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"Temos de ser melhores"

Aos 28 anos Jaime Ramos era um deputado rebelde. Hoje é um cidadão empenhado na mudança

11 de julho de 2011 às 13:25

Os outros deputados olharam-no como se fosse um extraterrestre quando em 1981 fez uma intervenção na Assembleia da República (AR) sobre as preocupações com a camada de ozono. O tema não estava de todo na ordem do dia. Mas a proposta de lei que apresentou a proibir determinados gases na composição de aerossóis e frigoríficos foi aprovada. Jaime Ramos tinha então 28 anos. Era o deputado mais jovem do Parlamento.

Na sua passagem pela AR, onde ingressou em 1979, eleito pelo PSD, o médico, natural de Miranda do Corvo, não parou de surpreender. Algumas vezes transformou-se numa figura incómoda até para o próprio partido, que chegou a mover--lhe dois processos disciplinares. Um por criticar um ministro quando, em pleno clima de guerra entre o Governo, liderado por Pinto Balsemão, e o então Presidente da República, Ramalho Eanes, defendeu que o País só teria a ganhar com o entendimento. Outro por não respeitar a orientação de voto na lei do aborto, depois de o PSD o ter impedido de apresentar um projecto que permitia a interrupção voluntária da gravidez em certas condições.

Passados 20 anos, o ex-autarca e ex-governador civil de Coimbra volta a questionar o regime vigente e deixa propostas para "restaurar a democracia" no livro ‘Não Basta Mudar as Moscas'. "Profundamente desiludido com a política", o ex--deputado dedica-se hoje à Medicina e preside à Fundação Assistência, Desenvolvimento e Formação Profissional de Miranda do Corvo (ADFP).

A instituição foi criada quando ainda era presidente da Câmara de Miranda do Corvo, com uma filosofia diferente da que existia à data no País. "Em Portugal havia a mania dos guichês. Um resolve um problema, outro resolve outro e às vezes as pessoas que aí estão até têm um certo prazer em dizer ‘não é aqui, é no guichê ao lado"'. Com o objectivo oposto, a instituição procurava dar uma resposta global às carências sociais, com uma lógica de "integração intergerações", com crianças e idosos a conviver nos mesmos espaços, e de pessoas com características diferentes, seja por deficiência ou por doença, nomeadamente a doença mental.

"Não inventámos nada, mas copiámos conceitos que estavam a ser desenvolvidos com sucesso em outros países", diz Jaime Ramos. Foi assim que nasceu a primeira residência assistida para doentes de Alzheimer, ou o lar de apoio à vida e à mulher. Actualmente, no Centro Comunitário residem 270 pessoas, entre bebés, crianças abandonadas ou maltratadas, grávidas em risco, doentes mentais, deficientes e idosos.

A criação da instituição surge de forma natural no percurso de Jaime Ramos, que se afirma um "workaholic", incapaz de viver "sem uma actividade intensa". Desde cedo que esta característica se manifestou. Aos 17 anos criou o grupo musical Surprise Man. O facto de não saber cantar nem tocar qualquer instrumento não foi impedimento. "Arranjei um grupo de pessoas que o sabiam fazer e eu era o manager".

Não resiste a um desafio e a partir de 1974 dedicou-se à actividade política. Foi deputado à AR de 79 a 85. Tinha 26 anos quando chegou ao Parlamento. A primeira lei de prevenção do tabagismo foi apresentada por ele e aprovada por unanimidade. O mesmo aconteceu com a criação das rádios locais. Aqui contou com o apoio do deputado socialista Dinis Alves.

A sua postura no Parlamento valeu-lhe o epíteto de "enfant terrible". Sobretudo quando denunciou que a lei que obrigava os detentores de cargos políticos a declarar os rendimentos ao Tribunal Constitucional não era cumprida. "Isso criou uma situação muito delicada porque era toda uma classe política que devia ser a primeira a respeitar as leis e que estava em incumprimento quase geral". A ousadia valeu-lhe algumas animosidades. Nessa altura acumulava com o cargo de presidente da Câmara de Miranda do Corvo, mas diz que "só ganhava como deputado". Após dez anos à frente do município não se recandidatou. "Defendia um limite de mandatos dos presidentes das câmaras".

Assumiu entretanto o cargo de governador civil de Coimbra e angariou mais alguns inimigos. "Tive um mau entendimento com as pessoas que estavam no Governo. Diziam que era demasiado reivindicativo", recorda. O seu mandato ficou marcado por litígios com ministros que encaravam o cargo como um mero representante do Governo. Jaime Ramos tinha um entendimento diferente e a dinâmica que na altura se desenvolveu permitiu a elaboração de um plano estratégico para o distrito.

O seu nome era recorrentemente indicado para candidato à Câmara de Coimbra. Há dez anos quase avançou. Mas após uma reunião em Lisboa decidiu, ainda na viagem de regresso a Coimbra, recusar a proposta e afastar-se da política.

Uma década depois escreveu o livro ‘Não Basta Mudar as Moscas'. A obra "tem a ver com alguém que se envolveu na política muito intensamente a partir de 1974 e que chegou a 2010 com a sensação de uma profunda desilusão". No livro faz o diagnóstico do País e apresenta a prescrição terapêutica. "Não temos que ser os mais pobres da Europa. Podemos ter outra ambição", defende. Mas reconhece que "no máximo dos máximos, o que os nossos líderes nos apontam é aproximarmo-nos da média da União Europeia".

Jaime Ramos, 58 anos, casado e pai de dois filhos, não se conforma: "Devíamos ambicionar ser os melhores da Europa. Não há nada escrito nos nossos genes que diga que temos de viver pior do que os outros".

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