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Quem mandou lixar a troika

Têm idades entre os 23 e os 61 anos, e, a partir das redes sociais, puseram um país inteiro a manifestar-se contra a austeridade

23 de setembro de 2012 às 15:01

Num final de uma tarde de Junho, três pessoas reuniram-se a beber um chá algures num quintal de Lisboa e pensaram em "fazer algo de extraordinário". Vieram outros amigos e conhecidos, de várias áreas profissionais e com outras experiências de vida e activismo, num total de 29 que, dois meses e meio depois, puseram na rua quase um milhão de pessoas em 40 cidades a gritar "Que se lixe a troika! Queremos as nossas vidas!".

Eles, os 29 autores e subscritores do texto ‘Que se Lixe a Troika! Queremos as Nossas Vidas!" são jornalistas (Sandra Monteiro, Myriam Zaluar ou Nuno Ramos de Almeida), professores (Ana Gonçalves, Belandina Vaz ou Paulo Raposo), engenheiros (João Camargo), investigadores (Magda Alves), cineastas, músicos e actrizes (como Chullage, António Pinho Vargas, São José Lapa, Ana Nicolau, Tiago Rodrigues ou Joana Manuel), mas também empresários, desempregados, mães solteiras, estudantes e emigrantes. Dos 23 aos 61 anos. De vários berços, com "várias sensibilidades".

Não são filiados em nenhum partido, mas todos estiveram no passado envolvidos noutros movimentos de carácter social, cívico ou ambiental: reivindicações contra o aumento das propinas, igualdade do género, direitos dos homossexuais, despenalização do aborto, movimentos como os precários inflexíveis ou a plataforma 15 de Outubro.

Depois do tal chá que serviu de rastilho, a segunda reunião foi numa cervejaria, perto do largo da Trindade. Um antigo cinema da capital e até a redacção de um jornal já serviram de porto de abrigo a outros encontros físicos. Mas o maior fluxo de discussões, convergências e decisões foi obviamente através da internet (como se quer de uma mobilização que nasce nas redes sociais), da ideia à elaboração do texto final que serviria para a criação do evento no Facebook.

"Às vezes perguntam-me: é activista? Sim, penso que sempre fui. Ser activista político é estar atento, informado, informar os outros, fazer disso uma luta de todos os dias", confessa Ana Carla Gonçalves, professora de História da Cultura e das Artes no Liceu Passos Manuel, em Lisboa. Na sua vida pessoal nunca conheceu a precariedade ou o desemprego. Tem 60 anos, é efectiva há 35. Lamenta o rumo do país pelos filhos, de 35 e 24 anos, para quem o futuro se avizinha "muito mais difícil", pelos amigos deles, pelos alunos, a quem tantas vezes já disse: "Não sejam vocês a minha falta de esperança!".

Em 1974, quando começou a dar aulas, os estudantes tinham sede de ouvir. "Hoje, acham que há uns senhores lá em cima que mandam e que não vale a pena fazer nada", acrescenta. Especialmente para os que pensam assim, o 15 de Setembro foi "um acordar da democracia", diz Paulo Raposo, professor de antropologia no ISCTE e outro dos signatários do texto que deu origem às manifestações de 15 de Setembro.

Para Paulo Raposo, a manifestação mostrou muita coisa: "Que as pessoas têm uma consciência de que há uma assimetria entre o que o poder decide e aquilo que as pessoas querem." Ou que "esta democracia está disfuncional e deformada, pois de outra forma não seria permitido que instituições como as agências de rating determinassem o destino de um país".

Paulo Raposo também deu aulas no ensino secundário, no Brasil e fundou um grupo de teatro. Na política, participou na fase inicial da campanha de Maria de Lurdes Pintassilgo, cuja sede ficava na sua rua, mas a ligação partidária ficou-se por aí. Mas seguiu sempre atento, sempre activo. Como independente organizou em Maio, em Lisboa, o encontro Primavera Global, entre activistas e movimentos sociais de vários países. "Os problemas são globais, por isso precisamos de uma solução global", justifica o professor universitário, de 49 anos, pai de um filho e à espera que o segundo chegue, em breve, ao mundo. Um mundo que encontrará diferente daquele em que o pai cresceu. Na infância de Paulo, era tão vulgar ir a uma RGA como hoje é jogar PlayStation.

