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SANDRO VIU A NEVE

Fala repetidamente do amigo Andrew, insiste em palavras como ‘bisnito’ ou ‘friíssimo’ (superlativos que inventou para ‘bonito’ e ‘frio’) e diz que um dia quer conhecer a China, país do campeão mundial de pinguepongue. Sandro Silva, a criança que sofre de osteogénese imperfeita e que o ‘CM’ levou à Serra da Estrela, volta feliz aos Açores.

03 de janeiro de 2003 às 16:37

Esta entrevista foi feita no dia em que se despediu da neve e é intercalada por apontamentos da sua viagem, como pontas soltas de um diário que ficou por escrever

Como te sentes a ser entrevistado?

(Ri-se) Normalmente. Nada de especial.

Vens dos Açores. Como é a tua ilha?

Ai meu rico S. Miguel! Conheço a minha ilha de trás para a frente e de frente para trás. Só não fui ainda ao Pico da Vara.

Do que é que gostas mais em S. Miguel?

Da praia e de ir pescar. Queres que eu faça uma quadra acerca da minha ilha?

Deixa-me pensar um bocadinho. (mexe os lábios) São Miguel é muito bonito/Como o mar do meu distrito/Sempre que sorri fica ‘bisnito’/Como o coração do Sandrito.

Tu sabias que, em S. Miguel — só em alguns sítios, claro —, olhas para um lado há mar, olhas para o outro também, olhas para trás e há mar, para a frente e há mar? Aqui (na Serra da Estrela) vêem-se as luzes das cidades, na minha ilha vê-se o mar.

E o que é que há de especial para comer em S. Miguel?

Sopa de castanha (risos). Adoro sopa de castanha. Também gosto do peixe, principalmente da raia, e das pizzas da Ribeira Brava. Pizza com fiambre, queijo e mozzarela.

Conheces as outras ilhas dos Açores?

Gostava de ir ao Pico e conheço a Terceira, mas agora lá está péssimo, por causa do mau tempo. Nem rede havia para os telemóveis!

Gostas de telemóveis?

Sim. Tenho um Panasonic. Mas gostava de ter um Nokia 72-10.

É leve e os ícones são a cores.

Usas o telemóvel para falar com os teus amigos?

Sim. Agora mesmo estou à espera que o Andrew me dê um ‘toque’.

O Andrew é o meu melhor amigo. O irmão dele tem 13 anos e é tão grande que calça o número 45.

Queres contar-me sobre as tuas namoradas?

Da 2ª à 4ª classe gostei da Daniela. A minha gata chama-se Dani porque é o princípio do nome da Daniela. Agora gosto da Sofia, mas ela não gosta de mim. Tchi! O que ela vai dizer quando ler isto!

Como é que sabes que ela não gosta de ti?

Ela não me liga nenhuma e eu já lhe disse que gostava dela.

Gostas mais das loiras ou das morenas?

Das morenas. A Daniela e a Sofia são morenas.

Tu tens interesses muito variados. Tocas piano, fazes teatro, jogas pinguepongue... O que é que não te interessa?

Automóveis, vícios (como fumar) e futebol. Bom, sou do Porto, mas não sou fanático. Ao meu pai, quando o Porto marca golo, ouvem-se os gritos do outro lado da rua. Eu sou assim: Santa Clara, Porto e Portugal. Mas não escrevas que sou do Porto.

O dr. Virgílio [um dos médicos que cuida de Sandro] quer que eu seja do Benfica. Depois ele lê a entrevista... É melhor não escrever.

E se eu escrever que tu pedes desculpa ao dr. Virgílio...

Sim, assim, acho que está bem.

Mas também tens admiração por um jogador que agora está no Sporting...

Sim, gosto do ‘pescoço de girafa’.

Do ‘pescoço de girafa’. Do Jardel. Ele é muito grande. Um dia, encontrei-o no aeroporto de Ponta Delgada – o Porto jogava com o Santa Clara – e pedi-lhe para tirar uma fotografia ao pé dele.

Já pensaste no que queres ser quando fores adulto?

Veterinário, pianista e... Espera aí, havia outra coisa... Ah, mágico!

Tudo ao mesmo tempo ou são alternativas?

Isso. São possibilidades. Antes queria mesmo ser veterinário, mas depois comecei a pensar: se vier um cão murcho ainda posso tratar dele, mas se for grande e vivaço não consigo segurá-lo. Tenho medo de cães grandes. Podem atirar-me ao chão.

Disseram-me que contas histórias e anedotas a toda a gente...

Pois é. Quanto à outra pergunta, queria dizer que também já pensei em ser médico.

Foi assim: eu estava no Hospital de Ponta Delgada com a minha mãe e entrou um homem que teve um acidente. Ia de mota ver um jogo do Santa Clara. Vinha aflito, aos gritos. Eu disse logo à minha mãe que era preciso operá-lo. O médico dele também é o meu. Depois disse-me que tinham operado o homem. Eu sabia que ele tinha a perna partida e nem sequer vi as radiografias!

Na escola, gostas mais das disciplinas relacionadas com as letras ou os números?

Mais das ciências. E gosto de histórias.

Que tipo de histórias?

