Filho de um algarvio, cumpriu o sonho do pai.
"Non! Non! Non" – a voz do outro lado do telefone não deixa margem para dúvidas. Claudine, a mãe de Raphael Guerreiro, não quer falar com jornalistas. Em francês perguntámos-lhe se estava orgulhosa do filho – que apesar de ter nascido em França escolheu representar as cores portuguesas na seleção nacional e acabou mesmo por integrar o ‘onze’ ideal escolhido pela UEFA – mas nenhum elogio a desarmou. "Os Guerreiro são muito discretos e extremamente re-servados", confidenciou à ‘Domingo’ a vizinha Nataly Monteiro, nascida em França há 49 anos mas com um português quase perfeito.
"Têm medo de perder o quotidiano normal e de terem jornalistas à porta todos os dias. Não querem ser conhecidos. São pessoas simples, de tal forma que o Raphael quis comprar uma casa aos pais, quando começou a ganhar bem, e eles recusaram- -se a sair do bairro onde sempre viveram. Disseram para o filho usar o dinheiro com ele próprio, que eles não queriam que gastasse com eles", acrescenta. Raphael nasceu em França, o mais novo de quatro irmãos fruto do casamento entre um português – algarvio da freguesia da Penha, em Faro – e uma francesa. Adelino e Claudine conheceram-se em Paris e diz que logo se enamoraram. Ele era (ainda é) o retrato moreno de um típico português, ela loira e de pele clara como as francesas das histórias.
O sonho do pai
O avô de Raphael tinha uma mercearia em Faro mas "a grave crise que Portugal atravessava em 1969 levou-o a pegar nas malas e abalar com a mulher e os quatro filhos (dois rapazes e duas raparigas) à procura de uma vida melhor e mais estável. Conseguiram emprego numa fábrica de sumos, a Orangina, e por lá acabaram por ficar. "O Adelino ainda lá trabalha", conta Armando Santos, primo de Raphael por parte do pai. O jogador de 22 anos havia de seguir as pisadas do pai no que toca ao coração e casar com uma francesa, de nome Marion, com quem tem um filho de quase dois anos.
O pai Adelino chegou a França ainda adolescente. Em Portugal deixou o sonho de singrar no futebol, no Farense, e em França começou logo a trabalhar e, por isso, pouco tempo sobrava para o hobby que o mais novo Guerreiro haveria de ressuscitar como profissão a tempo inteiro para felicidade do pai. "Apercebemo-nos logo do talento do Raphael ainda ele era muito pequeno. Sempre quis jogar futebol, nunca quis ser outra coisa e os pais sempre o apoiaram muito", assume Lurdes Guerreiro, tia do futebolista, ao telefone desde de Le Blanc-Mesnil, o subúrbio de Paris no qual todos os Guerreiro que emigraram para França moram. Foi lá, no Blanc-Mesnil Sport Football, com 6 anos, que o esquerdino começou a praticar o desporto que o viria a tornar conhecido em França e em Portugal. Foi o único dos quatro irmãos (Celso, Miguel e Manu são os mais velhos) que sempre demonstrou vontade de fazer da bola carreira. "Joguei em todas as posições. Até tinha umas luvas na mochila, e se não havia guarda-redes ia eu à baliza", contou, em novembro de 2015, ao jornal ‘Le Telegramme’. Le Blanc-Mesnil – onde moram muitos portugueses mas também franceses e africanos – tem 50 mil habitantes e fica perto de Saint-Denis, onde Portugal e França disputaram a final do campeonato. O tímido Raphael – "foi sempre muito reservado", dizem todos os que o conheceram – frequentou o Colégio Nelson Mandela, na parte mais nova da vila, perto da zona industrial, e nos tempos livres dava asas à paixão pela bola no estádio Jean Bouin.