Um mundo parecido com aquele em que nasceu há 38 anos Mariana Avelãs, mais uma signatária. "Os meus pais combateram sempre o fascismo, eu cresci nesse ambiente. Juntei-me à JCP com 14 anos, depois envolvi-me nos movimentos estudantis contra a PGA e as propinas entre 1992 e 1997. Cresci com a consciência da exploração das forças do trabalho." Mas, actualmente, Mariana não quer saber de filiações para coisa nenhuma. Preocupam-na apenas as contas que têm de ser rigorosamente feitas para que o dinheiro, incerto e a recibos verdes, chegue para sustentá-la a ela e à filha até ao final de cada mês.

Tradutora, com mestrado e actualmente a fazer o doutoramento, Mariana teve durante alguns anos um contrato de trabalho sem termo, um vínculo efectivo e estável, que acabou com a extinção do seu posto de trabalho, após uma "briga que não foi bonita" por recusar-se a abdicar dos direitos de maternidade que a lei lhe concedia. Há muito que se deixou de partidos e chegou ao grupo "Que se Lixe a Troika! Queremos as Nossas Vidas!" por convite de amigos.

No dia da manifestação emocionou-se por muitas razões. "Porque vieram para a rua pessoas que diziam que até concordavam comigo, mas que nunca alinhavam. Porque as pessoas falaram dos seus problemas, das suas vidas... nunca tinha visto gente - e tanta gente - de lágrimas nos olhos numa manifestação."

Ana Nicolau, cineasta, 35 anos, é das que tem menos experiência como activista. Viveu em Inglaterra até 2009, e quando voltou a Lisboa pensava que "isto até nem devia ser tão mau como diziam". Mas era. Se calhar, pior ainda. Ana saiu à rua pela primeira vez na manifestação de 12 de Março de 2011. "Achei que a minha voz deveria ter mais valor do que aquele que eu lhe estava a dar", confessa. E por isso, depois, participou em mais algumas manifestações e também em conferências, para se "formar melhor" a nível político e activista. Agora tem um projecto na manga: fundar uma escola de activismo, com um centro de media independente, para que "as pessoas percebam que a cidadania activa é importante e deve ser usada". Democracia "não é só votar", resume, revelando um espírito que traduz o do grupo.

O grupo, que não pretende evoluir para uma plataforma, nem movimento, nem qualquer outra coisa que se formalize no futuro, tem plena consciência de que o que pôs as pessoas na rua foram "as medidas brutais e criminosas anunciadas este mês", conforme resume Ana.

No início de Agosto, o evento tinha no Facebook duas mil assinaturas. Na sexta-feira, dia 7 de Setembro, poucas horas depois de o primeiro-ministro Pedro Passos Coelho ter anunciado um novo pacote de medidas de austeridade que incluíam uma subida da Taxa Social Única para todo e qualquer contribuinte de sete por cento, o número cresceu para as seis mil. No sábado já eram 15 mil e no domingo 20 mil. Depois, 50 mil. Um efeito de contágio sem precedentes. Pessoas de todo o País perguntavam se não aconteceria também na sua cidade. A todos, a organização respondeu: "Organizem-se!". E eles, outros cidadãos independentes, anónimos, organizaram-se. Uma semana depois, eram meio milhão de portugueses na rua.

O NÚMERO SURPREENDEU OS PRÓPRIOS ORGANIZADORES

Antes disso, porém, houve muito para debater e organizar. Primeiro o texto, que foi escrito, reescrito, pensado e discutido por todos, até se chegar à virtude do consenso. Depois, o dia. "Sabíamos que ia haver novas medidas na rentrée política, portanto teria de ser para aí", explica Ana. Myriam Zaluar, mais uma organizadora, explica: "Não poderia ser no fim-de-semana da festa do Avante, também não queríamos que fosse no da manifestação da CGTP, portanto acabou por recair no dia 15."

