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TERESA CAEIRO: SOU UMA ESPÉCIE DE CLÍNICA GERAL

Cursou Direito, fez-se jurista e foi aceitando os desafios que a vida lhe propôs. Desde Maio de 2002 que desempenha as funções de Governadora Civil de Lisboa. Nesta conversa fala de si, das viagens que não fez, do trabalho, da família, de sonhos e de realidades.

20 de abril de 2003 às 00:00

Chama-se Teresa Figueiredo de Vasconcelos Caeiro, tem 34 anos, aquariana de signo, jurista de profissão e, em Maio de 2002, “saltou” de Chefe de Gabinete do Grupo Parlamentar do Partido Popular para o Governo Civil de Lisboa. Curiosamente, é tímida e detesta tirar fotografias. Filiou-se no PP em 1996 porque a ideia da sociedade enquanto um todo a seduzia. Trabalha em média 12 horas por dia, incluindo sábados, domingos e feriados, alturas em que aproveita para visitar os concelhos do distrito de Lisboa. Não se queixa e lamenta apenas não ter tanto tempo quanto gostaria para ler, ir ao cinema ou estar com os amigos.

Como é que se sente por ser considerada a “menina bonita” do Governo?

[Risos] Quem é que diz isso? Penso que o que acontece é que há uma certa frustração das expectativas ou seja, no imaginário das pessoas, um governador civil é um homem de meia idade e balofo. Nunca me vi como a menina bonita da casa, do bairro ou do colégio e, muito menos, do Governo mas a verdade é que existem poucas mulheres de determinada idade na vida política activa.

E, para si, a questão das quotas não se resolve por decreto.

Às vezes perguntam-me como é ser-se mulher (jovem) e estar na política. Sou vista como uma “espécie” rara. Penso que tudo isto faz parte de um contexto histórico e cultural. Há 30 anos, as mulheres estavam subjugadas aos maridos, não eram ‘treinadas’ para trabalhar e construírem carreiras. As enfermeiras e as professoras primárias não podiam casar. As mulheres ainda têm um caminho a percorrer que, acredito, está já a ser feito. Na política ou noutras profissões, onde se encontram poucas mulheres, o tempo encarregar-se-á de tudo.

Ou seja, um decreto não alteraria mentalidades?

O efeito do decreto poderia ser catalizador. Repare, eu não tenho uma posição definitiva em relação a este aspecto mas custa-me aceitar que as mulheres tenham que ser “injectadas” por decreto para ocuparem uma determinada quota num determinado lugar. É como dizer a um Hospital que tem obrigatoriamente que ter X número de mulheres médicas.

Que balanço faz deste ano a ‘governar’ o distrito de Lisboa?

É curioso usar-se o termo ‘governar’ porque, porventura, é o que menos se aplica. Penso que foi um ano muito enriquecedor a vários níveis. Conheci e enquanto me mantiver neste cargo, continuarei a conhecer, o que é, de facto, a população do distrito de Lisboa. É enorme e há diferenças abismais entre Lisboa cidade e outros concelhos como, por exemplo, o Cadaval, que é muito rural, ou a Lourinhã. Adquiri uma percepção multifacetada das diferentes realidades com que os cidadãos se confrontam. Dou-lhe um exemplo: em Lisboa, as pessoas estão preocupadas com o trânsito e na Arruda dos Vinhos o que inquieta a população são as sucatas ilegais.

O facto do cargo de Governador Civil poder ser extinto não a preocupa, no sentido de poder deixar projectos inacabados?

Só me lembro dessa hipotética e previsível extinção do cargo quando sou confrontada com isso, nunca acordo a pensar no assunto. É evidente que existem projectos que gostava de ver concretizados, como, por exemplo, a revitalização do espaço urbano na Pontinha. Quanto ao resto, o trabalho do Governo Civil acaba por ter um efeito mais imediato.

Como é que definiria o seu cargo?

[Risos] Eu diria que o Governo Civil está “entalado” entre a Administração Central e o contacto privilegiado que têm as câmaras com a população e respectivos suportes financeiros. No fundo, funciona como um elo de ligação entre uns e outros.

Recebe muitos cidadãos?

Todos os dias! Sou contactada das mais diversas formas e tenho um dia por semana para receber pessoas individuais, associações, grupos. Geralmente, quem pede audiências são as associações (estudantes, recreativas, culturais, de solidariedade...).

Recorda-se como reagiu quando foi convidada para este lugar?

