Fantasia, culto do terror, homem sem rosto. ‘slender man' é uma lenda urbana, mas duas adolescentes tentaram matar em nome dele.
O homem sem rosto veste fato e tem entre quatro a oito tentáculos negros que se projetam a partir das suas costas. Reza a lenda que persegue e assombra crianças. Que está em todo o lado, mas nem sempre se deixa ver. "Desliguei a lanterna – por algum motivo, ter a lanterna desligada dava-me a sensação de que ‘ele’ também não me podia ver – e mais uma vez deparei-me com ele e, de novo, ouviu-se aquele som ensurdecedor. Com o coração a bater a mil, comecei a correr (...)." Pedro Ribeiro tem 18 anos e descreve a primeira vez que se aventurou no ‘Slender’, um jogo de terror/sobrevivência para computador que repescou uma personagem que nasceu em 2009 num concurso e se transformou numa lenda urbana capaz de matar: ‘Slender Man’ (‘O Homem Esguio’).
Foi o que tentaram Morgan Geyser e Anissa Weier, duas adolescentes americanas de 12 anos: esfaquearam dezanove vezes uma colega de escola da mesma idade em Waukesha, no Wisconsin, numa tentativa de homicídio que chocou os Estados Unidos e arrepiou o resto do Mundo. As menores explicaram aos investigadores do caso que queriam um convite para entrar na mansão de ‘Slender Man’ e ali passarem a ser uma espécie de servidoras leais do homem sem rosto. Para isso – contaram à polícia – teriam de sacrificar alguém, caso contrário este mataria as suas famílias. "Foi estranho não ter sentido remorsos", disse uma delas. "A parte má de mim queria que ela morresse. A parte boa queria que ela vivesse", desabafou a outra durante o interrogatório. Apesar das investidas, que atingiram órgãos principais, a vítima conseguiu sobreviver para pedir ajuda.
Andrew Peck, investigador da University of Wisconsin, que estudou o fenómeno ‘Slender Man’, disse à ABC News: "Ele pode ser o que cada um quiser que ele seja. Isso é que explica o sucesso desta personagem. É misterioso e ao mesmo tempo impossível de compreender." Certo parece ser que o caso das adolescentes americanas não foi o único de agressões cometidas em nome da terrível criatura que assombra na internet e nos jogos de computador. Poucos dias depois, um casal atirou a matar a dois agentes da polícia de Las Vegas, antes de se suicidar. Segundo a vizinhança, Jerad Miller costumava mascarar-se de ‘Slender Man’. Um dia antes escrevera no Facebook: ‘O amanhecer de um novo dia. Que todos os nossos próximos sacrifícios possam valer a pena’. Na mesma semana, uma jovem de 13 anos, no Ohio, também nos Estados Unidos, vestida com uma máscara branca, atacou a mãe com uma faca. Também ela idolatrava ‘Slender Man’.
Nasceu num concurso
Quando Victor Surge criou duas fotografias a preto e branco onde se viam crianças e uma criatura misteriosa que as perseguia estava longe de imaginar a repercussão que ia ter a personagem. A ideia do concurso de Photoshop do site Something Awful era transformar fotografias normais em imagens arrepiantes através da manipulação digital – e depois partilhá-las em fóruns dedicados ao paranormal. No mesmo ano, o primeiro trabalho envolvendo a personagem – ‘Marble Hornets’ – foi lançado no YouTube e publicado por capítulos ao longo dos meses seguintes. Daí a chegar ao site Creepypasta, que disponibiliza contos de terror – onde as adolescentes americanas o terão conhecido – não demorou muito. O administrador do site já veio a público defender-se do que aconteceu em Waukesha, no Wisconsin. "Não acredito que seja culpa do ‘Slender Man’ ou de contos de horror em geral. Tal como as pessoas não veem o ‘Hannibal’ [série americana de terror e thriller psicológico] e transformam-se em assassinos em série".
