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MICRONOVELA

Herança de sangue Há heranças que não se escolhem.

Torre de Babel

Na sua maioria africanos. Treparam por um prédio ainda em esqueleto para construir paredes – e subtraírem à sua miséria a tristeza de não ter morada.

17 de setembro de 2006 às 00:00

Os africanos são felizes, a vida no bairro do Jamaica não. Rompe uma dança estridente de kizomba na bagageira de um carro – africano gosta de ouvir música alto. Os olhares desconfiados lançam-se sobre os que ousam entrar numa zona clandestina: ou são da bófia ou da Câmara do Seixal – julgam. São-tomenses, angolanos, cabo-verdianos, guineenses misturam-se e, numa margem, ciganos. Cada qual com seu idioma e sua cultura, juntos construíram uma espécie de Torre de Babel, a partir dos esqueletos em betão de uma obra interrompida. O mergulho na criminalidade é uma dualidade típica dos bairros degradados. Está entre a realidade de quem lá mora e a ofensa de quem vem de fora.

Uma manhã calma. Banana com óleo de palma e cozido de peixe na roulotte da Bela. Custa 2,5 euros. Não precisa de néons à americana para fazer passar a publicidade. Florbela Santa Rosa, 42 anos, ganhou há dois meses a caravana do seu negócio. Deu-lha um cigano. Receosa, não quer falar. À volta da panela do cozido, sentados na esplanada, alguns clientes incitam-na. “Conta os teus problemas, Bela.” A são-tomense acata: “Sem documentos não posso trabalhar. Como não posso roubar nem vender droga, por isso, fiz esta barraca.” Sempre que precisa abastecer a venda, vai a casa.

“Cuidado, está escuro”, avisa à entrada da torre. O piso é cimento, as paredes são tijolo, o tecto é placa. Há buracos no vão das escadas íngremes. Armadilhas num emaranhado de fios eléctricos que se cruzam de baixo para cima. É preciso perícia para evitá-los. No 2.º andar, a mulher desabafa: “O meu marido português abandonou-me com a nossa filha.” Nilza, 2 anos, precipita-se a barrar o acesso à casa: “Ninguém entra”, grita. A mãe lamenta que ela diga asneiras, mas há pouco a fazer já que a menina não tem vaga na creche comunitária, diz Bela. Anda por aí – nas ruas. A casa está sufocada pelas grades de cerveja, os sofás, nem vê-los no meio de tantos objectos espalhados. E a Nilza, terá bonecas no quarto? A desarrumação oculta vestígios de que a menina tenha brinquedos.

Este mundo não foi feito para crianças. Andam pela rua a brincar com sucata, rodas de bicicleta, ferros, aos saltos no topo dos carros velhos. Só que é difícil tirá-los dali. Há pelo menos uma criança em cada casa, sem mundo de infância entre aqueles tijolos – falta fantasia e brinquedos para deixá-las crescer, devagarinho. Tudo para não se transformarem em gente grande. Os mais velhos não despegam as mãos dos pequenos e assim por diante. Tomam conta uns dos outros até protegerem o caçula.

“Vocês vão-nos dar casa?”, pergunta à reportagem da Domingo André Tati, 9 anos, enquanto mostra as danças que já aprendeu a tocar no batuque. Esta é a incerteza de todos: quando vão receber uma casa nova, condigna.

Só na torre de sete andares habitam mais de 150 famílias pobres. E.A., 15 anos, faz parte dessa condição. Esconde as suas origens dos colegas da escola, em Almada. “Tenho vergonha de viver numa casa assim, enquanto eles vivem num sítio normal.”

Do terraço da torre, o rapaz apresenta a vista. O Jamaica surge como uma ilha no meio de prédios que ele não hesitava em trocar pelo seu. Não há ruelas nem becos. A escuridão está no interior de três prédios colados. Adiante, mais dois, ao lado das casas da família Lima, os ciganos. A associação do bairro (onde ensaia a banda de hip hop, Jamaica). O centro comunitário. Antes de dizer alguma coisa, E.A. mete a mão no boné, olha ao redor. “Aqui não se faz nada”, desvaloriza. Na verdade, o miúdo que passou para o 9.º ano “queria ser cientista, trabalhar com química, inventar coisas.” Só que não é bom aluno a Química. Em contrapartida, na culinária já se esmera e, também, a criar música. Claro: kizomba, kuduro, Funaná e hip hop. O telemóvel toca e E.A. aproveita a deixa, desaparece.