Em Portugal, nas férias de verão, onde a família vinha todos os anos, não perdia um torneio de futebol de salão do Clube União Culatrense, na ilha da Culatra, em Faro, onde os avós mantiveram a casa. "Eu e os meus filhos jogávamos com ele, com os irmãos e com o pai. O Raphael agarrava na bola e já fazia a diferença, tanto que ele com 12, 13 anos quase ganhava um jogo sozinho. Os mais velhos nem gostavam que ele jogasse porque lhes vencia com muita facilidade", conta Tita, alcunha pela qual é conhecido um dos habitantes da ilha da Culatra que mais privou com a família. "Já o avô dele preferia o ‘pétanque’ (um popular jogo francês), que se jogava com uma bola de ferro. A gente tinha aqui um campo na Culatra e o avô punha-nos todos a jogar a isso", acrescenta ‘Tita’ ao álbum de memórias das férias algarvias dos Guerreiro.
Durante o ano letivo, em França, a carreira de Raphael Adelino José Guerreiro começava a despontar. Tinha apenas doze anos quando foi convidado a integrar a academia de futebol Clairefontaine, a 50 km de Paris, onde se formaram vários nomes conhecidos do futebol francês, como é o caso de Thierry Henry e que acabou por torná-lo alvo dos olheiros que por ali andavam a captar novos talentos no jogo.
"A mãe apostou de tal forma na carreira do filho que deixou de trabalhar para o poder levar e trazer dos treinos. Sempre encararam com muito orgulho o jeito que ele tinha para o futebol", conta ainda Nataly Monteiro. Até que Raphael deu nas vistas num torneio e foi contratado pelo Caen. Mudou-se para a Normandia a um ano da maioridade mas nas duas primeiras épocas apenas integrou a equipa B. Em 2013/14 chegou à formação principal e na época seguinte foi eleito o melhor lateral-esquerdo do campeonato, o que fez com que começasse a ser conhecido pelos adeptos.
A boa performance não passou despercebida e Raphael saltou para o Lorient, um clube da I Divisão francesa, na mesma altura em que passou a ser acompanhado pelo departamento de scouting da Federação Portuguesa de Futebol. Rui Jorge, o selecionador de sub-21, terá ficado impressionado com o talento do rapaz e convocou-o pela primeira vez em março de 2013, numa partida frente à Suécia. Começava aí a vestir-se com as cores portuguesas apesar de poucas palavras conseguir dizer no idioma do pai e dos avós.
"Vou ser claro: escolhi Portugal. É a minha escolha e ninguém, na minha família ou o meu empresário, tentou influenciar-me", confessou o lateral-esquerdo durante uma entrevista à Eurosport, em setembro do ano passado.
Na última época podia ter mudado para o Paris Saint-Germain – chegou mesmo a haver contactos entre os clubes e o agente do jogador – mas preferiu ser titular no modesto Lorient a suplente num clube de maior reputação. Ao clube alemão Borussia Dortmund – uma das melhores equipas do país de Merkel, que este mês pagou 12 milhões de euros pelo seu passe – já não disse que não. É lá que vai brilhar – a julgar pela prestação no Europeu – na próxima época, mais longe da família mas mais perto do sonho. Na mesma entrevista à Eurosport Raphael confidenciou que jogar no Benfica – clube do coração do pai Adelino, paixão que também herdou – o deixaria feliz, mas que o seu sonho passaria por jogar no Real Madrid. "Quando se é jogador de futebol não se pode ficar indiferente à história desse clube", salientou o atleta.
Raízes profundas
Os jogos do Europeu foram vistos pela família com o coração nas mãos. "Por ser Portugal e por estar lá o Raphael. Sempre com medo que os franceses marcassem", conta a tia Lurdes, que viu o jogo em casa. Os pais do jogador estavam no estádio e Adelino prometeu mesmo que iria a Fátima se Portugal fosse campeão. "Para ele deve ser um enorme orgulho que o filho represente o país em que nasceu. Eu que também nasci em França e sou filha de pais portugueses percebo a escolha. São as nossas raízes, sem elas não temos a árvore completa", conclui Nataly.
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