Cursou Direito, fez-se jurista e foi aceitando os desafios que a vida lhe propôs. Desde Maio de 2002 que desempenha as funções de Governadora Civil de Lisboa. Nesta conversa fala de si, das viagens que não fez, do trabalho, da família, de sonhos e de realidades.
Chama-se Teresa Figueiredo de Vasconcelos Caeiro, tem 34 anos, aquariana de signo, jurista de profissão e, em Maio de 2002, “saltou” de Chefe de Gabinete do Grupo Parlamentar do Partido Popular para o Governo Civil de Lisboa. Curiosamente, é tímida e detesta tirar fotografias. Filiou-se no PP em 1996 porque a ideia da sociedade enquanto um todo a seduzia. Trabalha em média 12 horas por dia, incluindo sábados, domingos e feriados, alturas em que aproveita para visitar os concelhos do distrito de Lisboa. Não se queixa e lamenta apenas não ter tanto tempo quanto gostaria para ler, ir ao cinema ou estar com os amigos.
Como é que se sente por ser considerada a “menina bonita” do Governo?
[Risos] Quem é que diz isso? Penso que o que acontece é que há uma certa frustração das expectativas ou seja, no imaginário das pessoas, um governador civil é um homem de meia idade e balofo. Nunca me vi como a menina bonita da casa, do bairro ou do colégio e, muito menos, do Governo mas a verdade é que existem poucas mulheres de determinada idade na vida política activa.
E, para si, a questão das quotas não se resolve por decreto.
Às vezes perguntam-me como é ser-se mulher (jovem) e estar na política. Sou vista como uma “espécie” rara. Penso que tudo isto faz parte de um contexto histórico e cultural. Há 30 anos, as mulheres estavam subjugadas aos maridos, não eram ‘treinadas’ para trabalhar e construírem carreiras. As enfermeiras e as professoras primárias não podiam casar. As mulheres ainda têm um caminho a percorrer que, acredito, está já a ser feito. Na política ou noutras profissões, onde se encontram poucas mulheres, o tempo encarregar-se-á de tudo.
Ou seja, um decreto não alteraria mentalidades?
O efeito do decreto poderia ser catalizador. Repare, eu não tenho uma posição definitiva em relação a este aspecto mas custa-me aceitar que as mulheres tenham que ser “injectadas” por decreto para ocuparem uma determinada quota num determinado lugar. É como dizer a um Hospital que tem obrigatoriamente que ter X número de mulheres médicas.
Que balanço faz deste ano a ‘governar’ o distrito de Lisboa?
É curioso usar-se o termo ‘governar’ porque, porventura, é o que menos se aplica. Penso que foi um ano muito enriquecedor a vários níveis. Conheci e enquanto me mantiver neste cargo, continuarei a conhecer, o que é, de facto, a população do distrito de Lisboa. É enorme e há diferenças abismais entre Lisboa cidade e outros concelhos como, por exemplo, o Cadaval, que é muito rural, ou a Lourinhã. Adquiri uma percepção multifacetada das diferentes realidades com que os cidadãos se confrontam. Dou-lhe um exemplo: em Lisboa, as pessoas estão preocupadas com o trânsito e na Arruda dos Vinhos o que inquieta a população são as sucatas ilegais.
O facto do cargo de Governador Civil poder ser extinto não a preocupa, no sentido de poder deixar projectos inacabados?
Só me lembro dessa hipotética e previsível extinção do cargo quando sou confrontada com isso, nunca acordo a pensar no assunto. É evidente que existem projectos que gostava de ver concretizados, como, por exemplo, a revitalização do espaço urbano na Pontinha. Quanto ao resto, o trabalho do Governo Civil acaba por ter um efeito mais imediato.
Como é que definiria o seu cargo?
[Risos] Eu diria que o Governo Civil está “entalado” entre a Administração Central e o contacto privilegiado que têm as câmaras com a população e respectivos suportes financeiros. No fundo, funciona como um elo de ligação entre uns e outros.