Histórias da Bíblia. Conheço muitas: as de Adão e Eva, Noé, Abraão, José, Salomão, Jonas, Ester, Daniel na cova dos leões…

De qual gostas mais?

Gosto mais da de Moisés e da Fuga do Egipto (faz uma careta de terror). Da que gosto menos é do Apocalipse.

É melhor mudarmos de assunto, não te parece? Que país gostavas de visitar?

A China.

Porque o campeão mundial de pinguepongue é chinês. Chama-se Lui GotLing,

Sim. O meu irmão Marlon ensinou-me a jogar pinguepongue. O meu irmão é campeão de pinguepongue de S. Miguel. O meu irmão também entrou na peça de teatro do Natal. Era pastor. Eu fazia dois papéis – era o mago e o homem da estalagem, aquele que diz que a estalagem está cheia, sabes?

Sim. Mas o que é que fazes nos teus tempos livres, quando não estás na escola, nem a tocar piano, nem a representar ou a contar histórias às pessoas de S. Miguel?

Acampo. Gosto muito de acampar. Fazemos uma fogueira, brinco com o Andrew, jogo às cartas, ao dominó, às damas, a esses jogos assim. Depois vai-se para a cama fazer ‘risada’. Já fiz uma directa.

Sim. Sonho que estou no Egipto e que “estou sendo” escravo. Tem a ver com a história de Moisés e José. Gosto muito de ler livros e ver filmes sobre o Egipto.

Sim, ao cinema São Pedro Triplex. É mesmo ao pé da minha casa. O último que fui ver foi o Harry Potter 2.

Gostei mais deste do que do primeiro. Tem mais efeitos especiais. Também gosto dos filmes do Eddy Murphy.

O último foi o do Harry Potter. E o próximo?

Em Janeiro vou ver o ‘Peter Pan na Terra do Nunca’.

O que é que o Peter Pan tem de especial?

Essa é fácil. O Peter Pan voa.

FRASES

[Só mais um bocadinho. Ainda não quero ir para a cama. Quero jogar mais uma partida de “snooker”. Gosto tanto de jogar “snooker”. Quanto é que custará uma mesa destas, a sério? Vá lá, só mais dois minutos. Agora estou de férias e, quando estou de férias, posso deitar-me à meia-noite. Às vezes, ainda fico no quarto a tocar órgão.]

[A minha mãe pensa que estou cansado. Mas não estou. Hoje foi tão ‘bisnito’, tão ‘riquinho’, lá em cima, na Serra da Estrela, num sítio chamado Torre, porque tem lá uma torre a sério. Havia neve por todo o lado. Eu nunca tinha visto a neve. Põe tudo branco. É fofinha, mas é preciso força para fazer as bolas. E é tão fria. Tão ‘friíssima’.]

[Ah, lembrei-me daquela anedota: “Sabem como é que os alentejanos conseguem ter leite frio? Metem a vaca no frigorífico.” Também sei umas picantes.]

[‘Bisnito!’, posso jogar mais uma partidinha de “snooker”. Vou pedir ao meu pai que traga duas bolas. Esta fica aqui. A outra do outro lado. Agora é pôr o taco a jeito para fazer efeito. A bola entrou! Quanto é que custará uma mesa destas? Gosto mais do “snooker” do que do “Game-Boy”.]

[Quando regressar a S. Miguel vou contar tudo ao Andrew. Vou dizer-lhe que já toquei na neve. É tão divertido fazer bolas e atirá-las... A minha avó, lá nos Açores, nunca viu neve. Se calhar podia levar alguma daqui da Serra da Estrela à minha avó. Há tanta. Hoje tirei uma fotografia com a neve muito acima da minha cabeça. Não posso levá-la. Derretia no avião. Derretia como a manteiga.]

[Gosto tanto de manteiga. De pão com manteiga. Eu não sabia que havia uma terra chamada Manteigas. Mas há. Estive lá hoje. Tem uma cascata enorme. E de ovos mexidos, também gosto muito de ovos mexidos, com muita manteiga por cima. Mas acho que não há uma terra chamada ovos mexidos. Esta foi boa...]

[Onde é que está o meu telemóvel? Ah, está aqui! Não tem bateria. Vou ver o que é que o Marlon está a fazer na Internet. O meu irmão Marlon ensinou-me a jogar pinguepongue. Se eu tivesse muito dinheiro, comprava-lhe uma mesa de pinguepongue nova. O Armando partiu a outra: escorregou, bateu com a cabeça na mesa e partiu a mesa.]

[Comprava uma mesa de pinguepongue ao Marlon e uma clavinova para mim. As teclas da clavinova são menos duras do que as do piano. A minha professora assusta-se quando bato nas teclas do piano com muita força. A minha professora é russa e diz “Cuidado, Sandro!”]

[Sei tocar muitas músicas de Natal, como “Gingle Bells” e “Noite Feliz”. Toquei na festa de Natal da Academia. O meu pai filmou tudo e a minha mãe fez-me um casaco especial. Só me enganei uma vez, mas corrigi logo. Na pauta há as colcheias, as semicolcheias, as breves, as semibreves… Não, ainda não quero ir para a cama. Tenho tantas coisas para fazer. Para ver. Para pensar.]

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