[Risos] A primeira coisa que fiz foi ir à Internet pesquisar tudo o que havia sobre o Governo Civil. Claro que esta consulta não me permitiu formar uma ideia. Reconheço que tinha uma percepção completamente errada.

Se calhar associava o Governo Civil ao trânsito,

à emissão de passaportes...

[Risos] Ainda que as questões do trânsito sejam com as câmaras, a verdade é que existe uma visão muito redutora daquilo que o Governo Civil pode fazer. Mas também lhe digo, um Governador Civil, no fundo, é um generalista.

É uma clínica geral.

Sou. Tenho que perceber um bocadinho de tudo. Dois mil e três é o Ano Europeu das Pessoas com Deficiência e todos os governos civis foram instruídos no sentido de constituírem comissões de trabalho. Com os mesmos recursos humanos, avançamos e temos uma série de trabalhos em curso. Depois dessa reunião, entro noutra com a comissão distrital da segurança rodoviária e, passado um bocado, tenho ainda outra que versa um assunto completamente distinto. É, neste sentido, que digo que sou uma espécie de clínica geral.

Para si, a área da solidariedade é das mais importantes.

Qualquer que seja o trabalho, imprimimos o cunho pessoal e temos uma certa amplitude de movimentos (dentro de um quadro legal, obviamente). A solidariedade é aquela área onde, nos termos da lei, estão menos consignados deveres específicos mas, possivelmente, o meu empenho na solidariedade simboliza o meu cunho pessoal.

A Teresa é jovem e, possivelmente, quer ser mãe. Adiou a maternidade?

Esta não é a melhor altura da minha vida para ter um filho. Tenho dúvidas de que, neste momento, reúna condições para exercer convenientemente o papel de mãe. Nunca premeditei nada na minha vida, as circunstâncias colocaram-me nesta posição mas espero concretizar o desejo de ser mãe.

Passou a sua adolescência em Bruxelas e antes disso viveu em Cabo Verde.

O meu pai é oficial da Marinha e estava em Bruxelas como adido na NATO. Quando era pequena estive uma temporada em Cabo Verde, precisamente porque o meu pai tinha sido ‘colocado’ lá. Frequentei o colégio alemão e, mais tarde, o colégio inglês. Penso que o facto de vivermos no estrangeiro nos dá, de imediato, a percepção de que o mundo não é só Portugal.

E a sua mãe, o que faz?

A minha mãe é formada em Biologia.

Tenho uma irmã seis anos mais nova, formada em Gestão e que adora números! Somos duas irmãs completamente diferentes!

Porque é que seguiu Direito?

Penso que foi um bocadinho por exclusão de partes, ou seja, quis “fugir” à Matemática! Sempre hesitei muito entre Direito e Arquitectura mas cheguei à conclusão que o Direito teria mais afinidades com a minha maneira de ser.

Que viagem é que gostava de fazer e ainda não fez?

O meu sonho é percorrer o mundo em seis meses.

E se tivesse apenas seis semanas?

Gostava de conhecer melhor o Oriente e/ou a América Latina. Não conheço nem a China, nem o Japão, nem o México... e tenho assim algumas ideias. Quero, por exemplo, conhecer a Ilha de Páscoa e a Terra do Fogo. Gostava muito de ir a São Petersburgo. A Praga ou Budapeste. A minha dificuldade é na escolha...

Para onde é que vai nas próximas férias?

[Risos] Não faço ideia. Nem sei quando é que as vou conseguir tirar.

O que mais me violentou desde que tomei posse foi ter que autorizar uma concentração frente à Embaixada de Espanha contra a ilegalização do Batasuna que é um partido, como sabemos, que apoia actos terroristas. E eu tive que dizer “ok, informe-se a Polícia para os efeitos adequados no que se refere ao trânsito”. Mas isto é que é viver em Democracia. Portanto, dizerem de má fé que proibi um desfile por razões pessoais ou políticas, choca-me

Na adolescência e, durante a faculdade, fiz imensas coisas: fui baby-sitter, distribui jornais, fui hospedeira em congressos, dei explicações, fiz traduções...

A minha relação com os meus pais nunca foi de companheirismo, ou seja, vejo-os como educadores e formadores e, obviamente, como as pessoas que me transmitiram valores e princípios

Estamos a informatizar o Governo Civil, que era um serviço inexistente, e temos alterações internas de forma a disponibilizar o salão nobre para podermos ceder a jovens artistas...

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