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Aldina Duarte, Maria da Fé, Raquel Tavares, Mafalda Arnauth, Beatriz da Conceição e Joana Amendoeira. Seis vozes femininas, seis estilos, seis histórias de vida e carreira que se entrelaçam. Na quinta-feira, o festival Atlantic Waves leva as muitas marés da canção nacional a Londres. O encontro de gerações, e o seu Fado, acontecem no palco do Queen Elizabeth Hall.
Se pudesse cantava dentro de uma caixa. Diz ela. O público, incapaz de descolar a presença da voz, dava tudo menos consentimento. E mesmo que as pedras da calçada não chorassem, as cordas da guitarra portuguesa gemeriam ‘sacrilégio’. Parece que brinca. Mas Aldina Duarte diz a verdade.
Porque a arte que acontece à média-luz de uma casa de fados não se compadece com mentiras. As surpresas não se explicam, acontecem. A maior de todas buliu-lhe sismicamente com a sina. “Conhecer Beatriz da Conceição foi um autêntico tremor de terra. Foi determinante para a minha vida de hoje. Tinha 24 anos, só conhecia os sucessos da Amália e do Carlos do Carmo. Nem sabia o que seria uma casa de fados. Quando ouvi aquela senhora cantar foi inesquecível.”
A incumbência de pré-entrevistar Beatriz da Conceição para um documentário nunca foi acabada.
Aldina sorveu a voz da veterana noites a fio durante três anos. Conversa puxou conversa até ver parida a tentação de cantar. “Não fui eu que a mandei!”, justificava ‘Bia’, ‘senhora dona’ que o mundo do Fado afagou com diminutivo. “Eu estava numa casa no Bairro Alto e ela começou a aparecer. Arranjei-lhe um bom guitarrista, um vestido, e mandei-a pôr-se toda bonita. Estava a principiar e fugia ao compasso. Agora já não foge, criou o seu próprio estilo”, gaba a sua grande referência. A sua e a de quase todas que celebram o encontro de gerações do fado, numa feliz coincidência de agendas sempre lotadas.
“Tenho 40 e um percurso algo isolado. Esta é a primeira vez em que vou fazer parte de um grupo. A Beatriz da Conceição e a Maria da Fé têm uma experiência riquíssima. Imagine-se o que estas mulheres tiveram que enfrentar a trabalhar à noite”, lembra Aldina.
DONA 'BIA'
Espectáculo é promessa que sucede à aventura. A viagem. Dona ‘Bia’ deixa recado a quem disputa a coxia.
Do alto dos 68 anos, põe e dispõe com voz grave e humor de recorte fino. “Já disse que não quero que se sentem ao pé de mim no avião! Vou com os meus rapazes, os guitarristas.”
A visada mor, Raquel Tavares, nem pensa em enfiar a viola no saco. “Chamo-lhe ‘formiguinha’ porque nunca está quieta!”, justifica Beatriz. Raquel não esconde a reverência que uma aprendiz sempre acusa. “Ainda fico muito ‘ó meu Deus, é a Beatriz!’. Quando tenho que cantar para ela é um drama!”
No princípio era o verbo e a perna bamba.
À noite, quando o fado é trabalho mas também conhaque de tanto gozo que dá, as mãos debitavam os caprichos do corpo da sua “grande referência”. “Tinha muitos tiques físicos dela. Nunca tive o intuito de imitar mas, inconscientemente, fazia aquilo. Chamavam-me ‘a Bia em ponto pequeno’!”.
Depois do verbo, um repertório próprio; 22 anos de vida. 17 entre o fado amador. A procissão da ‘escola’ que dá tarimba, diz quem sabe, ainda vai no adro. “Mal de nós se também não aprendêssemos todos os dias!”, lembra Beatriz, afastada há oito anos das casas de fado. “Querem mais novas...”, confessa, sem amargos de boca.
A idade é posto mas não perdoa. Vale que o castigo é brando e a energia abunda na veia de boémia. “Sou galdéria, gosto muito da noite e de ir ouvir as pessoas de quem gosto. Também ouço as antigas. Quando ouvi a Fernanda Maria e a Lucília do Carmo ao vivo, morri. Disse “vai lá para o raio que o parta que não estás cá a fazer nada! Mas a gente vai aprendendo”, assevera ‘Bia’.
Abençoada sangria alfacinha que há muito, muito tempo, a embriagou de coragem. “Ia fazer 22 anos e nunca tinha cantado. Vim passar uns tempos a Lisboa com um casal amigo e fomos aos fados à Márcia Condessa. Bebi um copo e comecei a fazer coros. Só tinha cantado no Porto a lavar a louça e o chão. Depois nunca mais parei.” Primeiro cachet “70 escudos. Pouco, muito pouco...”.
Seguiu-se a casa Viela. E a saudosa Revista. “Fiz umas coisas a representar mas gostava era de ir para os fados!” Leia-se, o fervor na costela de morcego e esqueleto inteiro de tertuliano. “Quando nós, fadistas, falamos sobre o Fado nunca passamos da cepa torta!”, garante Raquel.
