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MICRONOVELA

Herança de sangue Há heranças que não se escolhem.

“Sofremos vários ataques e emboscadas”

Em Moçambique estivemos em situações que não vou esquecer. Tivemos algumas baixas, mas regressámos com a convicção de dever cumprido

11 de dezembro de 2011 às 00:00

A 2 de Janeiro de 1973 embarcámos em Lisboa com destino à Beira, Moçambique, onde permanecemos alguns dias, para completar a companhia com militares nativos de Moçambique, tendo depois seguido em coluna militar para Tete, com passagem por Dondo, Vila Pery, Vila Gouveia, Guto, Changara, Mazoe e finalmente o fatídico quilómetro 19. Foi ali que montámos o que o nosso capitão veio a chamar ‘Acampamento de Ciganos’, pois no local não existia aquartelamento. Ali estivemos 22 meses.

A nossa missão principal era escoltar e organizar as colunas de viaturas ligeiras e pesadas que transportavam os materiais para a construção da barragem de Cahora Bassa. Dos 5 pelotões de combate que constituíam a Companhia de Caçadores 4244, um escoltava a coluna Moatize-Tete-Cahora Bassa, outro escoltava a coluna Changara (via Beira ou via Rodésia) para Tete, um outro pelotão fazia operações de reconhecimento a pé, no mato, nas áreas envolventes, para garantir mais segurança na passagem das referidas colunas.

Um quarto pelotão estava de serviço na companhia e um outro estava de prevenção para o que desse e viesse. Nos dias em que havia transporte de cargas críticas (turbinas, motores, transformadores e outros equipamentos para a barragem) só ficava um pelotão de serviço à companhia, pelo que os outros quatro tinham de garantir a maior segurança da coluna de carga crítica, também com apoio de grupos de Comandos, Pára-quedistas e Força Aérea.

À excepção das cargas críticas, as colunas normais foram várias vezes emboscadas pelo inimigo, cujos ataques provocaram vários feridos, uns mais graves do que outros. Entre estes feridos conta-se o furriel Vieira, que teve de ser evacuado para a metrópole para ser tratado no Hospital Militar. Além das emboscadas, e como fazíamos muitos quilómetros em viaturas militares, tivemos acidentes, num dos quais resultou um morto, o 1º cabo Augusto Manjate de Moçambique.

Nas mesmas colunas e no início da comissão, por falta de experiência, uma vez ao saltarem da viatura desprendeu-se um dilagrama sem cavilha da arma G3 e rebentou no meio de vários militares, tendo provocado alguns feridos e a morte de dois furriéis, o Castro de Almada e o Mário Oliveira de Leça do Balio.

DESORIENTAÇÃO

Em Maio de 1973 tivemos os primeiros contactos amigáveis com grupos de combate da Frelimo, com pouca duração, uma vez que, por falta de acordo nas negociações de paz entre Portugal e os movimentos de libertação, os guerrilheiros voltaram para as suas bases de apoio no mato, fazendo emboscadas e ataques que resultavam em baixas nas nossas tropas. Com alguma desorientação lá íamos respondendo com os meios que tínhamos.

Estes ataques viriam a terminar em meados de Setembro de 1974, com o tão esperado acordo de Lusaka, em que o Estado português reconhecia o direito de Moçambique à independência. Depois do acordo seguiu-se a transição e a passagem das instalações (por nós construídas) entre a Companhia de Caçadores 4244 e alguns grupos de guerrilheiros da Frelimo.

Chegámos em finais de Outubro de 1974 com a convicção de dever cumprido.

PERFIL

Nome: Jacinto Ramos

Comissão: Moçambique (1972-74)

Força: Companhia de Caçadores 4244

Actualidade: Tem 60 anos e é desenhador de máquinas na Marinha Grande

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