Recebe muitos cidadãos?
Todos os dias! Sou contactada das mais diversas formas e tenho um dia por semana para receber pessoas individuais, associações, grupos. Geralmente, quem pede audiências são as associações (estudantes, recreativas, culturais, de solidariedade...).
Recorda-se como reagiu quando foi convidada para este lugar?
[Risos] A primeira coisa que fiz foi ir à Internet pesquisar tudo o que havia sobre o Governo Civil. Claro que esta consulta não me permitiu formar uma ideia. Reconheço que tinha uma percepção completamente errada.
Se calhar associava o Governo Civil ao trânsito,
à emissão de passaportes...
[Risos] Ainda que as questões do trânsito sejam com as câmaras, a verdade é que existe uma visão muito redutora daquilo que o Governo Civil pode fazer. Mas também lhe digo, um Governador Civil, no fundo, é um generalista.
É uma clínica geral.
Sou. Tenho que perceber um bocadinho de tudo. Dois mil e três é o Ano Europeu das Pessoas com Deficiência e todos os governos civis foram instruídos no sentido de constituírem comissões de trabalho. Com os mesmos recursos humanos, avançamos e temos uma série de trabalhos em curso. Depois dessa reunião, entro noutra com a comissão distrital da segurança rodoviária e, passado um bocado, tenho ainda outra que versa um assunto completamente distinto. É, neste sentido, que digo que sou uma espécie de clínica geral.
Para si, a área da solidariedade é das mais importantes.
Qualquer que seja o trabalho, imprimimos o cunho pessoal e temos uma certa amplitude de movimentos (dentro de um quadro legal, obviamente). A solidariedade é aquela área onde, nos termos da lei, estão menos consignados deveres específicos mas, possivelmente, o meu empenho na solidariedade simboliza o meu cunho pessoal.
A Teresa é jovem e, possivelmente, quer ser mãe. Adiou a maternidade?
Esta não é a melhor altura da minha vida para ter um filho. Tenho dúvidas de que, neste momento, reúna condições para exercer convenientemente o papel de mãe. Nunca premeditei nada na minha vida, as circunstâncias colocaram-me nesta posição mas espero concretizar o desejo de ser mãe.
Passou a sua adolescência em Bruxelas e antes disso viveu em Cabo Verde.
O meu pai é oficial da Marinha e estava em Bruxelas como adido na NATO. Quando era pequena estive uma temporada em Cabo Verde, precisamente porque o meu pai tinha sido ‘colocado’ lá. Frequentei o colégio alemão e, mais tarde, o colégio inglês. Penso que o facto de vivermos no estrangeiro nos dá, de imediato, a percepção de que o mundo não é só Portugal.
E a sua mãe, o que faz?
A minha mãe é formada em Biologia.
Tenho uma irmã seis anos mais nova, formada em Gestão e que adora números! Somos duas irmãs completamente diferentes!
Porque é que seguiu Direito?
Penso que foi um bocadinho por exclusão de partes, ou seja, quis “fugir” à Matemática! Sempre hesitei muito entre Direito e Arquitectura mas cheguei à conclusão que o Direito teria mais afinidades com a minha maneira de ser.
Que viagem é que gostava de fazer e ainda não fez?
O meu sonho é percorrer o mundo em seis meses.
E se tivesse apenas seis semanas?
Gostava de conhecer melhor o Oriente e/ou a América Latina. Não conheço nem a China, nem o Japão, nem o México... e tenho assim algumas ideias. Quero, por exemplo, conhecer a Ilha de Páscoa e a Terra do Fogo. Gostava muito de ir a São Petersburgo. A Praga ou Budapeste. A minha dificuldade é na escolha...
Para onde é que vai nas próximas férias?
[Risos] Não faço ideia. Nem sei quando é que as vou conseguir tirar.