Jogo de terror
Para aproveitar a popularidade que o ‘Slender Man’ atingiu no Creepypasta, Mark J. Hadley, da Parsec Productions, desenvolveu o jogo ‘Slender’, lançado em 2012. "O jogador está numa floresta durante a noite e tem de procurar por páginas com mensagens e desenhos enquanto é perseguido pelo famoso ‘Slender Man’", explica o jogador Pedro Ribeiro, que a ‘Domingo’ encontrou no fórum Portugal Paranormal. "Estava tão assustado com toda aquela atmosfera que já não olhava para trás, apenas corria em frente. Se o jogo é assustador? Sim, é. Ele combina a escuridão de uma floresta com os tambores, que tocam durante todo o jogo, juntamente com o elemento de susto, proporcionando uma atmosfera incrível para qualquer jogador. E como qualquer jogo de terror, ele deve ser jogado num quarto escuro, com headphones e de preferência sem companhia." Nádia Batista, de 24 anos, concorda. "A melhor aposta é mesmo jogar sozinha, num ambiente escuro, pois tudo isto ajuda ao ambiente assustador que se quer experimentar. O suspense durante o jogo é enorme, pois o ‘Slender Man’ pode aparecer a qualquer momento, e qualquer fã deste tipo de sensações tem de experimentar." A floresta escura, que está rodeada por uma cerca de arame, não deixa ninguém sair. Espalhados pelo bosque estão veículos, edifícios, uma árvore gigante, pedras, paredes de madeira, pilares de pedra, um túnel e tanques de combustível antigos. Vários trilhos de terra batida mostram formas de prosseguir a viagem, sem perder o norte... mas é inevitável não gritar quando a imagem começa a desfocar, sinal de que o ‘Slender Man’ está por perto, pronto a atacar. Gonçalo Correia, de 17 anos, também fez a experiência do ‘Slender’, depois de ouvir falar da criatura em posts do Facebook. "Achei o jogo um pouco forte demais, chega a ser hipnotizante. Até se sente a alteração dos batimentos cardíacos..."
O sucesso do jogo foi de tal ordem que os produtores do primeiro – o da floresta, que Pedro, Nádia e Gonçalo jogaram – têm preparada uma nova saga, com o ‘Slender Man’ a levar o susto para escolas, hospitais, cidades-fantasma, labirintos e sanatórios. Ali – se se cumprir a lenda urbana e os pressupostos do jogo de terror – será capaz de causar perda de memória, insónia, paranoia e acessos de tosse, ‘capacidades’ que os seguidores temem e, ao mesmo tempo, admiram. O seu objetivo é perseguir crianças para logo as hipnotizar e traumatizar, uma espécie de Papão (mais assustador) dos tempos modernos. O delírio coletivo pegou fogo à internet, com e-mails a circular entre os cibernautas com nomes de crianças que o ‘Slender Man’ já teria roubado.
À polícia, Morgan confirmou que, tal como Anissa, ficou obcecada com o ‘Slender Man’, que, acredita, começou a observá-la, a ler os seus pensamentos e a teletransportar-se. As duas raparigas admitiram sem reservas sentir uma mistura de medo e fascínio pela assustadora figura. "Muitas pessoas não acreditam que ele existe, mas queríamos provar que estavam erradas", disseram as adolescentes.
Os Evolution Films – um grupo de portugueses (na casa dos vinte) que explora o filão dos vídeos no YouTube – não quiseram passar à margem do fenómeno que tem entrado em muitos pesadelos e puseram a render o sucesso. "Normalmente procuramos um jogo que esteja a ter sucesso e imitamos o jogo em vídeo, o que rende bastantes visualizações. Como o ‘Slender Man’ estava na moda, pegámos no conceito", explica o realizador Pedro Ferreira, de 21 anos. O resultado final – o ‘Slender Short Film’ – tem pouco mais de cinco minutos. "Primeiro jogámos o jogo em casa e copiámos para um papel todas as mensagens que iam aparecendo nas folhas brancas no ecrã." Depois, ‘cravaram’ dois amigos – ela para ser a ‘aventureira’ da floresta, de lanterna em punho, ele para vestir a pele da personagem maquiavélica que a persegue sem que ela saiba onde está. "Filmámos no parque urbano de Santa Iria, na zona de caça, à noite. Bastaram duas lanternas e a câmara para conseguirmos o efeito pretendido: assustar", explica o realizador. Os youtubers filmaram há mais de um ano, ainda sem a sombra da tentativa de homicídio do Wisconsin a pairar sobre a personagem. Os monstros debaixo da cama e dentro do armário já eram. Foram substituídos por um homem sem cara, com tentáculos em vez de braços que levou duas crianças de doze anos a tentar matar outra. A tragédia ajuda a lenda, mas não descansa os pais.
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