A obra pertence aos moradores. Em 1983 chegaram os primeiros ao Vale de Chicharros. Passavam palavra de boca em boca: tinham encontrado um sítio para viver, onde não se paga renda, no Seixal. Havia um problema: os prédios tinham apenas pilares e placa. Habituados às obras, entre amigos, patrícios e familiares, não tardou a chegar mão-de-obra para assentar tijolos às casas. Levaram anos a construir paredes e, mesmo hoje, ainda há quem tenha o estaleiro na sala. O ti João é um deles, no 5.º andar da torre, vive com duas filhas, um irmão e um bebé. Entretanto, aquelas terras passaram das mãos da CGD para privados. No lugar onde podia estar um condomínio de luxo, vive-se na miséria. À espera que a autarquia realoje poucas centenas de famílias.

“A gente está a viver aqui com bicharada, sem esgotos e ninguém resolve o problema”, reclama Maria de Lurdes, 48 anos. As filhas, de 11 e 21 anos, vivem revoltadas numa casa onde nem a janela se aventuram a abrir. Nas traseiras, corre uma fossa a céu aberto. “Está a ver o esgoto? Isto são fezes.” O cheiro, apesar de ser chamariz para ratos, é nauseabundo para as pessoas. A cave está cheia de esgoto, diz. O rés-do-chão de Maria de Lurdes respira o que vem de baixo e a pobreza enclausura estas mulheres a uma casa que é um verdadeiro caso de saúde pública. A subsistência depende dos parcos 250 euros, que a viúva ganha nas limpezas. As filhas estudam para mudar de condição.

Aliás, são as limpezas que salvam as contas de muitas casas ali. As mulheres conseguem arranjar algumas horas. Os homens, dos 16 aos 50, vão para as obras. Só regressam ao final da tarde.

“Cheguei ao Jamaica!” O mesmo grito todos os dias, a mesma bebedeira de um só homem no regresso a casa. Reza a estória que assim se baptizou o bairro. Passaram décadas e Amarildo Noronha, 31 anos, revolucionou o conceito de bar no bairro. A partir das 17h00 há música africana, conversas e abusa-se da bebida. “Não entra aqui porquê, está de mal comigo?” – grita a uma miúda que passa. Ela entra, espreita o café. O chão negro brilha. “Está bem bonitinho”, elogia. O melhor: beber não é problema. “Não é preciso ter dinheiro, fazemos crédito àqueles que são pais de família.” Cerveja a 60 cêntimos, colas a 70.

Segundo fontes policiais, a má aparência do bairro não corporiza o que lá dentro se passa. A calmia paira. Como são famílias pobres, é fácil para os toxicodependentes escoarem os produtos dos seus roubos, a preços baixos. “Não é um bairro difícil”, frisam. Os principais desacatos têm a ver com o consumo de álcool e drogas. De vez em quando, ouvem-se tiros.

RAPARIGAS ENGRAVIDAM CEDO

As raparigas engravidam cedo para depois, quase sempre, serem abandonadas pelos companheiros. Os rapazes têm que trabalhar deste tenra idade. É urgente afastá-los da marginalidade. A Associação para a Defesa das Minorias Étnicas (ADIME) nasceu no bairro para isso. “Tentamos trazer as raízes africanas, através do teatro, dança, artesanato, pintura”, conta orgulhoso Daniel, o monitor de artes plásticas. Embora não se sintam excluídos pela raça, apostam num gabinete de apoio à imigração juntamente com o Alto Comissariado para a Defesa das Minorias Étnicas (ACIME) e a Câmara do Seixal. Trabalha-se pela união dos moradores, dentro e fora do Jamaica, apesar das muitas limitações.

Daniel e Augusto, segundo secretário da mesa da Assembleia da ADIME, voluntariam-se como cicerones do bairro. Numa roulotte grita-se “bófia” e os dois homens do bairro, numa sinalética rápida, provam que não, são jornalistas. “Andam ratos por toda a parte. Há lixo espalhado.” Daniel relata o visível.