O que mais me violentou desde que tomei posse foi ter que autorizar uma concentração frente à Embaixada de Espanha contra a ilegalização do Batasuna que é um partido, como sabemos, que apoia actos terroristas. E eu tive que dizer “ok, informe-se a Polícia para os efeitos adequados no que se refere ao trânsito”. Mas isto é que é viver em Democracia. Portanto, dizerem de má fé que proibi um desfile por razões pessoais ou políticas, choca-me
Na adolescência e, durante a faculdade, fiz imensas coisas: fui baby-sitter, distribui jornais, fui hospedeira em congressos, dei explicações, fiz traduções...
A minha relação com os meus pais nunca foi de companheirismo, ou seja, vejo-os como educadores e formadores e, obviamente, como as pessoas que me transmitiram valores e princípios
Estamos a informatizar o Governo Civil, que era um serviço inexistente, e temos alterações internas de forma a disponibilizar o salão nobre para podermos ceder a jovens artistas...
Tem sugestões ou notícias para partilhar com o CM?
Envie para geral@cmjornal.pt
o que achou desta notícia?
concordam consigo
A redação do CM irá fazer uma avaliação e remover o comentário caso não respeite as Regras desta Comunidade.
O seu comentário contem palavras ou expressões que não cumprem as regras definidas para este espaço. Por favor reescreva o seu comentário.
O CM relembra a proibição de comentários de cariz obsceno, ofensivo, difamatório gerador de responsabilidade civil ou de comentários com conteúdo comercial.
O Correio da Manhã incentiva todos os Leitores a interagirem através de comentários às notícias publicadas no seu site, de uma maneira respeitadora com o cumprimento dos princípios legais e constitucionais. Assim são totalmente ilegítimos comentários de cariz ofensivo e indevidos/inadequados. Promovemos o pluralismo, a ética, a independência, a liberdade, a democracia, a coragem, a inquietude e a proximidade.
Ao comentar, o Leitor está a declarar que é o único e exclusivo titular dos direitos associados a esse conteúdo, e como tal é o único e exclusivo responsável por esses mesmos conteúdos, e que autoriza expressamente o Correio da Manhã a difundir o referido conteúdo, para todos e em quaisquer suportes ou formatos actualmente existentes ou que venham a existir.
O propósito da Política de Comentários do Correio da Manhã é apoiar o leitor, oferecendo uma plataforma de debate, seguindo as seguintes regras:
Recomendações:
- Os comentários não são uma carta. Não devem ser utilizadas cortesias nem agradecimentos;
Sanções:
- Se algum leitor não respeitar as regras referidas anteriormente (pontos 1 a 11), está automaticamente sujeito às seguintes sanções:
- O Correio da Manhã tem o direito de bloquear ou remover a conta de qualquer utilizador, ou qualquer comentário, a seu exclusivo critério, sempre que este viole, de algum modo, as regras previstas na presente Política de Comentários do Correio da Manhã, a Lei, a Constituição da República Portuguesa, ou que destabilize a comunidade;
- A existência de uma assinatura não justifica nem serve de fundamento para a quebra de alguma regra prevista na presente Política de Comentários do Correio da Manhã, da Lei ou da Constituição da República Portuguesa, seguindo a sanção referida no ponto anterior;
- O Correio da Manhã reserva-se na disponibilidade de monitorizar ou pré-visualizar os comentários antes de serem publicados.
Se surgir alguma dúvida não hesite a contactar-nos internetgeral@medialivre.pt ou para 210 494 000
O Correio da Manhã oferece nos seus artigos um espaço de comentário, que considera essencial para reflexão, debate e livre veiculação de opiniões e ideias e apela aos Leitores que sigam as regras básicas de uma convivência sã e de respeito pelos outros, promovendo um ambiente de respeito e fair-play.
Só após a atenta leitura das regras abaixo e posterior aceitação expressa será possível efectuar comentários às notícias publicados no Correio da Manhã.
