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"Se sou suspeito, vá ver ao dicionário"

O capitão mandou formar a companhia, chamou por mim e disse: “Com que então uma carta para o dr. Marcello Caetano?”

17 de janeiro de 2016 às 15:30

Entrei para os paraquedistas em 1967, mas aleijei-me. Ingressei mais tarde no BC-8 de Elvas, passei para o Regimento de Serviços de Saúde de Coimbra, e daí para o Hospital Militar, na Estrela, e para o anexo da Artilharia 1, onde chegavam feridos graves do Ultramar. Em Coimbra tive a parte teórica de Enfermagem, e em Lisboa a prática. Voltei para Elvas, e em novembro de 1968 fui mobilizado para o RI-16 de Évora.

A 24 de maio de 1969 chegámos a Luanda, seguindo para a região dos Dembos. A sede do batalhão era no Zemba, e a minha companhia, a 2510, ficou em Cambamba.

Passámos mais tempo na mata do que no aquartelamento. Desbravámos picadas que não eram usadas há anos e, numa emboscada, morreu o Vidal, de Coimbra. Levámos 11 viaturas, mas a picada mal se via, e havia ossos humanos e Land Rovers calcinados. Quinze dias depois, regressámos, desta vez a pé. Limpámos aquilo tudo.

Uma vez saí com um grupo de combate de açorianos e perdemo-nos no nevoeiro. Se estendêssemos o braço, não víamos a mão. Já sem rações, descobrimos o acampamento do inimigo, que fugiu. Peguei em maçarocas de milho, assei e comi. Ainda disse aos outros: "Se eu fosse turra, com uma granada limpava esta gente toda." Por vezes tínhamos receio, que passava ao primeiro tiro. Aquela zona era a pior de Angola, mas íamos a qualquer lado.

CAMINHO DA PSIQUIATRIA

Em novembro de 1969 fui a Luanda fazer disciplinas no Liceu Salvador Correia de Sá. Enquanto lá estive, houve rebelião na cadeia e precisaram de um voluntário. Deparei-me com alguns presos junto à porta, e avisei que vinha ver se alguém precisava de ajuda. "Tu não és o Silva?", perguntou um deles, e abraçou-me. Era o Jorginho, meu colega nas Escolas Gerais. Só não saí de lá em ombros porque eles não podiam sair. Noutra ocasião, fui levar um grupo à Psiquiatria. Alguns precisavam de apoio e outros eram só manhosos que não queriam combater. Achei negativo enviarem-me sozinho. "Vais, e eles ensinam-te o caminho."

Fomos para Ambrizete em abril de 1970. Havia trabalho, mas limitávamo-nos a fazer reconhecimentos, emboscadas e proteção à Junta Autónoma de Estradas de Angola. Sabia inglês, alemão e francês, e tinha correspondentes em todo o Mundo. Descobria o que se passava no Norte de Angola através de recortes de revistas de França e do Brasil. Também recebia cartas da Assembleia Nacional, onde tinha um familiar, e uns colegas pediram que escrevesse para Lisboa para lhes arranjar emprego na África do Sul. Ao que eu disse: "Escrevo para o Marcello Caetano, e ele depois manda a carta." Meti no correio, e no dia seguinte o capitão mandou formar a companhia, chamou por mim e disse: "Com que então uma carta para o dr. Marcello Caetano? Sai da formatura que já te digo como é." Respondi que, como militar, não podia escrever ao Presidente da República, mas podia ao dr. Marcello, um civil.

Ele disse-me que o comandante do batalhão queria que eu abrisse a carta. Conhecia a Constituição e estava lá o direito ao sigilo de correspondência, mas acabei por a abrir e dar a ler ao primeiro da companhia. Havia duas ou três palavras que ele não percebia. "Se sou suspeito, vá ver ao dicionário", respondi. E lá viram que eu só pedia para que arranjassem emprego a dois soldadores.

 

ABÍLIO CARDOSO SILVA

 

Comissão  

Angola, de 1969 a 1971

Força  

Companhia de Caçadores 2510

Atualidade

Aos 69 anos, vive com a companheira. Tem uma filha e três netos

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