Publicada ao longo de quatro décadas, ‘Mundo de aventuras’ foi a revista que mais marcou a banda desenhada em Portugal.
Ainda hoje, Carlos Alberto Santos não sabe como ficou ligado à história de ‘Mundo de Aventuras’, a revista de banda desenhada que marcou gerações de portugueses, pois foi publicada todas as semanas, entre 18 de agosto de 1949 e 15 de janeiro de 1987, com 1841 edições cheias de heróis quase sempre importados dos EUA. Não foi o caso de ‘A História Maravilhosa de João dos Mares’, com textos de Augusto Barbosa, que o então adolescente de 16 anos ilustrou para o primeiro número, publicado há 65 anos, quando trabalhava para um estúdio gráfico e de publicidade.
Não foi a única colaboração do artista, autor dos famosos cromos da ‘História de Portugal’, com a duradoura publicação da Agência Portuguesa de Revistas, que começou por chamar-se ‘O Mundo de Aventuras’, mas logo perdeu o artigo inicial, mantendo a quinta-feira como o dia mais aguardado pelos jovens. "Aquela que me deu mais satisfação, até porque o último trabalho será sempre o melhor, foi ‘Camões, sua Vida Aventurosa’", disse Carlos Alberto Santos à ‘Domingo’, referindo-se à história, publicada nos anos 70, sobre o autor de ‘Os Lusíadas’.
Quando nasceu, com 12 páginas por um escudo e meio, ‘O Mundo de Aventuras’ concorria com ‘O Mosquito’ e ‘O Diabrete’, mas foi uma ‘pedrada no charco’ a marcar a diferença. "Naquela altura, as revistas portuguesas estavam muito antiquadas", refere o arquiteto e especialista em banda desenhada Leonardo de Sá, apontando inovações: "As histórias americanas de aventuras agarravam a juventude, até porque tinham a dinâmica dos balões de diálogos, em vez do texto a aparecer abaixo das vinhetas."
Apesar de o conteúdo ser quase todo criado do outro lado do Atlântico, sucederam-se ‘aportuguesamentos’, alguns decorrentes de chegarem aos escritórios de Lisboa os materiais que a King Features Syndicate também destinava a Espanha e à América Latina. ‘Steve Canyon’ deu por si a chamar-se ‘Luís Ciclón’, passando de seguida a ‘Luís Ciclone’. Ainda mais estranho para quem encontre as edições dos primeiros anos nos alfarrabistas é ver ‘Flash Gordon’ a responder por ‘Roldan, o Temerário’ e ‘Johnny Hazard’ transformado em ‘João Tempestade’. "Havia algumas pressões da censura para que os nomes não fossem estrangeiros", diz Leonardo de Sá à ‘Domingo’. Daí resultaram "nomes que agora parecem caricatos", como o ‘D. Enigma’ atribuído ao mágico e hipnotizador ‘Mandrake’.
Para maiores de 17
Durante muito tempo, as histórias eram de continuação, pelo que em cada revista havia 10 a 20 aventuras de heróis diferentes, que prosseguiam na semana seguinte. De igual forma, nos números iniciais não havia uma capa propriamente dita, e as tiras corriam logo desde a primeira página.
A revista começou por ser dirigida por Mário de Aguiar – sócio de António Dias na Aguiar & Dias, mais tarde Agência Portuguesa de Revistas –, mas essa missão foi entregue a José de Oliveira Cosme a partir do número 20. O autor de ‘As Lições do Tonecas’ rodeou-se de talentos, como Roussado Pinto e o desenhador Vítor Péon, cuja saída, em meados dos anos 50, abriu caminho a Carlos Alberto Santos, encarregue de criar capas apelativas, com o herói destacado nessa edição.
Embora a Comissão da Censura para a Literatura Infantil tenha feito aparecer na capa, em 1950, a menção "semanário juvenil para maiores de 17 anos", os leitores do ‘Mundo de Aventuras’ tendiam a ser mais novos. No Portugal do Estado Novo, as histórias de ficção científica, ou passadas em ambientes exóticos, eram a escapatória perfeita. "Comprava-se por alguns tostões e ficava-se com a revista, enquanto num filme ou no teatro as entradas eram mais caras", diz Leonardo de Sá.
