É um longo caminho, o da recuperação. Sobretudo quando a doença dura desde que se lembra de ser gente. Ainda estava no infantário e, ao deixar o almoço para trás, as educadoras misturavam tudo no mesmo prato – sopa, refeição e sobremesa, numa mixórdia ignóbil – e forçavam-na a comer.
Estavam lançadas as bases para o distúrbio alimentar de Francisca. Tem 21 anos e há três que luta contra a doença. Uma luta desigual. “É tudo muito ambivalente”, explica. “Sei que para ficar bem, para me curar, tenho de perder a única coisa que me ia fazer sentir bem: ser magra.” Embora com mais dez quilos em relação a quando a conhecemos, em Novembro de 2006, Francisca continua magra. Muito magra.
Faltam-lhe ainda oito quilos para atingir um peso que não coloque a sua saúde em perigo. O seu índice de massa corporal (IMC) deve rondar 16, quando o mínimo recomendado é 18,5. Ou seja, com 1,70 m, Francisca deveria pesar 58 quilos mas, para ela, ultrapassar os 50 equivale a admitir uma derrota. Nem o espelho, nem o número dos jeans a convencem do que está a vista: é mais magra que o comum dos mortais.
E porque morre de medo de engordar, de “perder o controlo”, luta todos os dias consigo própria para cumprir o plano alimentar contratado a custo de muita negociação com a nutricionista. Um plano segundo o qual é suposto aumentar 500 gramas por semana, o que nem sempre acontece. O que sucede com alguma frequência é que, após uma semana em que o objectivo foi cumprido, Francisca volte a perder o peso recuperado.
“Todos os dias quero desistir, a cada refeição”, admite. O pavor de engordar atinge os píncaros quando dorme e o subconsciente é rei: “Sonho que engordei cem quilos e que acordo imóvel e obesa, sem me conseguir mexer.” E então, de dia, aldraba as doses, mente a si própria. Há já uns tempos que não vomita, o que é um avanço.
“E se eu não tivesse melhorado, não estava aqui!”, garante. Francisca sabe que “o comportamento com a comida tapa as coisas verdadeiramente duras”, que vão para além de calorias e gorduras. “Desde que decidi que queria recuperar percebi que a parte da comida ia ser a mais fácil e que só depois ia começar a enfrentar as coisas que são realmente difíceis: a dificuldade de lidar com as emoções, as relações, o crescimento.”
É desarmante a lucidez com que Francisca encara a sua doença, a forma como parece trazer a ‘lição toda debaixo da língua’. “A determinada altura percebi que viver era difícil… apesar de hoje saber que fui por um caminho muito complicado, acho que isto foi uma forma de facilitar as coisas.” Enquanto estava ocupada a arranjar estratagemas para perder peso e para despistar os pais, Francisca ‘tapava o sol com a peneira’, desviava o sofrimento, castigava-se por um mal que nunca havia causado, mas do qual sentia ser culpada.
“Eu não tinha o direito de sentir coisas más. Tinha uma vida óptima que tanta gente gostava de ter.” Mas sofria e sentia-se diferente. Ainda hoje é assim. Carrega o peso do universo. “Lembro-me de ter medo que os meus pais morressem e hoje não. Isso assusta-me. Estou mais egoísta. Dantes tinha a certeza que morreria antes dos 30 e não tinha o direito de fazer sofrer quem gostava de mim.
Agora tenho dúvidas. Por vezes, só quero arranjar uma forma que a vida passe depressa. Morrer sem ter de me matar. Outras vezes não. Quero conseguir ter uma vida mas sem peso. Sinto que o corpo não é meu. O corpo é uma prisão.”
SUSANA
Também Susana experimenta a sensação de separação do próprio corpo. Não hoje, mas quando, há cerca de oito anos, aos 20, deixou de comer: “Eu não sentia o corpo, só a mente. Era como se fosse energia em estado puro.” Há muito que estes dias ficaram para trás, assim como os que se seguiram, em que chegou a um estado tal que não saía da cama, pois “não suportava o peso da própria cabeça.”
Hoje, Susana almoça e janta, de garfo e faca. O peso está há vários meses satisfatório. Ela nem quer saber quanto pesa. Não tem balança em casa. Já largou os planos alimentares, aos quais ficou “presa durante anos.” Já come coisas de que nem lembrava o sabor.
“Só de há uns meses para cá recomecei a comer sopa – feita por outras pessoas, só comia feita por mim, com água e com couves – e há uns tempo comecei a ir ao chinês”, refere com orgulho. Mas não se pode dizer que a doença tenha desaparecido por completo: “Ainda hoje tenho certas rotinas de anoréctica”, confessa. “Não como açúcar. Em minha casa não há óleo, azeite, bolachas. Não consigo comer pão, batatas, massa, arroz.”
A ementa típica inclui peixe e legumes. À noite, o estômago pede aconchego e Susana rende-se ao… Nestum! “Mas só como aquele que não diz textualmente ‘açúcar’!”. Tem consciência, claro, que “está tudo na cabeça” e por isso questiona: “Será que estou curada? Não sei o que é estar curada. É estar com peso? Isso é carne. Anorexia não é carne.”
UM CROISSANT? UM DIA, TALVEZ
Francisca, “gostaria de um dia comer um croissant com chocolate”, a primeira restrição que se lembra de ter feito na sua alimentação, já lá vão uns dez anos. Mas “ainda é muito difícil comer uma coisa que sabe bem.”
É como se não tivesse esse direito. “Recuso, à partida, tudo o que dê prazer. Já nasci assim.” Francisca cresceu julgando-se culpada de um mal indefinido. Habitou-se a castigar-se por causa disso. Ainda hoje carrega sobre os ombros o peso do universo.
SUSANA REAPRENDE A VIVER
Susana sabe que precisa de aprofundar o trabalho sobre si própria, “saber quais são as causas”, embora esteja convencida de que o distúrbio alimentar é fruto de uma profunda depressão. “Passa tudo por uma chamada de atenção. Uma necessidade de afecto e controlo. Quando não comes, tens o poder ilusório de que controlas alguma coisa.” A pouco e pouco, Susana reaprende a viver. Mas há coisas difíceis de mudar: não sabe se alguma vez voltará a comer um bolo.
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