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“Todos os super-heróis que desenhei foram especiais”

Mike Deodato, Jr. está este fim-de-semana no 23º Amadora BD para inaugurar a exposição dedicada aos 50 anos do Homem-Aranha. Um olhar particular sobre o trabalho do artista brasileiro antes de um fim-de-semana em cheio no Fórum Luís de Camões.<br/>

28 de outubro de 2012 às 15:00

Correio da Manhã - Vai estar no Amadora BD a 27 e 28 de Outubro. O que espera do festival?

Mike Deodato Jr. - A maioria dos eventos em que participei tem o formato das convenções americanas, que estão voltadas principalmente para a divulgação e venda de produtos ligados ao mundo da banda desenhada. Pelo que sei, o Amadora BD está mais virado para as histórias de quadradinhos como Arte do que para o negócio. Se assim for, então espero conversar e trocar ideias com os fãs e os autores que lá estarão sobre a nossa paixão comum.

- Conhece algum autor português da banda desenhada portuguesa ou o desconhecimento é total?

- Confesso o meu desconhecimento, salvo alguns autores da velha guarda. Jaime Cortez e Eduardo Teixeira Coelho são os que me vêm à memória; dois génios. Mais recentemente, conheci o trabalho de André Lima Araújo, com o qual fiquei muito impressionado.

- Tem algumas das suas pranchas de originais na exposição dedicada aos 50 anos do Homem-Aranha...

- É o meu pequeno contributo para a mitologia do Homem-Aranha, apenas uma fracção de uma carreira com quase três décadas. Estou a ficar velho…

- O Homem-Aranha é uma das personagens mais apetecíveis para qualquer desenhador. O que sentiu quando foi convidado a renovar algumas das características do super-herói?

- Já tinha desenhado o Homem-Aranha de forma esporádica há alguns anos, mas em 1998 foi a primeira vez que peguei na personagem como desenhador regular na revista ‘Amazing Spider-Man’ durante 30 números. O maior desafio foi manter o nível de qualidade estabelecido pelo anterior artista da revista, John Romita, Jr., considerado uma lenda no ramo.

- O que mais o entusiasmou quando desenhou o Homem-Aranha?

- Nessa altura, o argumentista era J. Michael Straczynski, que tem como principal característica focalizar-se no lado psicológico dos personagens; foi esse aspecto que me atraiu. Pude exercitar o uso de grandes planos e expressões subtis, como olhares ou mordida de lábios, no desenho dos heróis.

- E como vê a personagem, que, ao fim de 50 anos, mantém os traços essenciais que o tornaram popular?

- O apelo está, justamente, no facto de terem preservado as suas características básicas, que o tornam facilmente identificável pelo leitor. A falta de sorte e os problemas com a falta de dinheiro enquanto combate o crime, ou seja, as dificuldades de uma pessoa comum, mas mantendo sempre o bom humor.

- Desenhou também outros super-heróis que são históricos nos ‘comics’ norte-americanos. Qual o que lhe deu mais prazer?

- Todos os super-heróis que desenhei foram, de alguma maneira, especiais para mim, mas o que me deu mais prazer foi o Wolverine, dos X-Men. Gostaria muito de voltar a desenhá-lo.

- Como é que o seu pai, assim como grandes mestres como Will Eisner, Burne Hogarth, Jack Kirby, Neal Adams ou Joe Kubert, entre tantos outros, influenciaram o seu trabalho?

- O meu pai, Deodato Borges, ensinou-me e incentivou-me desde criança a desenhar. Foi ele que me ‘apresentou’ as obras desses mestres. E foi com eles que aprendi tudo o que sei, ao estudar exaustivamente cada detalhe das artes de cada um deles.

- A internacionalização do seu trabalho ganha primeiro importância na Europa. Como é que as grandes editoras norte-americanas, como a Marvel e a DC Comics, o descobriram?

- Foi graças ao trabalho pioneiro de Hélcio de Carvalho e Dorival Lopes, que fundaram a primeira agência no Brasil para representar artistas brasileiros no estrangeiro. Ofereceram-me um trabalho para a revista ‘Santa Claws’, que entreguei dentro do prazo, o que me permitiu ganhar novos projectos. Na primeira oportunidade que tive, fiz um teste para a revista ‘Mulher-Maravilha’ (‘Wonder Woman’), da DC Comics, e fui contratado para o lugar. As vendas da revista triplicaram após os primeiros números que desenhei, em 1994/1995, e logo todas as grandes editoras estavam a disputar o meu passe.

- Quais os maiores desafios que um artista encontra no mercado americano?

- Além da qualidade do trabalho, o profissionalismo é muito importante. É um mercado pequeno, com muitos desenhadores a disputarem um lugar no meio. O artista tem de provar o seu valor todos os dias.

- É possível fazer uma carreira no mundo da banda desenhada? Quais os conselhos que dá a qualquer um que se inicia nesta arte?

- Certamente. O meu conselho é fazer o que se gosta, sem pensar no sucesso ou no enriquecimento. A fama e o dinheiro são a consequência desse trabalho, mas não o objectivo final. É importante que o artista se divirta, que ame o que faz.

- Como avalia o estado da arte no Brasil?

- O panorama é bastante positivo, com o aparecimento de novos autores e com muitas editoras a investirem no meio. Os festivais de banda desenhada têm-se multiplicado, assim como as vendas de livros e revistas. Estou muito animado com a situação actual.

- E como é que a internacionalização de argumentistas e desenhadores brasileiros tem beneficiado o mercado do país?

- Julgo que é importante para a divulgação da banda desenhada no Brasil. Ter ídolos no seu próprio país deve servir como inspiração para atrair mais leitores e novos autores.

- No que é que está a trabalhar neste momento? Há ideias para criar heróis próprios ou histórias de autor, que afinal nunca deixou de fazer?

- Estou a finalizar a revista ‘New Avengers #34’ (‘Novos Vingadores’). Depois desse trabalho, devo integrar a equipa criativa da revista ‘The Avengers’ (‘Os Vingadores’), que é escrita por Jonathan Hickman. Estou também a lançar um trabalho próprio – A Arte Cartum de Mike Deodato, Jr. –, que é uma compilação de ‘cartoons’ e pranchas de quadradinhos que tenho feito para a minha esposa e para a minha filha ao longo dos anos.

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