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SELECÇÃO A SAMBAR

Scolari e Deco não trouxeram só o optimismo canarinho para Portugal. Com eles vieram também a energia, a fé e tudo o que faz dos bastidores do futebol um espectáculo. O samba substituiu o fado, e a culpa deve-se, em parte, ao ‘sargentão’.

27 de junho de 2004 às 00:00

No preciso momento em que Ricardo chutou a bola para longe do alcance de um desamparado David James, garantindo o apuramento português para as meias-finais do Euro 2004, Luiz Felipe Scolari explodiu de alegria e disparou a toda a velocidade para trás de uma das balizas do novo Estádio da Luz, a viver o seu primeiro ‘inferno’.

Enquanto os jogadores se amontoavam em cima do guardião lusitano, o treinador preferia ir buscar os dois símbolos que dividem hoje o seu coração: a bandeira portuguesa e a brasileira.

O gesto, um daqueles que ficarão na memória de todos quantos assistiram ao tão dramático quanto feliz encontro, carrega em si uma carga emocional capaz de levar a equipa nacional ao sonho. Jamais se tinha visto um seleccionador a empunhar diante de um estádio em delírio o verde e rubro português.

Não sendo o único, ‘Felipão’ é um dos principais culpados pela onda nacionalista que se sente no País desde o início do Euro. Paquete de Oliveira apoia a tese. No entender do sociólogo: “O nosso seleccionador é uma personalidade interessante para estudo. Antes do jogo com a Espanha houve aquela questão de estarmos em guerra, um elemento muito específico, ainda para mais quando se trata do país vizinho com o qual tivemos rivalidades históricas. Mais do que um bom condutor de homens, Scolari tem-se mostrado um grande condutor de massas.”

Sempre que é instigado a comentar uma partida, o ‘sargentão’ dá credibilidade à máxima de Paquete de Oliveira. No final do heróico embate com ‘nuestros hermanos’, por exemplo, o técnico lembrou que a força da ‘torcida’ foi fundamental para a vitória, proferindo frases que ficaram a ecoar na cabeça de todos, como: “Parabéns aos adeptos. Não foi o 12.º jogador, foram os 13º, o 14º e o 15º jogadores.”

Paquete de Oliveira salienta existir nesse discurso a preocupação de criar uma onda optimista em redor da equipa; Scolari construiu assim uma ponte entre aqueles que estão no relvado e os que sofrem na bancada. Além do mais “como o País está sequioso de afirmações colectivas que não existem noutras áreas, tem cabido ao futebol colmatar tais falhas”.

Sem querer traçar qualquer perfil do seleccionador, o psiquiatra Pedro Afonso prefere analisar a forma como desta feita os portugueses combateram a adversidade: “Perde-mos frente à Grécia mas isso não abalou a nossa perspectiva de vitória. Isto é um dado novo na sociedade portuguesa, que, usando uma linguagem do boxe, normalmente não tem poder de encaixe e costuma tombar ao primeiro assalto. Somos o país do fado, da nostalgia, mas desta vez mostrámos ser capazes de resistir.”

Luiz Felipe Scolari terá, segundo o psiquiatra, uma parte do mérito, “até porque se trata de um líder e de uma pessoa cheia de optimismo” – embora existam outros factores que contribuem para o espírito de coesão nacional em que vivemos, como sermos a nação organizadora.

“DURÃO E BONACHEIRÃO”

A táctica de Luiz Felipe Scolari para cair nas boas graças dos adeptos parece simples. De indivíduo fechado e pouco falador passou a ostentar a imagem de unificador. Quando chegou a Portugal, ‘Felipão’ tinha fama de ser duro com a imprensa, teimoso nas escolhas e pouco dado a conversas. Actualmente não é assim que o vêem, e o treinador também tem feito um esforço para mostrar ser uma pessoa diferente, capaz de disparar com ar maroto no rescaldo da sua primeira final antecipada: “Agora vou para casa, para junto da minha família, dar um abraço à minha mulher, porque… não sei se consigo fazer outra coisa…” Na sala de imprensa ou em frente ao televisor, toda a gente adorou a boa-disposição.

“Ele revelou ser um grande comunicador. Propôs-se conquistar o coração dos adeptos e conseguiu-o. Talvez tenha uma boa assessoria de imprensa. Agora todos o acham uma figura afável e bem-disposta, que contrasta com o espírito dos anteriores seleccionadores”, diz Carlos Vianna, presidente da Casa do Brasil em Lisboa.

Ao olhar para o compatriota, este engenheiro de 53 anos não poupa elogios ao obreiro do pentacampeonato mundial ‘canarinho’, em especial por ter contrariado a tendência derrotista tão habitual nos portugueses. “Talvez por ser de fora, ‘Felipão’ fez muitas mudanças ao nível da disciplina, da atitude e da fé – outro treinador ficaria agarrado a vários estigmas e não o teria conseguido. Acho que ele contagiou o grupo com um espírito ganhador, derrotando a tendência para a desgraça que costuma instalar-se na equipa portuguesa.”

A mudança do triste fado para o alegre samba é também constatada pelo publicitário brasileiro Edson Athaíde: “O facto de haver dois brasileiros na equipa pode provocar a comparação entre selecções e respectivas atitudes dentro e fora de campo, tornando os portugueses mais positivos e confiantes.”