Séries e formatos
Quem tenha colecionado desde o início apercebeu-se de mudanças, incluindo o facto de as aventuras de heróis mais populares passarem a ter princípio, meio e fim. Também não poderá ter deixado de notar que o formato tabloide original, pouco manuseável, foi reduzido naquilo a que os editores convencionaram chamar segunda série. Mais duas séries existiriam, sem que a numeração fosse alterada, até que depois do número 1252, que animou a quinta-feira de 20 de setembro de 1973 a rapazes que tinham no horizonte a Guerra do Ultramar, teve início aquilo a que a Agência Portuguesa de Revistas chamou quinta série. E dessa vez, a 4 de outubro de 1973, regressou-se mesmo ao número um.
Aos últimos anos do ‘Mundo de Aventuras’ ficou umbilicalmente ligado Jorge Magalhães, cujo entusiasmo pela banda desenhada o levara a assinar a revista em Porto Aboim, onde trabalhava no Instituto do Café, que fora transferido para Angola por decreto do ex-ministro do Ultramar Adriano Moreira. Era a forma de a conseguir ler sem os seis meses de atraso habituais que as sobras de cada número demoravam a chegar à então província ultramarina.
Aproveitando uma licença graciosa de seis meses, que os funcionários públicos no Ultramar podiam gozar de quatro em quatro anos, entrou nos escritórios da Agência Portuguesa de Revistas no verão de 1973, recomendado por Vasco Granja, então diretor da revista ‘Tintim’. Não era a primeira vez que o fazia. "Em 1959, ainda era menino e moço, mas já gostava de escrever, fui à redação do ‘Mundo de Aventuras’, em Campo de Ourique, e mostrei alguns dos meus contos de aventuras a José de Oliveira Cosme", recorda à ‘Domingo’ o homem de 76 anos que foi o responsável pela revista até ao fim, quando ainda tinha uma tiragem de dez mil exemplares.
Heróis e policiário
Mário de Aguiar tinha desfeito a sociedade, deixando a Agência Portuguesa de Revistas – com dezenas de publicações, que iam da ‘Crónica Feminina’ à cinéfila ‘Plateia’ – nas mãos de António Dias e António Verde (pai de Rui Verde, futuro vice-reitor da Universidade Independente), sendo este último o diretor ‘formal’ do ‘Mundo de Aventuras’.
Estando Jorge Magalhães sem nada para fazer, começou a fazer traduções. "Eram pagas por balão, à terça-feira, e não era mau", recorda. Chegou a ter passagem para Angola, onde deixara "a livralhada encaixotada", pois tinha em vista a transferência para o Lobito. Deu-se o 25 de Abril e ficou com um lugar de revisor, que depressa acumulou com o de coordenador editorial do ‘Mundo de Aventuras’.
"Pedi logo o mapa de vendas, para ver quais eram os heróis que vendiam mais", recorda. Não teve surpresas: ‘Mandrake’, ‘O Fantasma’, ‘Flash Gordon’ e ‘Rip Kirby’ eram garantia de escoamento da tiragem, então nos 25 mil exemplares. Nos tempos do PREC escapou às pressões, mesmo ouvindo protestos contra o "colonialismo" de ‘Tarzan’ ou o "imperialismo" de ‘Johnny Hazard’. "Os heróis mais contestados foram deixados à sombra dos outros", comenta.
Revitalizar a revista envolveu introduzir novos heróis, recuperar talentos (incluindo José Baptista e Augusto Trigo), e encontrar colaboradores, como Artur Varatojo e o ‘Sete de Espadas’, grande dinamizador da secção ‘Policiário’, cujos encontros juntavam centenas de leitores em várias partes do País.
O declínio começou nos anos 80, por "má gestão empresarial", após a morte prematura de António Dias, em 1976. Pouco antes, convencera-o a aprovar um número especial de Natal, "pois tinha um trunfo na manga", que era a predileção do administrador pelas histórias do ‘Príncipe Valente’.
"No final era desolador ver aquela casa a afundar-se", lamenta Jorge Magalhães, que só saiu quando a Agência Portuguesa de Revistas fechou portas. Uma nova administração ainda a tentou recuperar, mas o ‘Mundo de Aventuras’, e outras publicações, já só vivem nas memórias de quem os leu.
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