as vítimas para a unidade que melhor se adequasse às suas necessidades", esclarece a vice-presidente da Associação Amigos dos Queimados.
Apesar das limitações da época, toda a equipa foi chamada a prestar auxílio. "Médicos, enfermeiros e pessoal auxiliar mobilizaram-se para lá dos seus horários e rotinas. Foram canceladas quase totalmente as tarefas do Serviço de Cirurgia Plástica Reconstrutiva para concentrar o trabalho na Unidade", revela Francisco Ribeiro de Carvalho, presidente da Sociedade Portuguesa de Cirurgia Plástica Reconstrutiva e Estética que, na altura dos factos, participou no tratamento de todos os sinistrados, tendo mesmo operado alguns deles.
"À época, a Unidade de Queimados do Hospital de S. José era apenas uma enfermaria e um espaço adaptado ao tratamento dos grandes queimados. Podia receber quatro ou cinco pessoas no total. Possuía uma sala de banhos e pensos e uma sala de operações, sem os requisitos necessários a uma verdadeira Unidade de Cuidados Intensivos que deve ser um local de tratamento desses doentes".
Eram, por isso, "muito deficitárias as condições que existiam. Só um grande empenho permitiu que apenas dois jovens, com uma situação clínica irreversível pela magnitude das lesões, tivessem falecido". O caso interessou a toda a comunidade científica, já que, "do ponto de vista médico e epidemiológico, era uma oportunidade para estudo", tal como admite Francisco Ribeiro de Carvalho. No entanto, não houve tempo para isso. "Todos estavam absorvidos com um trabalho excessivo e sem as melhores condições".
O LUTO
Carla Branco, "a menina de olhos verdes", como era chamada pelos pais adoptivos, faleceu às 16 horas, no dia 28 de Janeiro. No cortejo fúnebre esteve Manuela Eanes, esposa do então Presidente da República, Ramalho Eanes. Sete dias depois, a 4 de Fevereiro, a rádio do Cartaxo anunciava às primeiras horas da manhã a morte de Fernando Seabra.
A freguesia de Vila Chã de Ourique, de onde era natural, acorreu a casa da família mas os pais do ‘Fernandinho’, como ainda hoje é recordado, já estavam a caminho de Lisboa, destruídos. O luto integral ainda persiste. Se fosse vivo teria feito 40 anos no passado dia 8 de Junho. Ainda assim, nunca foi esquecido, tal como comprovam o ramo de flores e as velas acesas junto da sua última morada.
VÍTIMAS ALCANÇARAM UMA "VIDA NORMAL"
Só em 2003 as vítimas receberam indemnização do Estado. Joaquim Babo foi responsável pela fase final do processo, que "tinha começado mal", recorda. "Os valores fixados pelos próprios eram muito baixos", diz o advogado, que depois de levar o caso à Procuradoria-Geral da República conseguiu negociar um acordo mais vantajoso. Dos encontros com as vítimas, guarda uma lição de vida. "Não se mostravam limitados, não tinham sinais de mágoa ou de revolta. Todos têm relações normais. Impressionou-me a normalidade com que recuperaram as suas vidas".
NOTAS
ACORDO
Em 2003, algumas das vítimas receberam indemnizações entre 80 mil e 175 mil euros.
LIMITAÇÃO
Uma avaliação médica estabeleceu o grau de incapacidade das vítimas entre 29 e 80 por cento.
ESCOLA
A escola tinha sido construída há cinco anos, ao abrigo do programa luso-americano acordado a 30 de Setembro de 1977.
ASSISTÊNCIA
O Instituto de Acção Social Escolar pagou a assistência médica, cirúrgica e medicamentosa prestada às vítimas queimadas.
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