Finalmente o percurso, este sim mais complicado de traçar. "A praça José Fontana foi desde sempre o sítio marcado para o início da manifestação. Não queríamos percursos clássicos, como a Assembleia da República, porque sabíamos que dava (e deu) buraco. Como achávamos que seríamos poucos, também estava fora de questão descermos a avenida da Liberdade. Tínhamos pensado passar pela Maternidade Alfredo da Costa, onde ficaríamos aconchegadinhos e onde poderia ser feita alguma acção que lembrasse a privatização da saúde. Mas quando tudo isto começou a sair-nos das mãos, tivemos de repensar o trajecto. Como o País está a soldo da troika e, estando a soldo, o verdadeiro Governo reúne-se na sede do FMI, tornou-se natural passar por lá. Depois, a praça de Espanha, onde se poderiam dizer palavras de ordem, ler os textos dos grupos que se associaram ao nosso. Os únicos que não queríamos eram os neonazis", afirma Myriam, 42 anos, jornalista, precária há mais de uma década, mãe a ‘solo' de dois filhos.

Agora, e depois da concentração de sexta-feira junto ao Palácio de Belém, poderão haver outros eventos, "talvez uma maratona de música, visto que há vontade para isso, com muitos artistas a querer participar, mas fazem questão de não criar nenhum movimento, nenhuma plataforma", frisa Myriam: "O nosso papel não é esse, não é fazer um programa do Governo. A nossa intenção é apenas lembrar que o povo é soberano e que se o povo não quiser não acontece."

UMA IMAGEM QUE DIZ MUITAS PALAVRAS

Sem saber muito bem como nem porquê, Adriana Xavier viu-se no centro das atenções depositadas na manifestação de 15 de Setembro. Não porque seja activista. Não porque esteja ligada a causas. Nem sequer porque o desejasse. Adriana abraçou um polícia. Sérgio, de seu nome. Até poderia ser banal, não fosse ter acontecido numa manifestação que também se distinguiu pelo pacifismo e o facto desse momento ter sido captado pelo fotógrafo José Manuel Ribeiro e, depois, reproduzido em massa nas redes sociais e em jornais e sites do Mundo inteiro.

A história do momento é simples: "Perguntei-lhe porque é que ele estava ali, e ele respondeu-me que era apenas o seu trabalho. Depois, perguntei-lhe se não queria estar antes do nosso lado e ele não respondeu. Fiquei a matutar no seu silêncio e depois de pensar um bocado, resolvi abraçá-lo", relembra a jovem de 18 anos, estudante do 12º ano do ensino secundário, residente em Lagos, que faz também dança e teatro e gostava de um dia "ser alguma coisa" que tivesse a ver com as artes.

Tal como anuncia na sua página do Facebook, Adriana é um verdadeiro "espírito livre". Não tem partido, nem faz intenções de votar. Acredita que "recebemos aquilo que damos" e que o importante é estarmos em "harmonia com o que nos rodeia". Estava em Lisboa de férias e nem sequer planeara ir à manifestação.

"Quando o abracei, pensei: ele não é um monstro, não vou fazer mal a ninguém, ninguém me vai bater. O medo faz com que os seres humanos não se soltem, não dêem amor. Até o Passos Coelho tem medo e tem amor."

Filha de pais divorciados, com uma família numerosa - Adriana tem quatro irmãos - lida diariamente com a precariedade e a austeridade. "Nunca fui rica e agora ainda sou menos. Vivo só com a minha mãe, que trabalha a recibos verdes. O meu pai é funcionário público, mas a minha madrasta está desempregada"..

Quanto ao seu acto, desvaloriza a atenção dos media: "Foi simplesmente uma forma diferente de me manifestar."

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