A possibilidade de efetuar comentários neste espaço está limitada a Leitores registados e Leitores assinantes do Correio da Manhã Premium (“Leitor”).
Ao comentar, o Leitor está a declarar que é o único e exclusivo titular dos direitos associados a esse conteúdo, e como tal é o único e exclusivo responsável por esses mesmos conteúdos, e que autoriza o Correio da Manhã a difundir o referido conteúdo, para todos e em quaisquer suportes disponíveis.
O Leitor permanecerá o proprietário dos conteúdos que submeta ao Correio da Manhã e ao enviar tais conteúdos concede ao Correio da Manhã uma licença, gratuita, irrevogável, transmissível, exclusiva e perpétua para a utilização dos referidos conteúdos, em qualquer suporte ou formato atualmente existente no mercado ou que venha a surgir.
O Leitor obriga-se a garantir que os conteúdos que submete nos espaços de comentários do Correio da Manhã não são obscenos, ofensivos ou geradores de responsabilidade civil ou criminal e não violam o direito de propriedade intelectual de terceiros. O Leitor compromete-se, nomeadamente, a não utilizar os espaços de comentários do Correio da Manhã para: (i) fins comerciais, nomeadamente, difundindo mensagens publicitárias nos comentários ou em outros espaços, fora daqueles especificamente destinados à publicidade contratada nos termos adequados; (ii) difundir conteúdos de ódio, racismo, xenofobia ou discriminação ou que, de um modo geral, incentivem a violência ou a prática de atos ilícitos; (iii) difundir conteúdos que, de forma direta ou indireta, explícita ou implícita, tenham como objetivo, finalidade, resultado, consequência ou intenção, humilhar, denegrir ou atingir o bom-nome e reputação de terceiros.
O Leitor reconhece expressamente que é exclusivamente responsável pelo pagamento de quaisquer coimas, custas, encargos, multas, penalizações, indemnizações ou outros montantes que advenham da publicação dos seus comentários nos espaços de comentários do Correio da Manhã.
O Leitor reconhece que o Correio da Manhã não está obrigado a monitorizar, editar ou pré-visualizar os conteúdos ou comentários que são partilhados pelos Leitores nos seus espaços de comentário. No entanto, a redação do Correio da Manhã, reserva-se o direito de fazer uma pré-avaliação e não publicar comentários que não respeitem as presentes Regras.
Todos os comentários ou conteúdos que venham a ser partilhados pelo Leitor nos espaços de comentários do Correio da Manhã constituem a opinião exclusiva e única do seu autor, que só a este vincula e não refletem a opinião ou posição do Correio da Manhã ou de terceiros. O facto de um conteúdo ter sido difundido por um Leitor nos espaços de comentários do Correio da Manhã não pressupõe, de forma direta ou indireta, explícita ou implícita, que o Correio da Manhã teve qualquer conhecimento prévio do mesmo e muito menos que concorde, valide ou suporte o seu conteúdo.
ComportamentoO Correio da Manhã pode, em caso de violação das presentes Regras, suspender por tempo determinado, indeterminado ou mesmo proibir permanentemente a possibilidade de comentar, independentemente de ser assinante do Correio da Manhã Premium ou da sua classificação.
O Correio da Manhã reserva-se ao direito de apagar de imediato e sem qualquer aviso ou notificação prévia os comentários dos Leitores que não cumpram estas regras.
O Correio da Manhã ocultará de forma automática todos os comentários uma semana após a publicação dos mesmos.
Para usar esta funcionalidade deverá efetuar login.
Caso não esteja registado no site do Correio da Manhã, efetue o seu registo gratuito.
Escrever um comentário no CM é um convite ao respeito mútuo e à civilidade. Nunca censuramos posições políticas, mas somos inflexiveis com quaisquer agressões. Conheça as
Inicie sessão ou registe-se para comentar.