JOANA AMENDOEIRA
Mas o chão delas dá uvas. A amizade também tem sumo. Não é a primeira vez que as ondas do Atlantic levam Joana Amendoeira a Londres.
Olhos muito verdes, 25 anos reservados, sorriso fácil que “sem saber muito bem porquê” pegou o Fado de jeito. A escalabitana de gema conhece bem a mais saída da casca. “Eu e a Raquel crescemos muito depressa!
Desde pequena que tenho muita afinidade com as pessoas mais velhas”. Joana inspira-se, claro. E inspira. As novas fornadas que se vão abeirando do Fado num movimento perpétuo. “O Fado está em evolução constante, já não é de ‘faca e alguidar’. É estranho, com a nossa idade, sermos referência de alguém. Às vezes encontro algumas pessoas que dizem que estão sempre a ouvir os meus fados. É fantástico!” Tão ou mais extasiante é actuar. “É uma adrenalina muito grande mas quando começamos a cantar isso desvanece-se. Na casa de fados sentimos as pessoas a respirar. Nos espectáculos, em palco, temos que chamar o público de outra forma”.
Por ‘tu’. Chamam-no na segunda pessoa, mesmo que jurem a pés juntos e firmes na terra que falta muito para encurtar a distância de um deferente ‘você’.
“Tenho 33, se tivesse já descoberto toda a essência do meu fado o que é que faria nos próximos 30?”, interroga-se Mafalda Arnauth. “Prefiro investir no futuro para saber para onde vou. Continuo cá com o meu universo.” Um universo onde cabe todo o Fado. O fado dela. “É uma amálgama que me realiza bastante. Purista, não sou...”
Pode juntar-se ao grupo. À mancha preta com os seus retalhos de cor e detalhes que pontuam a diferença. No final, sobra o grande imponderável que lhe ceifou o curso de Veterinária. “É a maior piada da minha vida... muito séria. Numa praxe da faculdade obrigam-me a cantar o ‘Cheira bem, cheira a Lisboa’.
Foi tão natural que me obrigaram a ir para casa aprender mais! Em seis meses a minha vida transformou-se.”
Virou perfume, no meio dos muitos cheiros que separam e unem os fados de todas elas. “De cada uma tinha uma referência. Curiosamente, a primeira pessoa que conheci nos fados foi a Joana Amendoeira.
A Maria e a Beatriz são duas grandes referências. Os seus sucessos têm uma carga brutal de história, de uma época em que as pessoas se sentavam para compor e em que uma zaragata, uma amizade, dava inspiração.” A natureza baila-lhe no jeito alegre que quer levar “o nosso choro” até Londres. “Tenho uma sensação de flutuação em palco. Ou está lá a emoção e a verdade...ou é mentira”, diz Mafalda.
Não era mentira mas pura metáfora, garante Maria da Fé. Cantar até que a voz lhe doa, nem pensar. “Vou cantar até gostar de me ouvir. Sou muito perfeccionista. As pessoas exigem mais de quem anda cá há muitos anos.”
São 65. A cantar desde os 9. ‘Carreira’ é coisa que se apanha depois de bilhete comprado. Chama-lhe ‘arte’. Porque “Deus assim quis”. E porque a mãe permitiu que trocasse a Invicta pela capital, onde se reza a vida a cantar. “Ela sabia que havia qualquer coisa lá em cima que me ia ajudar. Vim tirar a minha carteira profissional. Sou Maria da Conceição e não podia ter um nome artístico igual a ninguém”, recorda. ‘Maria da Sé’ foi alvitre de pouca dura. O monumento vergou-se ao sentimento: ‘Maria da Fé’.
O estilo, esse constrói-se. E a fadista acontece, como o Fado, hoje com dignidade renovada e caminho menos agreste para quem se aventura. “Esta revoada de gente que canta sem receios é muito bom.
Antigamente, se não cantasse à noite numa casa de fados não tinha dinheiro para comer.” Tudo leva o seu tempo. “A Beatriz agora diz que sou a Piaf do Fado! Gostamo-nos muito. Ela até me pôs o apelido de ‘Rateira’, porque vejo tudo!” Mas em terras de Sua Majestade a visão promete perder para esse sexto sentido que o Fado coroou. A alma. Porque tudo isto o é.
A BOA ONDA DA TRADIÇÃO E INOVAÇÃO
O ‘Atlantic Waves’, festival de música portuguesa organizado pela Fundação Gulbenkian, volta a animar a capital inglesa . A edição deste ano aposta no Fado, na guitarra e na música electrónica. As vozes do fado no feminino escutam-se dia 1 no palco do Queen Elizabeth Hall, acompanhadas de Ricardo Cruz (viola baixo), Luís Pontes (guitarra clássica) e Paulo Parreira (guitarra portuguesa). . No dia 2, o St. Giles Cripplegate acolhe os guitarristas António Chaínho, Custódio Galego e Ricardo Parreira. Os cruzamentos mais improváveis da electrónica e seus derivados acontecem na discoteca Cargo.
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