Tudo se degrada. A cabeleireira fechou a porta para fazer obras na sala. “Penteados afro-americanos”, lê-se à entrada. “Vim de Angola, refugiada de guerra”, apresenta-se A.C., 50 anos. Sete filhos trazia nos braços. “Fiquei desempregada e disseram-me que aqui havia uma casa para ocupar. Agora, estamos à espera que a Câmara cumpra a promessa de nos dar casa.” Aos fins-de-semana, o único salão do Jamaica pode render 20 a 30 euros. Mas há muitas clientes que não pagam 5 a 12 euros para fazer, por exemplo, tranças.

Os rendimentos das famílias mal dão para comer. Muitas vivem da boa vontade dos filhos que não moram lá, ou de vendas fiadas no talho. Ninguém paga renda de casa, a luz vem de uma velha central de transformação eléctrica que os moradores puseram a trabalhar. A água, é a Câmara que dá. Na rua 25 de Abril, nem todos têm caixa de correio. Mas há uma marca que destoa da pobreza: as parabólicas da TV Cabo.

Guilherme Pedro, 67 anos, é um dos que vê televisão por cabo. A sua casa, que não seria mais que um quarto escuro, está marcada pelas saudades. O ladrilhador já foi professor de Matemática em Angola. Na parede tem um quadro daqueles que se usa na escola. “Fogueteiro, 12 de Setembro de 2006”, escreveu em cima de uma equação de segundo grau resolvida. “Às vezes, faço revisões para mim próprio. Para não esquecer, claro.” Só o sonho de vir a ter casa nova alimenta a esperança de um dia poder dar explicações.

Numa margem do bairro, as casas pequenas pintadas de branco são dos ciganos. A família Lima é a prova de que todos podem conviver em harmonia. A pobreza das casas é a mesma, embora estas estejam mais arrumadas e limpas. As baratas espalham-se, os ratos atemorizam as crianças, o lixo cheira mal. Dinora resume a angústia: “Temos de dormir todos juntos no chão. Somos como os porcos.”

APOIO COMUNITÁRIO NO JAMAICA: O MUNDO DAS CRIANÇAS

Às 15h00, as crianças até aos quatro anos estão a dormir a sesta. A associação de solidariedade ‘Criar-t’ instalou-se no bairro do Jamaica para apoiar as famílias carenciadas, embora trabalhe noutros bairros. Na creche para 15 crianças dos 18 meses aos dois anos há espaço para viver a infância. Os brinquedos são doseados com jogos infantis. Nos dois jardins de infância, meninos e meninas até aos quatro anos já podem entreter-se com jogos didácticos, a jogar à bola, a andar de trotineta, a conviver com o que não têm em casa. Depois, até aos 16 anos ocupam-se no centro lúdico. Os que já andam na escola têm apoio nos trabalhos de casa, mas todos têm à disposição uma biblioteca, espaço de cinema e de informática.

Segundo a psicóloga que trabalha no terreno, a actividade desenvolvida pela ‘Criar-t’ incide muito numa fórmula para colmatar os problemas da vida das famílias do Jamaica. No entanto, a especialista prefere não revelar os casos com que se depara no seu dia-a-dia. Além das crianças, os adultos podem ainda encontrar apoio jurídico, psicológico, de acção social ou, por exemplo, um reforço alimentar para levar para casa.

A pouca abertura destas populações para o exterior obriga a que o trabalho dos especialistas da área social seja feito no terreno. O mesmo se passa com a assistência à saúde. O Ministério da Saúde, através do centro de saúde da área limítrofe, proporciona que uma equipa móvel se desloque frequentemente ao Jamaica para o atendimento à população. Os cuidados de saúde básicos, desde vacinas e planeamento familiar. A Domingo tentou saber os planos de realojamento da Câmara do Seixal, mas não obteve resposta atempada.

O BAIRRO DO FOGUETEIRO (SEIXAL): VIZINHANÇA MODERADA

Maria Santos, 53 anos, arrendou casa nos prédios novos junto ao Jamaica. O barulho incomoda-a, mas não tem medo de sair à rua. “Mas não têm sido muito boa vizinhança”, ajuíza. Já Olga Oliveira, da Pastelaria Doce Mito, considera que os moradores do Jamaica são “humildes”. As crianças compram o pão com o dinheiro todo contado e os adultos só lá passam quando vêm do trabalho. Os promotores imobiliários da zona é que não estão muito satisfeitos com um bairro que dificulta a venda de casas.

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