Há verdades que doem: a maior parte das violações e ofensas corporais a menores ocorre dentro de casa, no seio da família. São notícias terríveis, e apesar de tudo comprovadas, vezes sem conta, nos crimes que nos despertam da letargia habitual.
A utilização de violência física sobre as crianças é tema recorrente entre psicólogos, educadores, governantes e – às vezes – pais.
Ainda no ano passado, a Câmara de Lordes do Reino Unido aprovou um projecto de lei destinado a limitar as agressões físicas sobre as crianças. A iniciativa abriu um largo debate na comunidade, obrigando os legisladores a voltar atrás e a considerarem “aceitáveis” as palmadas leves, desde que não prejudiquem física e mentalmente as crianças ou adolescentes. Ficou por esclarecer a dimensão dessa palavra que faz toda a diferença numa vida: prejuízo.
Aproveitando a boleia, também o Brasil discutiu, mais uma vez, as consequências do castigo físico, chamando à conversa alas moderadas e radicais. O Laboratório de Estudos da Criança (Lacri) do Instituto de Psicologia da Universidade de São Paulo é dos que não querem nem ouvir falar em palmada. E tem um lema para isso: “Se bater em adultos é agressão e em cães é crueldade, por que é que em crianças é educação”?
O pediatra João Gomes Pedro, director do Serviço de Pediatria do Hospital de Santa Maria, tem uma visão muito equilibrada sobre os castigos. Diz o médico (e seguramente um dos maiores especialistas portugueses em crianças) que não concorda com a aplicação de violência sobre os mais pequenos, mas admite que numa situação de desespero uma pai ou uma mãe dêem uma palmada a um filho.
Gomes Pedro, pai e avô, explica que da mesma forma que não existem crianças perfeitas, os pais estão longe de se comportar exemplarmente o tempo todo. Mas faz questão de salientar que o castigo físico é sempre a falência do diálogo e da negociação, assim como a prova evidente do cansaço.
Chegue-se agora à frente quem nunca perdeu a cabeça e, depois de esgotar todas as estratégias pedagogicamente aceitáveis, não se viu a erguer a mão para desferir a terrível palmada? Às vezes, depois do gesto, a culpa é tanta que faz doer a mão o dia inteiro. Mas entre psicólogos e outros estudiosos da mente, não há dúvidas: “Quem castiga esquece, mas quem é vítima não”.
Noruega, Suécia, Finlândia e Dinamarca são quatro dos onze países onde as palmadas, mesmo levezinhas, são proibidas pela lei.
Mas nos Estados Unidos, por exemplo, 61% dos pais que respondeu a um inquérito recente sobre educação manifestou-se favorável à aplicação de castigos físicos como forma de disciplina.
A historiadora Mary del Priore (autora, entre outros, do livro História das Crianças no Brasil) diz que os padres jesuítas do século XV e XVI consideravam a punição uma forma de amor. “O excesso de acarinho devia ser evitado porque fazia mal aos filhos” e a “relação entre pais e as suas crianças teria de ser o espelho do amor divino, segundo o qual amar é castigar os erros, e dar exemplos de vida correcta”.
Muitos pais modernos continuam a acreditar que bater é ensinar, é gostar, pois claro, porque só quem gosta tenta corrigir. Talvez não saibam é que de nada vale a palmada, se não for explicado à criança o motivo da reprimenda. Outros perigos espreitam quem faz do castigo físico uma prática corrente: “Existe uma suspeita de que o acto de bater pode levar o agressor a uma compulsão à repetição, isto é, a adquirir prazer e gozo sádico em bater”, diz o psicólogo brasileiro Raymundo de Lima.
A palmada que já todos (ou quase todos) demos aos nossos filhos não tem nada a ver com a violência física que se descobre por detrás de vidas tristes, e curtas, como a da Vanessa. Ainda assim, talvez valesse a pena pensar até que ponto o bater deixa de ser um acto mais ou menos desculpável, para se tornar um crime. Sem perdão.
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