Atrás da nova mística vem tudo aquilo que um homem dos anúncios gosta de ver, usar e abusar nos mais variados suportes publicitários: os elementos simbólicos. As cores portuguesas estão em toda a parte, das bandeiras aos cachecóis, das pinturas faciais às camisolas. “Há uma apropriação dessa imagem que não era habitual aqui, mas que já existia em países europeus como a Inglaterra, a Itália ou a França. No Brasil, por exemplo, isso acontece desde o Mundial de 82, e tornou-se ainda mais evidente com Ayrton Senna, que não perdia uma hipótese de mostrar as cores canarinhas”, sublinha o homem que pensou a campanha eleitoral de António Guterres.

Contente com o trabalho levado a cabo por Scolari, Edson acrescenta que, do outro lado do Atlântico, os primeiros tempos também foram conturbados para o treinador. “Se no início o olhavam como um general ‘durão’, depressa começaram a vê-lo no papel de ‘durão e bonacheirão.’”

DIRECTO E HONESTO

Em Portugal, a transformação de Luiz Felipe Scolari de figura intransigente e pouco afável para ‘boa gente’ ocorreu naqueles poucos mais de 20 dias que antecederam o Euro2004. Só por uma vez a mostarda chegou a nariz do seleccionador, quando disse o ‘não’ definitivo ao Benfica. Foi mais um golpe de génio publicitário: todos o viram como o homem do leme, recusava o maior clube português a favor da selecção.

“Às vezes o ‘Felipão’ tem reacções a quente, talvez por ter sangue italiano e ser gaúcho, região do Brasil onde as pessoas são conhecidas por uma certa rudeza e sinceridade. Isso pode magoar, mas é preferível assim a ser um hipócrita. Com ele não há meio termo: se gosta é directo, franco, honesto e afável; se não gosta fica calado, magoado com determinadas afirmações”, explica Antero Greco, jornalista de ‘O Estado de São Paulo’ e comentador da ESPN/Brasil, que privou várias vezes com Scolari ao longo dos últimos anos.

Apesar das muitas críticas de que foi alvo, em especial quando não convocou Romário para a fase final do Mundial da Coreia/Japão, ‘Felipão’ nunca cortou as relações com a imprensa. “Há quem o julgue teimoso, quando é apenas firme e determinado nos seus ideais. Por baixo daquela imagem de ‘durão’ esconde-se uma pessoa dócil, cheia de bom humor e muito fiel a quem gosta dele”, salienta o jornalista.

Aos 47 anos, Tadeu de Aguiar é editor assistente da secção de desporto de ‘O Globo’. O jornal brasileiro tem sede no Rio de Janeiro, algo que sempre criou um certo afastamento em relação ao gaúcho, pouco habituado a tirar a máscara de ferro para os cariocas. Por isso, Tadeu tem uma visão distanciada da forma como Scolari muitas vezes começa por se relacionar com os outros. “Depois de adquirirmos confiança é fácil estabelecer uma empatia, até porque o ‘Felipão’ tem um jeito rude, que se nota dos gestos às palavras, mas não é mau carácter. Talvez lhe falte apenas a percepção do papel da imprensa, pois muitas vezes joga à defesa por pensar que pode ser prejudicado.”

Esperançado num trajecto português vitorioso, o jornalista adianta que agora tudo pode acontecer, até porque no país do samba ele tem o epíteto de especialista em jogos do tudo ou nada. “Aqui, Scolari é conhecido como um ‘técnico copeiro’, especialista nos jogos do ‘mata-mata’, pelo que a vossa equipa tem boas hipóteses de ir longe.”

Assim esperam os muitos milhões de portugueses que noutras ocasiões estariam à espera de um milagre que os fizesse passar mais uma eliminatória e neste momento só pensam na vitória. É que ninguém fica indiferente ao optimismo brasileiro de ‘Felipão’.

MÚSICA PARA OS ATLETAS

Luiz Felipe Scolari é metódico e perseverante na altura de delinear uma estratégia, mas nem por isso se torna num técnico aborrecido. Em 2002, quando o Brasil se sagrou pela quinta vez campeão mundial, a notícia de que os futebolistas treinavam ao som do ‘pagode’ correu por toda a parte.

De ideias fixas e satisfeito com os resultados do estranho método. ‘Felipão’ voltou a repeti-lo por cá, desta feita usando canções populares portuguesas. Acabou por desistir cedo da ideia porque os resultados não se estavam a revelar muito positivos, já que não conseguiam estimular o espírito de grupo. “Uso a música como elemento para levantar o ânimo da selecção conforme o momento”, explicou na altura. Ainda assim, Scolari não teve dúvidas na hora de apontar uma canção que utilizaria para os seus pupilos: “We Are the Champions”, dos Queen. Os jogadores do FC Porto já a ouviram este ano. Em Gelsenkirchen.

A ORIGEM DE ‘FELIPÃO’

Ruy Carlos Ostermann reclama a invenção do termo ‘Felipão’, pelo qual é hoje conhecido o seleccionador português. Prestes a completar 70 anos, o jornalista do ‘Zero Hora’, de Porto Alegre, explica ter-se tratado de uma forma para melhor caracterizar aquela figura imponente, que enquanto jogador já se mostrava intransponível na defesa, motivador da equipa e implacável no momento de pôr as tropas em sentido. “Um homem com aquela energia, força e postura não podia ser apenas Luiz Felipe, essa era uma maneira redutora de olhar para ele. Tinha de ser ‘Felipão’”.

Autor do livro ‘Felipão, A Alma do Penta’, Ruy é muito provavelmente o jornalista que melhor conhece o feitio dom ‘sargentão’: “Há nele um lado natural, carinhoso e compreensivo que atrai os jogadores e o público. Além disso, é um motivador por natureza”.

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